E se fôssemos todos mais Bowie?

Num dia de merecido memorial, vale a pena relembrar que a melhor forma de honrarmos David Bowie é sermos mais como ele.

 
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Neste momento multiplicam-se as homenagens ao artista por detrás do camaleão. David Bowie faleceu e é relembrado pelos seus inúmeros fãs, admiradores e curiosos do seu trabalho. Afinal, quatro décadas no topo da grande montanha que é o rock & roll são motivo suficiente para nunca esquecermos Bowie. Mas, e se em vez de o relembrarmos, tentássemos ser um bocadinho mais como ele? Porquê?

O episódio que David Bowie conta no programa de Conan O’Brien acerca de rejeitar um dos mais prestigiados prémios que a nação francesa oferece a um artista – apenas para o receber por correio, é um belo exemplo do quanto não temos de viver a nossa vida para agradar a ninguém. Hipocrisia, para quê? Os prémios são para se ganhar, mas também podem ser rejeitados. David Bowie não teve problemas em declinar o título de Sir quando a Rainha de Inglaterra o nomeou pelo seu extraordinário trabalho na área da música. O motivo? Não sabia para que é que o título de Sir servia. É uma desculpa tão boa como qualquer outra para fazer o que lhe apeteceu. É um belo exemplo para uma geração que tem de fazer tanta coisa de contra-vontade que acaba por perder força para se impor pelo caminho.

Blackstar, lançado sem qualquer tipo de apoio da imprensa, sem suportes mediáticos ou estratégias de comunicação, talvez só possa ter sido lançado assim porque Bowie já era uma estrela, mas foi uma grande despedida feita de forma pouco convencional – como nos habituou. É uma boa lição para quem não perde a oportunidade de converter momentos em selfies. É uma boa maneira de explicar que para Bowie o que realmente importava era o output de tanto talento.

Afinal, toda esta postura seria impossível sem o seu trabalho. Quem não gostava de ser mais Bowie neste capítulo? Foi profundamente heterogéneo, mas sempre genial. Um artista que nos levou numa viagem a Marte, que recuperou a estética surrealista para a capa de um disco, que foi uma série de personas diferentes em discos maravilhosos. Para além da imagem ficaram as músicas. E isso é o maior exemplo quando vemos o culto que vai sobreviver à sua morte. Em primeiro lugar estava a sua arte e nós fomos o principais beneficiados disso. Esse é certamente um grande exemplo.

David Bowie era tudo isto para o mundo, mas à porta fechada era ele próprio e nós não podíamos entrar. O peso insuportável da fama nunca o afastou do que era a sua principal missão. Soube ser privado, mas também soube ser humano. Nunca teve medo de se reinventar, porque sabia bem quem era. E apesar da sua fama chegar a outros planetas, manteve-se sempre de pés bem assentes na terra.

Para concluir, fazermos o que achamos que devemos fazer em oposição a fazermos o que deve ser feito, pormos o nosso trabalho em primeiro lugar como na frase icónica de Fernando Pessoa e, sobretudo, não termos medo de assumir que o nosso trabalho vai sempre falar mais alto que a mais excêntrica das nossas atitudes.

Num dia de merecido memorial, vale a pena relembrar que a melhor forma de honrarmos David Bowie é sermos mais como ele. Com mais atitude, mais confiança e um pouco da excentricidade que nos torna únicos. Porque ser mais Bowie é ser mais génio.

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