#SHIFTER2015: os melhores livros


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Sim, chegou a altura de fazer tops. Aquele momento do ano em que ignoramos completamente todos os sucessos de tanta gente em prol de sucessos maiores ou mais mediáticos. A nossa preocupação enquanto elaborávamos esta lista foi procurar os títulos que mais prazer nos deram, que nos deixaram deliciados durante a sua leitura.

Não procurámos a poesia da linguagem, mas também não a esquecemos. Não procurámos os melhores plot twists, mas alguns deles estão contemplados nesta lista. E, o que é muito importante, não procurámos os títulos mais complexos, nem as maiores metáforas, mas sentimo-nos felizes com tudo o que aprendemos e compreendemos durante estas leituras.

É por isso mesmo que os sugerimos. Pelo que acrescentaram num ano de tumulto e de confusão, onde nem a literatura foi pacífica, mas onde voltou a demonstrar-se como um porto seguro para tantas aflições.

Antes de partirmos para o top, fica um esclarecimento. O nosso top é composto por títulos estrangeiros e por títulos portugueses. Temos vários motivos para o fazer. Em primeiro lugar, porque acreditamos que a literatura portuguesa é tão boa como qualquer outra. Em segundo lugar, porque acreditamos que estes livros em português podem ombrear com os internacionais. A qualidade é intrínseca, a prosa é deliciosa.

O que achas que ficou a faltar? Quais foram os títulos que leste ano e ainda não te saíram da cabeça?

 

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A Brief History of Seven KillingsMarlon James

Marlon James agride-nos diversas vezes ao longo da leitura deste livro. Este é um épico sobre a morte de Bob Marley contada através de uma constelação de narradores e pelo caminho retrata a violência actual tão comum na Jamaica. E é mesmo esta forma agressiva, transfigurada, como se estivéssemos a caminhar pelas mesmas poças de sangue destes protagonistas, cadáveres, a observar os seus braços partidos e o rendilhado dos buracos das balas que preenchem de valor literário esta saga. Isso e percebermos a história de um país através de uma estrela que é quase um símbolo. O Booker ficou bem entregue.

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Gente Melancolicamente Louca Teresa Veiga

Um livro que dá vontade de descobrir tudo o que a Teresa Veiga já escreveu. Com uma escrita de mestre – limpa, arrumada, natural – este é um título onde a inspiração aparece em lugares comuns e os eventos extraordinários se confundem com um quotidiano que escorrega sempre para a desgraça. E a miséria dos outros é sempre uma lufada de ar fresco, sobretudo, quando é contada com tantos plot twists como nos contos desta Gente Melancolicamente Louca. Uma palavra ainda para a belíssima edição da Tinta-da-China que também serve de bibelot sempre que salta da estante. E acreditem, este salta muitas vezes.

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The Story of the Lost Child – Elena Ferrante

Desde que saiu o primeiro livro do seu quarteto napolitano que Elena Ferrante tem caminhado para uma espécie de mainstream literário, tudo isto enquanto preserva a sua identidade e avisa que não tem de dar a cara por uma história pela qual já fez tanto: escreveu-a. Um final poderoso para a sua série passada em Napóles, onde mergulhamos quando pegamos em qualquer um destes títulos, para acompanharmos a vida e as amizades de duas mulheres napolitanas. Ainda há alguém que não as queira conhecer?

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Há Sempre Tempo Para Mais Nada – Filipe Homem Fonseca

Se o novo romance de Filipe Homem Fonseca tivesse um género, teria de ser uma espécie de Cozido à Portuguesa literário: há ficção científica, drama e comédia, por vezes em simultâneo e até na mesma página. Uma obra que busca o tempo perdido em volta da perda. Há Sempre Tempo Para Mais Nada é um livro arrasador que nos deixa sem forças amiúde, obriga-nos a olhar nos espelhos mais próximos e perceber o que andamos a perder todos os dias. Catártico é o termo certo.

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Dancing in the Dark – Karl Ove Knausgaard  

A luta de Karl Ove Knausgaard – que lhe trouxe fama e mérito literári0, também tem episódios tristes e embaraçosos. Podemos encontrá-los neste tomo da saga. O quarto título do “My Struggle” mostra-nos como Karl Ove também foi um adolescente idiota, irritante e obcecado com a perda da sua virgindade. A estratégia de nos mostrar tudo o que era, ou é, sem qualquer vergonha ou embaraço, continua a ser um dos pontos fortes deste conjunto de título e do escritor.

