#SHIFTER2015: a ciência que marcou o ano


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Sempre nos sentimos fascinados com a inovação, e chegar mais longe foi algo que, desde cedo pautou os primeiros seres humanos que foram construindo e criando, fazendo desde sempre Ciência.

No rescaldo de 2015, trazemos-te as melhores e mais marcantes histórias que os cientistas nos proporcionaram. Da Astronomia à Medicina, passando pela Arqueologia, Ecologia e Física, estes foram, para nós, os feitos que pelas suas repercussões imediatas e pelo seu potencial futuro, marcaram um ano de Ciência.

 

CRISPR: “o corte e costura” do Genoma Humano

Uma das estrelas do ano que passou foi, sem dúvida, o consolidar desta tecnologia que, de há uns anos a esta parte, tem modificado a engenharia genética e esconde um potencial imenso no que diz respeito à modificação do ADN humano com fins terapêuticos. O CRISPR é uma tecnologia de edição do genoma, extraída de um mecanismo de defesa presente nas bactérias, o CRISPR/Cas9, e alia a sua simplicidade ao facto de ser altamente eficaz no processo de corte e costura do ADN.

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Apesar de já ter sido descoberta há alguns anos, foi em 2015 que esta tecnologia patrocinou dois dos mais fascinantes e controversos feitos nesta área: a criação de uma linhagem de moscas do género Drosophila, cuja mutação no gene de um progenitor foi passada a 95% da prole, abrindo caminho para a aplicação prática no controlo de pestes e doenças transmitidas ao homem pelos insectos como a malária); e, na China, a primeira manipulação genética de embriões humanos. Duas realizações que reúnem em si tanto de incrível como de controverso e que fazem do CRISPR um dos destaques de 2015 e um assunto a seguir no ano que se avizinha.

Teixobactina: um novo antibiótico, tantos anos depois

Num ano em que as notícias sobre infecções hospitalares resistentes aos antibióticos fizeram cabeçalhos no nosso país, a descoberta da teixobactina veio trazer uma esperança no combate aos microrganismos infecciosos. O composto produzido por uma bactéria só agora identificada, a Elephtheria terrae, mostrou-se altamente eficaz no combate a infecções por bactérias Gram positivas em estudos levados a cabo no laboratório. Ao mostrar-se eficaz, a teixobactina revela-se não só como uma promissora arma no combate a bactérias resistentes a grande parte dos antibióticos disponíveis, como abre caminho à investigação de mais compostos produzidos por bactérias presentes nos solos, e que pode, em breve, levar à revelação de novos compostos.

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Vacina contra o Ébola: o caso da epidemia

A doença que mais marcou os últimos tempos e que, desde que surgiu no Golfo do Congo em 2013, só teve o seu epílogo neste ano que passou, mais concretamente a partir de finais de Novembro, altura em que deixaram de ser reportados novos casos. O vírus do Ébola, que ascendeu à condição de epidemia no verão de 2014, matou, segundo dados da OMS, 11.315 pessoas de entre as 28.640 que foram infectadas pelo vírus, maioritariamente na Serra Leoa e Libéria. Mas o que ganha o nosso destaque nesta lista é a criação da vacina contra o vírus, a VSV-ZEBOV, da Merck e da NewLink Genetics, que alcançou nos primeiros testes em populações humanas uma eficácia de 100% contra o vírus, faltando apenas demonstrar a capacidade de imunidade de grupo. A vacina começou a ser distribuída na Guiné Conacri no verão deste ano e, até agora, tem tido excelentes resultados, acompanhada do declínio da epidemia.

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Água em Marte 

Este ano foi confirmada pela primeira vez a existência de água no estado líquido noutro planeta para além do nosso, mais especificamente no nosso vizinho Marte. A descoberta foi levada a cabo por cientistas da NASA, a partir de imagens recolhidas pelo satélite Mars Reconnaissance Orbiter (MRO) em 2011, e publicada este ano na revista Nature Geoscience. Segundo os investigadores trata-se de água salgada corrente, ou gotejante, de origem ainda desconhecida. No entanto avançam com a possibilidade de ser proveniente de gelo existente dentro do planeta, de lençóis de água salgada ou da condensação da atmosfera marciana. O potencial desta descoberta é enorme, já que poderá ter implicações na existência de vida microscópica no planeta, tornando-o ainda mais atraente para as viagens tripuladas planeadas para 2030.

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New Horizon: a descoberta do “coração” de Plutão

A missão New Horizon veio quebrar a ideia preconcebida de que Plutão era uma rocha gelada e desinteressante. Um vislumbre inédito da sua superfície mais recente que o expectável, com uns estimados 100 milhões de anos, veio desafiar a ideia de que Plutão seria um planeta geologicamente inactivo, já que a idade do sistema solar é de cerca de 4,56 mil milhões de anos. Como planeta-anão, a gravidade de Plutão é bastante inferior à terrestre. Este factor era considerado fundamental para a existência de actividade geológica, o que agora é posto em causa à luz das novas imagens. Após ter percorrido 4800 milhões de quilómetros durante 9 anos de viagem e ter conseguido seu voo rasante a Plutão, a sonda segue agora para o cinturão de Kuiper, onde irá estudar um objecto de média dimensão conhecido por 2014 MU69.

