‘45 Years’


 
O Shifter precisa de dinheiro para sobreviver.
Se achas importante o que fazemos, contribui aqui.

O que poderá abalar uma relação com mais de 45 anos de vida em comum? A resposta está na persistência e tendência do passado para nos afectar de forma mais arrasadora que qualquer acontecimento no presente. 45 years é um filme simples de Andrew Haigh, mas perfeito em tudo aquilo que tem para nos oferecer e que nos faz recordar a obra-prima Scenes From a Marriage de Ingmar Bergman ou, de forma mais contida, o excelente Another Year de Mike Leigh.

A história gira à volta de um casal sem filhos que está a uma semana de celebrar 45 anos de casados. Na semana que antecede esse festejo, Geoff Mercer (Tom Courtenay) recebe uma carta vinda directamente da Suíça, onde em 1962 a sua namorada da época, Katya, morreu ao cair numa brecha de uma montanha.

A carta relata a descoberta do corpo de Katya e esse acontecimento vai dar origem a um desencadear de reacções e emoções adormecidas pelo tempo. É inevitável pensarmos que esta descoberta provocada por um simples degelo mais parece servir de metáfora para a fragilidade dos nossos segredos permanecerem como tal e incapazes de perdurar nas “profundezas”.

Apesar de o filme se referir ao passado, tudo é sentido no presente. É nesta afectação que gira a força deste filme onde Charlotte Rampling interpreta o papel de Kate Mercer, uma professora inglesa aposentada, e nos presenteia com uma das melhores actuações da sua carreira.

O peso da notícia vai crescendo levemente em ambos os personagens, moldando-os de forma que ambos certamente não julgavam possível após tantos anos de vida em comum. Fantasmas do passado, coisas que não foram ditas, algo que não se viveu e podia ter mudado tudo o que hoje conhecem. Tudo nos é dado de forma crua, real e íntima ao ponto de nos mostrar uma cena de sexo do casal, um casal na casa dos 70 anos.

45years_02

De rosto sereno mas olhar expressivo, Kate vai sofrendo interiormente com o reacender de uma paixão antiga do seu marido que nunca teve um ponto final. Essa inexistência de ponto final leva a que Geoff volte a fumar, tenha dificuldades a dormir e volte a recordar o que teve em tempos até agora adormecidos, debaixo de uma “camada de gelo”.

Duas interpretações fantásticas num filme baseado numa história de David Constantine. O argumento é “simples” mas é um tratado de desenvolvimento psicológico dos personagens num drama que se passa maioritariamente dentro das suas cabeças. Um filme emocional sobre a vulnerabilidade dos pilares que sustentam uma relação (mesmo com tantos anos). Um crescimento a dois que no final parece ser tão frágil e sujeito a factores externos. A ligeireza e subtileza com que uma emoção cresce em nós. O que faz perdurar uma relação? “Quem é que sabe?”

Se não conseguirmos aumentar o número de patronos, a 2ª edição da revista será a última, e o Shifter como o conheces terminará no final de Dezembro. O teu apoio é fundamental!