#SHIFTER2015: os melhores álbuns


Foi em 2015 que a indústria musical curvou definitivamente na direcção do diferente. O pop abrandou, mascarou-se, o rock voltou a sair do baú, desempoeirado, e o hip-hop estabeleceu-se como a ponte entre todos os espectros da sociedade, como um remendo de classes, multi-abrangente.

Foi também este ano que Sinatra celebrou o centésimo aniversário, que Lemmy deixou o rock orfão e que a guitarra de B.B. King deixou de chorar o Delta Blues do Mississipi. Com toda a mudança e progresso que a música passou a respirar, as opções seriam mais do que muitas. Por isso, e porque a qualidade abunda, este é o top Shifter de alguns dos trabalhos que carimbaram o ano com selo de ouro.

 

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To Pimp A Butterfly – Kendrick Lamar

Já deve ter sido tudo dito acerca deste álbum de Kendrick Lamar, mas há uma mensagem que continua a ser de grande importância transmitir: No momento em que o hip-hop é o novo rock, que é o estilo de música que capta mais pessoas e, também, mais jovens, é preciso colocar num pedestal a responsabilidade de Kendrick em não rimar sobre as banalidades e luxos do costume. Este disco é uma história que precisava de ser contada e em cada um dos seus aspectos – melodia, flow, lírica – é uma obra de arte, a milhas de qualquer outro trabalho do género. Obrigado K-Dot.

 

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Another One – Mac DeMarco

O canadiano pode não ser o nome mais consensual da indústria mas é garantido que sabe fazer boa música. Another One foi o terceiro disco e, à semelhança do que aconteceu com os anteriores, vinha polvilhado de uma leveza incrível, com riffs viciantes, arranjos bem feitos e letras que, se nos conseguirmos separar da imagem joker, fazem bastante sentido. Há poucos discos assim, que remendem corações e que se possam ouvir em qualquer altura. Este é um deles.

 

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Goon – Tobias Jesso Jr.

Quantas histórias não começam como esta? Um músico que vai viver para Los Angeles, começa a tocar guitarra na banda de um qualquer aspirante de rockstar, e passa lá quase uma década a tentar atingir o pico como ghostwriter. O plot twist aqui é que Tobias é atropelado, acaba o seu namoro e descobre que a sua mãe tinha cancro, regressando a casa. É lá que descobre o seu velho piano, um instrumento ao qual nunca tinha dado muita atenção e onde escreve este incrível disco baladeiro – no melhor sentido do termo.

 

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What Went Down – Foals

Se descrever a qualidade de um disco fosse fácil, os Foals teriam uma bíblia a título próprio por tudo o que trouxeram com What Went Down. Um álbum único, simbiótico, que mostrou o lado B dos rapazes de Oxford, sem nunca os condenar ao título de experimentais. Não. Tudo o que os conduziu foi experiência, solidez, e isso notou-se na coesão do som. Não há pontas soltas, não há curvas apertadas. O resultado? Um álbum genial, feito no pico da força, onde todos os caminhos convergiram num só ponto.

 

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Summertime ’06 – Vince Staples

Vince Staples lançou este ano o seu disco de estreia, arriscando num duplo álbum, e voltou a pôr o West Side Rap na indústria do hip-hop. O rapper expõe a sua vida – entre altos e baixos – pelas ruas e bairros da sua cidade de Long Beach, California, desde o derradeiro Verão de 2006. Com apenas 21 anos ainda agora começou a sua “história” mas, com este Summertime ’06, entra de forma subtil e assertiva na mente de todos os que o ouvem, com sonoridades diferentes e flows versáteis, dignos de aplausos dos mais entendidos do género.

 

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Currents – Tame Impala

A genialidade de Kevin Parker – que escreveu, editou e misturou todas as músicas, bem como tocou todos os instrumentos do álbum – é comprovada com Currents, um dos melhores álbuns de Tame Impala até hoje, rivalizando o sucesso de Lonerism, de 2012. Abordando uma onda mais electrónica do que nos álbuns anteriores, Parker consegue mesmo assim agradar a todos os ouvidos, criando algo que se aproxima da perfeição no mundo pop, como não se via há muitos anos. Com sons geniais como “Yes I’m Changing”, “Let It Happen” ou “Eventually“, Currents é o sonho molhado de todos os audiófilos.

 

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Sometimes I Sit And Think, And Sometimes I Just Sit – Courtney Barnett

Em Sometimes I Sit and Think, Sometimes I Just Think, quem manda são as histórias. Contadas à boa maneira do rock alternativo dos anos 90, assentam na música de forma despreocupada e quase displicente, ignorando qualquer melodia ou métrica supostamente necessária. Mesmo sem ter de o fazer, Courtney Barnett, com este primeiro disco, volta a provar a toda a gente que três acordes e uma boa dose de humor inteligente ainda são os únicos dois ingredientes necessários para nos fazermos ouvir.

 

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Multi-Love – Unknown Mortal Orchestra

Imagina que és músico. Tens 35 anos, estás no Japão, conheces uma miúda de 18 bastante interessante e resolves manter contacto com ela, mesmo depois do teu regresso para junto da tua mulher, do teu filho e da tua filha, em Portland. Imagina ainda que resolves partilhar a história com a tua mulher. Esta, depois de ver uma foto da miúda e de perceber que continuas a falar com ela, troca uma cena de ciúmes por um “wow” cheio de curiosidade. Pede-te os contactos, começam também elas a criar algum tipo de ligação e, algum tempo depois, a tua mulher propõe-te que a convidem para que vivam uma relação poliamorosa na casa que até agora era tua, da tua mulher e dos teus filhos.

Intrigante? Complexo? Sim, é exactamente isso que este Multi-Love é. Um álbum sobre uma história pouco convencional, recheado de incertezas existenciais, mas que confirma a banda de Ruban Nielson como uma grandíssima certeza no leque de bandas das quais vamos querer ouvir sempre mais. Talvez aquele “we were one, then become three” seja de um romantismo diferente do que estavas à espera, mas a genialidade de Ruban Nielson, que assumiu a composição e interpretação de todo álbum, fica difícil de questionar depois de ouvirmos temas como “Can’t Keep Checking My Phone”, “Necessary Evil” ou “Puzzles”.

 

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What For? – Toro Y Moi

Foi em Abril deste ano que Chazwick Bundick trouxe o quarto álbum de Toro Y Moi. Tendo “Empty Nesters” como cartão de visita, e faixas tão aditivas como “Buffalo”, “Lilly” ou “Half Dome”, What For? tinha na sua génese o ADN certo para funcionar. E apesar de estar uns degraus ao lado dos seus antecessores, não deixa de ser uma peça sonora interessante e diferente, que marcou o ponto de viragem na sonoridade do norte americano.

 

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B’lieve I’m Goin Down… – Kurt Vile

Há poucos discos que conseguem condensar tudo o que B’lieve I’m Goin Down consegue. Podíamos até falar de Dylan ou Springsteen, mas não é preciso porque Vile conseguiu construir um álbum da mesma forma, usando apenas uma moldura autobiográfica. Há uma estranheza magnética em cada uma das 12 faixas que não faz parte desta década. Uma criação intimista, madura, que nos relembra do quão bem o rock costuma soar quando é genuíno.