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Reactivação do LHC: o reiniciar da maior máquina do Mundo

Também no campo da física fundamental houve grandes avanços. Após a descoberta do Bosão de Higgs no Large Hadron Collider (LHC) do CERN em 2012, a actividade desta impressionante máquina esteve interrompida para manutenção. As melhorias implementadas durante os dois anos de interregno permitiram aumentar a energia das colisões de partículas de 6,5 TeV (teraelectrão-volt) para 13 TeV. O aumento de energia permite escrutinar partículas e eventos que de outra forma estariam inacessíveis. Os resultados destas melhorias não tardaram a chegar sob forma de uma nova descoberta: o pentaquark, uma nova partícula já prevista pelos físicos teóricos desde os anos 60. Experiências mais recentes apontam ainda para existência de uma outra nova partícula, mas são resultados muito preliminares a confirmar em 2016.

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Energia Solar 

Por diversas vezes a energia solar esteve em destaque ao longo de 2015. Um mega projecto solar Marroquino visa gerar 42% das necessidades energéticas do pais a partir de 5 fábricas com uma capacidade produtiva combinada de 2.000 megawatts. Já a Índia revelou o primeiro aeroporto do mundo a funcionar exclusivamente a energia solar sendo que para além do aeroporto, a energia gerada irá permitir a alimentação de 10 mil habitações. No âmbito dos transportes, o avião Solar Impulse conseguiu um feito inédito ao dar a volta ao mundo utilizando apenas energia solar.

Solar Impulse lands in Hawaii

Mas não só de grandes projectos é feita esta reforma energética. A Google deu o seu contributo para que a produção de energia solar chegasse à casa dos consumidores através do projecto Sunroof. Este visa providenciar estimativas do potencial de produção energética de cada casa através de fotografias tiradas por satélite. Permitindo a cada utilizador avaliar a viabilidade económica da instalação de painéis fotovoltaicos no telhado da sua casa. A Tesla de Elon Musk não se ficou atrás, com o anúncio de que iria comercializar baterias eléctricas domésticas. Estas não só irão permitir aos produtores “caseiros” de energia solar, armazenar a energia produzida, como também aliviar o stress exercido na rede publica devido às horas de pico de consumo. As baterias esgotaram em pouco tempo, o que poderá sinalizar que em breve haverá uma adopção em massa a esta energia renovável.

Cimeira de Paris

Os avanços na energia solar tiveram impactos positivos nas emissões de dióxido de carbono, mas não o suficiente para travar a potencial catástrofe ecológica que se avizinha sob forma do aquecimento global. A cimeira de Paris, que juntou representantes de praticamente todos os países do mundo, visou a delineação de uma estratégia à escala mundial no combate a este problema.

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Como seria de esperar, as opiniões dividem-se quanto à eficácia das medidas acordadas, sendo um dos pontos focais da discussão a margem de aumento de temperatura que deverá ser permitida. Actualmente a temperatura média global subiu já 1 ºC em relação à temperatura anterior à revolução industrial, e, apesar de ser consensual que não se deve ultrapassar os 2 ºC, especialistas afirmam que os compromissos estabelecidos na cimeira apontam para uma subida de 3 ºC. Por outro lado, o acordo estabelecido pretende ser o inicio de um processo de colaboração internacional iterativo, em que os lideres se comprometem a rever os avanços e o cumprimento das medidas a cada cinco anos. Abordagem esta que contrasta com a utilizada em cimeiras anteriores. Independentemente de tudo, este acordo é sem dúvida um passo importantíssimo para a conservação e sustentabilidade do nosso planeta.

Elon Musk

Se há um nome que tem marcado os avanços científicos e tecnológicos de 2015, esse nome será sem dúvida Elon Musk. O sul-africano tem mão em algumas das empresas mais inovadoras do momento, nomeadamente a SpaceX e a Tesla. A Tesla, para além de estar na linha da frente da inovação automóvel, parece ter encontrado um novo mercado para a sua tecnologia de armazenamento de energia. A adaptação das baterias automóveis para uso doméstico deu origem às baterias Tesla Powerwall, que foram extremamente bem recebidas, esgotando em pouco tempo. Mas as inovações na Tesla não se ficaram por aqui. Uma actualização de sistema disponibilizada pela Tesla, veio adicionar um modo de condução em piloto automático, ou seja, veio permitir que estes carros tenham a capacidade de conduzir de forma completamente autónoma em determinadas circunstâncias. A SpaceX fez igualmente história após ter conseguido, ao fim de três tentativas, aterrar o primeiro módulo do seu foguete, o Falcon 9. Este feito poderá vir a ser revolucionário para a indústria aeroespacial.

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Não obstante, o impacto de Elon Musk estende-se para além destas duas empresas. Ora vejamos: é membro do conselho de administração de uma das maiores empresas de energia solar, a Solar City, uma das suas propostas para revolucionar o transporte de pessoas a longa distância, o Hyperloop, está a tornar-se uma realidade pela mão de várias empresas, e, no início do ano, fez uma doação de 10 milhões de dólares para evitar os perigos da inteligência artificial.

Homo naledi

Foi na África do sul que Lee Berger, professor da Universidade de Witwatersrand, veio a descobrir a caverna “Rising Star” que continha em si ossadas de um parente longínquo do ser humano, o Homo Naledi. Na caverna foram encontrados 15 indivíduos, mas o investigador considera que a gruta poderá conter muitos mais. Este facto é absolutamente inédito porque parece indicar que esta espécie enterrava os seus mortos, fazendo da caverna um cemitério. A confirmar-se, este facto faria desta espécie a primeira a executar cerimónia fúnebres para além do Homo Sapiens. A sua fisionomia é muito diferente da dos seres humanos actuais, com 1,5 m de altura e um cérebro do tamanho de uma laranja. Contudo, é mais uma peça na história da raça humana.

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