#SHIFTER2015: os melhores filmes


 
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Num ano de comoção e de terror, o cinema continuou a ocupar um lugar de escapismo nas nossas vidas. A capacidade de entrarmos num mundo melhor, ou no pior do mundo com o máximo detalhe, continua a ser uma necessidade de todos os que apreciam uma experiência única, um pouco de sossego, ou uma algazarra em que descobrimos ângulos novos, imagens frescas, momentos irrepetíveis. Felizmente, o cinema que vimos este ano esteve à altura do mundo em mudança que temos.

E apesar da mudança não ser necessariamente para melhor, esta é a ocasião para pensarmos no que nos trouxe este ano em termos de grandes películas – onde mais gostámos de ir. Na nossa lista estão presentes uma série de estilos, de géneros e de acções. Neste – quase, porque decerto há algum que não somos capazes de cortar – top 10 descobrimos outros mundos, outros dilemas e o velho conflito de sempre entre o que somos e o que queremos ser, o que somos capazes para o fazer, o bem e o mal.

Vimos o mundo como ele em instantes tão artísticos. E agora partilhamos isso com vocês. Sem deixar de perguntarmos o que mais gostaram de ver, o que nos recomendam e o que falta na nossa lista. É que temos sempre tantos filmes para ver.

 

Pára-me De Repente O Pensamento – Jorge Pelicano

Um dos filmes portugueses que mais gostámos de ver este ano. O documentário de Jorge Pelicano conta com a participação especial do actor Miguel Borges e segue de perto um conjunto de doentes psiquiátricos do Centro Hospitalar Conde de Ferreira no Porto. Um retrato intimista que nos transporta para o limbo que é a esquizofrenia enquanto doença. Tantas vezes conscientes, tantas vezes a leste. A alegria e o vazio de pensamento andam de mãos dadas a qualquer momento, numa doença que aqui acompanhamos bem de perto, com estes pacientes tão especiais. Belo, íntimo, triste.

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Youth – Paolo Sorrentino 

Quem já viu La Grande Belezza sabe que Paolo Sorrentino tem um toque de Midas para retratar estilo. Quer seja em pessoas, nos seus movimentos e detalhes, quer seja nas coisas: arquitectura, decoração, ambiente. E este Youth tem tudo isso. Passa-se num sanatório, na Suíça, onde Michael Caine nos apresenta mais um dos seus grandes papéis, em que se lembra dos seus projectos perdidos, das suas histórias de amor, de miúdas giras, de tudo o que a velhice nos vai relembrar. Uma reflexão geriátrica repleta de frames belíssimos.

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Sicario – Denis Villeneuve

Um dos thrillers do ano. Um olhar frio e realista sobre as investigações de tráfico de droga na fronteira entre os Estados Unidos e o México. Com sublimes momentos de tensão, Sicario traz-nos algumas das melhores interpretações do ano com Emily Blunt e Benicio del Toro à cabeça. Apesar da simplicidade de processos, o realizador Denis Villeneuve transporta-nos para uma complexa teia de acontecimentos de cortar a respiração.

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As 1001 Noites – Miguel Gomes

A peça tripartida de 381 minutos realizada por Miguel Gomes foi aclamada como a melhor obra que passou em Cannes em 2015. Combinando ambição artística com uma refrescante simplicidade de meios, As 1001 Noites apresentam-nos a realidade vivida na crise económica Portuguesa, através do prisma distorcido e pouco familiar de Gomes, numa obra que se assemelha à verdade, apresentada de forma poética. Se a princesa Xerazade conta histórias para atrasar o momento da sua morte, fica o sentimento com que Miguel Gomes nos mostra As 1001 Noites, uma forma de atrasar o regresso do público à mediocridade e banalidade do cinema que se tem feito.

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Love – Gaspar Noé 

Gaspar Noé não consegue não ser provocador. Depois de obras como Irreversible ou Enter the Void, o realizador argentino voltou a roubar as atenções com a sua nova obra, Love. O filme vem provar que no cinema o sexo ou a “sexualidade romântica” – como é dito no filme – tem também o seu espaço. O percorrer do corpo de parte a parte num casal, o desbravar de fantasias, o acto apaixonado e tão normal, carinhoso, que é proporcionar prazer ao nosso par romântico. No filme seguimos pelas memórias de um amor destrutivo entre Murphy (Karl Glusman) e Electra (Aomi Muyock). Através da sua câmara, Gaspar Noé coloca-se (e coloca-nos) como voyeurs na relação cruamente sexual entre os protagonistas do filme. O suor, o toque, a pele, o agarrar, a paixão e o desejo de uma relação única e que ao mesmo tempo nos é tão familiar.

