Woody Allen: o genial realizador comemora hoje 80 anos


Woody Allen realizador

Cineasta, argumentista, humorista e músico nos tempos livres. Allan Stewart Königsberg, mais conhecido como Woody Allen, nasceu a 1 de Dezembro de 1935 e faz hoje 80 anos. Aluno capaz mas longe de ser um dedicado à escola, “odiava todos os dias” que por lá passava. Crescido no Bronx, em Nova Iorque, no seio de uma família judaica, Woody Allen sempre repudiou qualquer religião, nunca fez qualquer sentido para ele. Tal como a utilidade em andar de bicicleta.

Com a tenra idade de 15 anos começou a aventurar-se na escrita humorística e denotou um enorme instinto para o humor. Aos 16 começou então a enviar os seus trabalhos jornais e escritores da Broadway. Não demoraria até estar a escrever para vários humoristas e programas de televisão, assim como para jornais. Tudo ao mesmo tempo. A transição para espectáculos de stand-up em nome próprio foi portanto um passo lógico.

A partir desses espectáculos, Woody Allen começou a ganhar outra “bagagem” enquanto artista e escritor e começou a escrever peças e guiões para filmes. O seu “primeiro filme” foi What’s New Pussycat?, produzido por Charles Feldman, mas Woody ficou tão desiludido com o que fizeram ao final que tinha escrito que decidiu logo que a partir daí ia ser ele a dirigir os seus próprios guiões tendo sido What’s Up, Tiger Lily? o primeiro filme realizado por si. Depois deste seguiram obras como Take the Money and Run, Bananas, Sleeper ou Love And Death, uma homenagem satírica à literatura russa e a nomes como Lev Tolstoi (sendo todo o filme colocado no cenário de War and Peace) ou Fiodor Dostoievski (referências directas aos livros The Brothers Karamazov, Crime and Punishment, The Gambler, The Idiot e The Double), tão apreciados por si. Além disto, é notória a influência europeia em Woody Allen, seja através da música ao longo do filme ou em referências ao cinema europeu, com uma presença especialmente forte na obra do autor durante a década de 70.

Da sua máquina de escrever, que o acompanha desde sempre e que ainda hoje serve de fiel companheira para tingir o papel com as suas ideias, surgiram 16 nomeações ao Óscar para Melhor Argumento Original. Um feito ao nível de poucos. A estas nomeações junta-se o facto de ter ganho 3 delas e ainda um Óscar para Melhor Realizador em 1978 com Annie Hall, porventura a grande obra do realizador, por mais injustas que sejam estas considerações.

woodyallen80anos_02

Woody Allen sempre foi um realizador que gostou de filmar as suas paixões e a Annie Hall junta-se Manhattan, outra das grandes obras do autor e uma ode à cidade de Nova Iorque, um dos amores de Allen.

Influenciado por grandiosos realizadores, são constantes as referências a Ingmar Bergman, Federico Fellini ou Luis Buñuel, que apesar de pouca influência na sua obra, era muito apreciado por Woody Allen.

São variadas as fontes de onde Allen bebe em busca de inspiração. Da sua infância (Radio Days) à filosofia, uma constante ao longo da sua vasta carreira mas da qual salientamos Zelig, um documentário ficcional sobre a desfragmentação do ser numa sociedade de massas. Do existencialismo (Crimes and Misdemeanors) à vida conjugal (Husbands and Wives). Das suas relações com os que o rodeiam (Deconstructing Harry) a uma ode à Cultura (Midnight In Paris). Da comédia ao drama, as suas obras estão repletas de referências filosóficas (Kant, Heidegger ou Kierkegaard são constantes), literárias, artísticas, ou de discussões psicológicas e psiquiátricas, áreas que sempre interessaram ao autor. A busca pelo sentido da vida enquanto guião em branco para uma obra, quer seja sobre o existencialismo ou o pessimismo, encontramos em todos os trabalhos de Woody Allen o seu cunho autobiográfico e é isso que o torna num génio. É esta capacidade para introduzir tanta informação e também da sua própria vida em obras que têm, ao mesmo tempo, um forte pendor cómico (geralmente) e leves de assistir que tornam Woody Allen tão especial.

Nos últimos anos o realizador tem filmado os seus trabalhos maioritariamente em países europeus, tendo já passado por algumas das principais cidades do Velho Continente. Roma (To Rome With Love), Paris (Midnight In Paris), Barcelona (Vicky Cristina Barcelona) ou Londres (Cassandra’s Dream), são alguns exemplos.

O realizador, que sempre teve grande tendência para ser o actor principal dos seus filmes (não fossem os mesmos fortemente autobiográficos) já não o faz há vários anos. Confessa Woody Allen que já não faz sentido interpretar o papel de galã, e se é para ser outro a ficar com a protagonista feminina, mais vale não entrar no filme. O último papel enquanto actor curiosamente não foi num filme seu mas sim de John Turturro (que também o protagoniza), Fading Gigolo.

woodyallen80anos_03

Próximos projectos? Como habitualmente, um filme por ano, pelo menos. Certamente alguma ideia que estava já previamente apontada num pedaço de papel e guardada numa gaveta onde o realizador guarda todas as ideias que lhe surgem. Infelizmente algumas nem chegam a ver a luz do set de filmagens. O próximo filme tem a curiosidade de ser em colaboração com o premiado e prestigiado cinematógrafo de Apocalypse Now ou Last Tango In Paris, o italiano Vittorio Storaro. Ao filme habitual junta-se a surpresa, uma mini-série de comédia para a Amazon também a ser lançada em 2016, um projecto que tem deixado o realizador apreensivo quanto ao resultado final, não fosse ele um perfeccionista.

Actualmente casado com Soon-Yi Previn, Woody Allen tem ainda dois ex-casamentos aos quais se juntam duas relações com as suas musas do cinema: Diane Keaton e Mia Farrow, com quem viria a terminar o relacionamento de forma conturbada. Mas não é isso que se celebra hoje.

Fã de jazz, deverão encontrá-lo hoje a treinar um pouco de clarinete, como faz todos os dias mesmo estando em filmagens. Provavelmente ontem fez o que adora fazer todas as segundas-feiras: tocar clarinete junto da sua New Orleans Jazz Band no Carlyle Hotel.

Woody Allen vai vivendo e nós vamos apreciando um dos maiores génios cinematográficos de sempre. Um génio para nós que tem como génios “Shakespeare, Mozart ou Einstein”. Woody costuma referir que tem “um pouco de talento” e “muita sorte”, mas não tanta quanto nós por podermos apreciar as suas obras vezes sem conta, coisa que o seu espírito crítico não lhe permite. Roger Ebert considerou-o “um tesouro do cinema”. Nós achamos o mesmo.