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Uma Vez Que Tudo Se Perdeu – Pedro Mexia

Escrito numa fase assumidamente menos confessional do que Estado Civil ou Nada de Melancolia, Uma Vez que Tudo Se Perdeu dá voz aos fantasmas de Mexia. O tempo, a traição e a morte aparecem vividos pelo autor e pelos seus heróis. Dylan Thomas, Michel Butor ou Salinas vivem na Praia do Relógio, visitam os parentes idos do poeta e cronista português e levam-no à terapia, onde, verso a verso, se vêem cair as folhas das árvores à frente da casa de infância, agora deserta e coberta por panos brancos, como aqueles que se vêem nos filmes com película bicolor, aqueles que Mexia ajudava a escolher num passado não tão distante.

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Purity – Jonathan Franzen 

Jonathan Frazen já deve ter descoberto, pelos headlines que tanto o gabam e pelos livros que escreve, que é uma das maiores esperanças da literatura norte-americana, senão uma das suas maiores vozes. Depois de andar às turras com Bush no seu anterior livro, Freedom, o alvo aqui é o segredo, a vigilância e a forma como tudo isso contorna a nossa vida. A história de Purity começa com um telefonema desta personagem à sua mãe e desenrola-se numa narrativa dramática sobre o peso de ter pureza no nome.

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Reprodução – Bernardo Carvalho 

Imagine-se um livro que rompe com a pureza do português, que isola personagens e nos descreve — em círculo — a mesma ação num monólogo de 30 páginas. Parece simples? Então é porque ainda não se falou do protagonista da trama, um blogger que rouba tiques aos tudólogos do século XXI, nascidos com o aparecimento da WWW e nos deixa a cabeça a mil. Há como não ficar intrigado? Reprodução é arte pura, tanto na forma como no conteúdo, e só podia partir da cabeça, tronco e membros do estruturado e prestigiado Bernardo Carvalho.

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SubmissionMichel Houllebecq

Submissão foi um êxito da polémica. A manchete de capa que teve no Charlie Hebdo estava na forja no dia do fatídico ataque terrorista que correu o mundo inteiro e que instaurou o pânico que ainda se mantém – sobretudo desde os ataques de 13 de Novembro. Este livro é uma crítica severa às instituições francesas, à mentalidade política que continua a sobreviver neste milénio e um tratado distópico sobre o lento cambalear em que o ocidente (ou mundo ocidental) continua a sofrer.

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Húmus – Raúl Brandão

Há certos livros portugueses que – não só enquanto os lemos, como também pelas mossas que deixam – conseguem passar de obras literárias para serem forças portentosas de verdade e de ímpeto. E isso é o caso com este Húmus. Reeditado este ano, esta é uma daquelas peças que não são isto, nem são aquilo, mas são literatura e são verdade. É escrita no sentido pleno do termo. Uma procura marcante por uma vila em que voltamos a descobrir o português e como é portentoso – ou tenebroso. Recomendamos pela sua força.

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Go set a WatchmanHarper Lee

Este foi o título que cansou, e muito, a expressão “o lançamento da decáda.” Porque quando uma escritora como Harper Lee, conhecida por todos pelo seu livro icónico To Kill A Mockingbird, decide voltar a lançar um livro, quando tem 89 anos e está cega, tinha tudo para correr mal. Mas, escrito ainda antes do seu sucesso, este Go Set a Watchman sobrevive a todos dilemas e mostra-nos um lado completamente novo do seu trabalho. Paisagens diferentes e personagens diferentes das que conhecemos no clássico, neste tratado sobre a evolução de um escritor. Só por isso é merecedor de uma leitura.

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Esse cabeloDjaimilia Pereira Almeida

Djaimilia estreou-se este ano com este romance. O título refere-se ao cabelo da autora, que vai ser a nossa bússola enquanto atravessa o seu passado em África, o seu presente em Portugal e todos os dramas que uma afro pode trazer a alguém num momento tão sensível como a instauração da democracia em Portugal e por aí fora. Mostra-nos como um cabelo pode ser vir de barómetro social e relembra-nos que por detrás de cada cabelo está uma autêntica história. Esta foi uma maravilha de ser ler.

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