‘Amor Impossível’


O elefante ainda não saiu da sala. Onde quer que vamos, continua a ouvir-se amiúde que “o cinema português é só sexo e porrada”, que “o som é péssimo”, e que, na maior parte dos casos, “os atores são maus.” A ideia geral dos filmes feitos por cá contamina idas futuras ao cinema, infelizmente até mesmo quando aparecem obras felizes, como Amor Impossível.

O novo filme de António-Pedro Vasconcelos — duríssimo em contraste com a ternura de Os Gatos Não Têm Vertigens  — deixa bom augúrio em relação ao que poderá vir de novo no cinema português (quem se lembra do último thriller luso imprevisível desde a primeira à última linha de texto batido?), sobretudo no que toca à qualidade da sua feitura. A simbiose e equilíbrio na rodagem são evidentes do pequeno ao grande detalhe — Ricardo Pereira, Lia Carvalho e José Mata vão muito além daquilo a que nos habituam nas novelas de prime time e abrem caminho a mais uma irrepreensível prestação de Victória Guerra, que domina a tela com a sua habitual subtileza — um acting que não engole os camaradas de profissão e mesmo assim deixa espaço para que a vislumbremos como uma diva entre as jovens atrizes da nossa praça. Há ecumenismo, e esse ecumenismo sente-se.

Tecnicamente, Amor Impossível é um filme denso e complexo na execução — a réperage, mesmo que presa pela factualidade de uma trama real (o drama envolve uma rapariga morta pelo namorado em Viseu), é apuradíssima — não há décor que não tenha sido pensado para a lente de Miguel Sales Lopes, o diretor de fotografia, responsável em grande parte pelo sucesso do filme. O som, esse grande Adamastor da ficção nacional, também decide colaborar. Os diálogos são perceptíveis e imediatos, e em momento algum sentimos a necessidade do pause, rewind and play a que os nossos telecomandos tão mal nos acostumaram.

Inspirado pelo magnum opus de Emily Brontë, APV retrata, literariamente e com qualidade, a realidade dos jovens afastados na cultura e costumes, mas aproximados pelos livros e paixão. Tiago R. Santos — o homem por detrás do guião — tem o cuidado de estetizar o foleiro, de compreender a paixão de todos os caloiros por Fernando Pessoa, de usar o palavrão com timing, e de apurar uma narrativa sanguinária recorrendo (quase) exclusivamente à violência verbal. Se é da faca e alguidar — como a conhecemos na Sorte Nula de Fragata — que o leitor se queixa, então poderá confiar em Vasconcelos. O seu filme tem a qualidade, tato e respeito que um caso tão sensível e mediático pede.

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Quanto ao sexo, poderá também o cinéfilo de ocasião rejubilar — os momentos quentes protagonizados por Victória Guerra, ao contrário do que acontecia em Call Girl, escusam-se a roubar atenção à narrativa e a oferecer o voyeurismo habitual. Há pouca pele e muita densidade no que na cama se diz, faz e sente. Mais do que isso seria gratuito.

Amor Impossível é, com tudo o que isso possa significar, um filme para todos — tangível e sensível para todos, escrito e feito para todos. Vasconcelos mostra que cinema grande ainda se pode voltar a fazer com “c” grande, como aliás nunca se deveria ter deixado de fazer.