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Selma – Ava DuVernay

Levando-nos ao círculo íntimo da vida de Luther King (que David Oyelowo interpreta de uma forma que roça a perfeição), Selma lembra-nos como toda a violência começa. Um filme que nos mostra o medo e a coragem numa perspetiva pessoal, e não retórica. O facto das promessas de 1965 serem vistas em 2015 sem estarem cumpridas dão ao filme o seu carácter actual, tratando-se não apenas de uma biografia de um grande homem, mas sim de um apelo à ação. Recebe pontos extra pela genialidade da banda sonora, onde se destaca ‘Glory’ de John Legend e Common.

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Listen Up Philip – Alex Ross Perry 

Temos um fraco por Jason Schwartzman. O actor que descobrimos nos clássicos modernos de Wes Anderson e na série Bored to Death – tudo isto depois de ter tocado bateria numa música tão icónica como esta. Mas a interpretar este papel não há ninguém que vá ter paciência para ele. Nem para ele, nem para os personagens arrogantes, pretensiosos e preponderantes que o acompanham. É um escritor à espera do lançamento do seu segundo livro e capaz de tiradas como: Achas que me estou a gabar? Isso é porque me estou a gabar. Neste retrato de um meio literário e da importância que cada elemento dá a si próprio, encontramos uma série de personagens irritantes, que nos divertem muito.

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Mad Max: Fury Road – George Miller

George Miller trouxe-nos este ano a sua reinvenção do Mundo distópico de Mad Max. Desta vez, com um silencioso Tom Hardy no papel de Max Rockatansky e com Charlize Theron como Imperator Furiosa, somos transportados para quase duas horas de esquizofrénica acção. Com todos os meios (técnicos e financeiros) de Hollywood à sua disposição, George Miller traz-nos a nova e melhorada versão do clássico de 1979, então com Mel Gibson no papel principal. O filme é um verdadeiro redespertar de um estilo de cinema de acção que hoje se perde demasiado na sua própria narrativa. Mad Max é violento, é freak e tem um ritmo alucinante. Tudo isto com uma cinematografia e realização exemplares que tornam uma simples “perseguição” num dos filmes do ano.

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Mia Madre – Nanni Moretti 

A vida e a família sempre foram o objecto de toda a obra cinematográfica do realizador italiano Nanni Moretti. Em Mia Madre, o italiano engloba ambos os assuntos e alcança aquela que é porventura a sua grande obra-prima. Um filme que lida com a perda e com o luto, algo infelizmente tão familiar ao realizador e que por isso nos transmite um carácter de pessoalidade impossível de negar. Humano, inteligente, desafiante, Mia Madre é sem dúvida um dos melhores filmes de 2015.

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Birdman – Alejandro González Iñárritu

O atual detentor do Óscar de melhor filme tinha de figurar na nossa lista. Birdman revelou ao mundo o génio de Alejandro González Iñarritu (que foi agora comprovado com The Revenant) e relançou a carreira de Michael Keaton. Numa crítica mais que direta ao Hollywood moderno reinado por franchises e filmes de super-heróis, Birdman trata-se de um renascimento criativo da indústria, e questiona a sociedade na sua maneira provocadora e narcisista. É como ver Shakespeare numa capa de super-herói.

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They Will Have To Kill Us First: Malian Music In Exile – Johanna Schwartz

O The Guardian diz que este é o documentário do ano. Assim é reconhecido o documentário They Will Have to Kill Us First da realizadora Johanna Schwartz que narra a história do Mali através de uma premissa muito especial, a música que foi proibida no norte do país. Foram os  Jihadistas e a sua lei sharia que, ao instalaram-se em pleno território, outrora proclamado pelos radicais touaregs, proibiram qualquer manifesto musical. O documentário conta a vida de vários artistas que não se calaram e que tentaram manter a música viva. Mesmo com o choro na garganta. Galardoado com algumas distinções europeias de renome o filme conta ainda com uma grande propaganda online sobre o conceito de músicas de intervenção e resistência. Vale a pena visitar o seu site.

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Se não conseguirmos aumentar o número de patronos, a 2ª edição da revista será a última, e o Shifter como o conheces terminará no final de Dezembro. O teu apoio é fundamental!