‘Anomalisa’


 
O Shifter precisa de dinheiro para sobreviver.
Se achas importante o que fazemos, contribui aqui.

Anomalisa é o novo filme de Duke Johnson e Charlie Kaufman, a irrequieta mente que nos trouxe o maravilhoso Eternal Sunshine Of The Spotless Mind ou o inventivo Being John Malkovich.

Desta vez, Charlie, co-realizador do filme, trouxe-nos uma “ironia”. Como? Através de um filme de animação (Nomeado ao Óscar), um género que é vulgarmente usado para nos transportar para mundos impossíveis de visitar com actores reais. Repudiando esse preconceito, Charlie Kaufman apresenta-nos um dos filmes de animação mais humanos e “realistas” de que temos memória.

A história fala-nos de Michael Stone, um autor de livros especializado em serviços ao cliente. Mas Michael é muito mais do que a sua profissão. É um pai de família saturado da constante busca pela perfeição do mundo que o rodeia e das pessoas que tem à sua volta por serem todas tão semelhantes e tão vazias de interesse por isso mesmo. Para si, pessoas sem “defeitos” são pessoas sem autenticidade ou algo que as distinga das demais.

É aqui que entra um dos factores peculiares deste filme. À excepção dos seus dois protagonistas, Michael e Lisa, todos os personagens desta animação têm a mesma voz. Pormenor delicioso que vem reforçar a “produção em massa” de pessoas iguais umas às outras aos olhos (e ouvidos) de Michael.

Até que… aparece Lisa, Anomalisa. Na sombra da sua amiga, mais popular e bonita aos olhos comuns, Lisa não tem espaço para sobressair, não sai da sombra dos seus defeitos. Menos para Michael, a quem Lisa soa especial. O amor funciona assim (quiçá). Os defeitos passam a efeitos (sobre nós) e a voz simplesmente nos soa diferente de todas as outras.

anomalisa_02

anomalisa_03

Como se o filme não bastasse só por isto, é-nos ainda mostrada uma sexualidade cheia de percalços, cheia de coisas perfeitamente normais e pelas quais todos já passámos. A cabeçada acidental na cama ou o toque mais brusco, o filme não rejeita o que somos.

“O filme mais humano do ano”, como é afirmado no cartaz, ganha nova transcendência e significado pela ironia que é dizê-lo sobre um filme de animação, mas não se enganaram ao fazê-lo.

Em determinado momento da história assistimos a uma deliciosa conversa entre Michael e Lisa que transmite a nossa opinião exacta sobre o filme. Lisa diz: “Most people don’t like to look at me to much, because… you know…” Por sua vez, Michael responde-lhe pausada e ponderadamente: “I think you’re lovely.”

anomalisa_04

Alguém que nem olhe duas vezes para um cartaz de “bonecos” desconhece a injustiça que é classificar dessa forma aquele que é um dos mais bonitos filmes do ano. É uma pena que tenha saído no mesmo ano em que Inside Out, o mais forte candidato o Óscar da categoria de animação. Ainda assim, não podemos deixar de pensar que Anomalisa ficaria igualmente bem junto de The Revenant ou Spotlight. Humanidade não lhe falta.

Se não conseguirmos aumentar o número de patronos, a 2ª edição da revista será a última, e o Shifter como o conheces terminará no final de Dezembro. O teu apoio é fundamental!