Afinal, o que é uma bomba de hidrogénio? E porque é tão preocupante?


A Coreia do Norte afirmou ter detonado com sucesso a sua primeira bomba de hidrogénio, no dia 6 de Janeiro, após sismógrafos um pouco por todo o mundo darem sinal de um terramoto de uma magnitude de 5,1 no norte daquele país.

Se a informação avançada pelo regime de Pyongyang for verdadeira, este é um significativo passo no desenvolvimento do programa nuclear da Coreia. Este será o quarto teste nuclear realizado pelo Governo norte-coreano e o primeiro sob alçada de Kim Jung Un. A bomba de hidrogénio da Coreia colocou em alerta praticamente todo o mundo – incluindo a China, o principal aliado da Coreia, que disse que se “opõe firmemente” ao teste.

A questão que, então, se levante é esta : o que é afinal uma bomba de hidrogénio? A bomba atómica funciona com base no mesmo princípio das centrais de energia de fissão nuclear. Plutónio ou urânio são bombardeados com neutrões que destabilizam estes átomos gigantes e provocam a sua fractura em vários átomos mais pequenos. Cada fractura emite mais neutrões que vão colidir com os núcleos de mais átomos vizinhos, desencadeado uma reacção em cadeia.

Feitas as contas, a massa combinada dos átomos mais pequenos é inferior à massa do átomo gigante, sendo que esta diferença em massa é transformada em energia de acordo com a famosa equação de Einstein E=mc².

Por outro lado, a bomba de hidrogénio assenta num princípio diferente, o da fusão nuclear. Tal como se pode obter energia fracturando elementos pesados, também é possível fazê-lo através da fusão de elementos leves como o hidrogénio. Contudo, este método tem um senão. É necessária uma enorme quantidade de energia para ultrapassar a repulsão electromagnética entre as cargas positivas presentes nos núcleos.

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A solução encontrada pelos cientistas? Usar em primeira instância uma bomba atómica de fissão para comprimir deutério e o trítio, isótopos do hidrogénio, de forma a provocar a sua fusão. Ou seja, usa-se uma bomba atómica convencional para detonar a bomba de hidrogénio em si. Por isso não é de admirar que seja centenas de vezes mais potente.

A fissão e a fusão nuclear complementam-se assim de forma perfeita. A fissão fornece a energia necessária para permitir a fusão e a fusão por sua vez produz neutrões altamente energéticos que por sua vez aumentam a eficiência da fissão ajudando a detonar o urânio ou o plutónio restante.

No entanto, a comunidade internacional revelou-se muito céptica das declarações do Governo de Kim Jung Un. A partir da informação recolhida pelos sismógrafos foi possível concluir que se tratou de um teste subterrâneo, o que exclui o pior cenário possível, a de um míssil nuclear. A magnitude da actividade sísmica também à semelhante a testes nucleares norte coreanos anteriores.

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Uma análise mais detalhada do tipo de bomba detonada irá agora ser feita por centros de detecção de isótopos radioactivos onde são aplicadas duas estratégias diferentes. A primeira consiste em analisar partículas radioactivas no ar, e procurar uma correlação entre as medições e aquilo que se sabe serem os resquícios de uma bomba nuclear, ou bomba de hidrogénio (apesar desta informação relativamente às bombas de hidrogénio ser confidencial). A segunda estratégia passa por analisar gases que se formam nestes eventos. O gás Xénon é particularmente interessante por ser um gás nobre, pois não reage quimicamente, e porque é radioactivo, decai ao longo do tempo. Devido à sua radioactividade, é possível datá-lo de forma análoga à datação de carbono. Mais, na natureza podemos encontrar Xénon sob quatro formas diferentes, ou quatro isótopos, com quantidades relativas bem determinadas. As proporções não se mantêm aquando de uma explosão nuclear, expondo a sua origem.

Neste contexto, o processo de diagnóstico da situação poderá ser seriamente complicado pelo facto de o teste ter sido realizado no subsolo. Cabe agora à autoridade responsável pela monitorização da actividade nuclear a nível mundial, a Organização do Tratado de Proibição Completa de Testes Nucleares, e aos seus centros de monitorização fazer esta análise da situação que não se sabe quanto tempo irá demorar.

A bomba de hidrogénio não só é mais perigosa por ser mais potente que as bombas atómicas convencionais, como pode ser miniaturizada para ser utilizada em mísseis de longa distância. Razão pela qual o teste norte-coreano é tão preocupante.