El Chapo falou e nós ouvimos


Sean Penn reuniu-se com El Chapo e o mundo do jornalismo corou. Em Outubro de 2015, o actor norte-americano mergulhou nas águas mais clandestinas do narcotráfico mundial para entrevistar Joaquín Guzmán Loera, o famoso barão da droga mexicano, mais conhecido como El Chapo, responsável por mais de metade de toda a cocaína, heroína, metanfetaminas e marijuana que se comercializa nos Estados Unidos da América.

Guzmán, considerado pela Forbes o mais poderoso traficante de droga do mundo, havia fugido da mais segura prisão do México a 11 de Julho do ano passado, numa operação insólita que envolveu a construção de um túnel de 1500 metros através do chuveiro da sua cela.

Líder do Cartel de Sinaloa, considerado ainda maior que o do famoso Pablo Escobar, protagonizou a fuga que humilhou o Governo de Peña Nieto. Não foi a primeira para Guzmán, que havia já fugido da prisão de Puente Grande há 13 anos, sob os lençóis de um carrinho de lavandaria.

Mas afinal como é que foi possível Sean Penn saber onde se encontrava o homem mais procurado do momento, antes das próprias equipas de investigação americanas e mexicanas e, ainda mais surpreendentemente, como é que se encontrou com ele? A resposta está na amizade de El Chapo com Kate Del Castillo, actriz mexicana que intermediou o encontro clandestino num esconderijo no meio da selva mexicana. Amizade essa que terá surgido depois de Kate ter postado no Twitter um comentário simpático a Guzmán em 2012.

Segundo o artigo de Sean Penn, publicado no site da Rolling Stone, Kate Del Castillo afirmou que numa questão de confiança entre governos e cartéis, ela escolheria confiar em El Chapo, seguindo-se uma mensagem de encorajamento: “Mr. Chapo, não seria incrível que começasse um tráfico com amor? Com curas para doenças, com comida para as crianças da rua, com o álcool para os lares de idosos que não deixam que os idosos possam passar o resto dos dias deles a fazer o quer que seja que eles querem? Imaginem o tráfico com políticos corruptos em vez de mulheres e crianças que acabam como escravos. Porque não queimar todos os bordéis onde mulheres valem menos que um maço de cigarros? Sem oferta, não há demanda. Vamos, Don! Seria o herói dos heróis. Vamos traficar com amor. Você sabe como. A vida é um negócio e a única coisa que muda é a mercadoria. Não concorda?”.

Este tweet terá levado a uma conversa entre Del Castillo e os advogados de El Chapo, que lhe queriam oferecer flores em nome de El Chapo. Dois anos depois, isso terá levado à correspondência com o próprio, que teria sido capturado em Fevereiro de 2014, e que queria a ajuda da actriz para fazer um filme sobre a sua vida. Penn conheceu Kate del Castillo, em Los Angeles, através de amigos em comum que se tinham envolvido no projeto do tal filme que estaria para ser produzido. Chegaram a acreditar que o filme seria possível de realizar mas, por sugestão de Penn, optaram por produzir um artigo numa revista.

Sean Penn começa o artigo que deixou toda gente de boca aberta, publicado na revista Rolling Stone, a descrever na primeira pessoa a agitação de preparar o encontro que aconteceu cerca de dois meses antes de El Chapo ser novamente capturado e que, segundo o governo americano, terá posteriormente ajudado na captura.

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Nesta missão arriscada, Penn teve como companheiros a actriz Kate del Castillo, que demonstrou uma enorme coragem por ter permitido que o seu nome fosse publicado, e ainda El Alto e Espinoza, a quem Penn se refere como parceiros antigos de outras aventuras. Na Califórnia, os quatro apanharam um vôo que os levou a uma cidade cujo nome não é referido, no México.

Seguiu-se uma viagem acelerada até um campo que ficava a cerca de uma hora e meia da cidade e deu-se aí o primeiro contacto com o filho de 29 anos de Guzmán, Alfredo.

Segue-se,a partir daí, um vôo de duas horas. Chegados ao esconderijo na selva, 14 horas depois do actor norte-americano ter embarcado na Califórnia, deu-se o encontro com El Chapo.

Penn descreve detalhadamente os sentimentos de preocupação e paranoia durante o processo da entrevista, para a qual não tinha como realizar qualquer tipo de gravação, ou sequer papel e caneta para anotar as respostas. Descreve o barão da droga com pormenores cuidadosos e simpáticos “vi-o sem aquele sorriso apenas em breves flashes. Como já foi dito de muitos homens notórios, ele tem um carisma indiscutível”.

“Eu não costumo beber, mas quero beber consigo.”

Finalmente revela o início da conversa que viria a durar sete horas. Com uma garrafa de tequila ao lado, Chapo olha para Kate e diz “eu não costumo beber, mas quero beber consigo”. Tem interesse em saber se as pessoas nos Estados Unidos o conhecem e, logo a seguir, aconselha-os a investirem no mundo do petróleo, já que a origem ilícita do seu dinheiro dificulta na variedade de negócios em que pode investir. Logo de seguida, quer saber quanto dinheiro é que Penn irá ganhar com o artigo, ao que o ator responde, para grande surpresa de Guzmán, que não irá receber nada, porque nunca pede dinheiro pelos trabalhos de jornalismo que faz.

“Eu forneço mais heroína, metanfetaminas, cocaína e marijuana do que qualquer outra pessoa no mundo.”

El Chapo não tem o mínimo problema em falar do seu negócio “eu forneço mais heroína, metanfetaminas, cocaína e marijuana do que qualquer outra pessoa no mundo. Sou dono de uma frota de submarinos, aviões, camiões e barcos”.

A vontade de falar de forma livre e o conforto que demonstra ter com a sua posição na vida, levam Penn a compará-lo a Tony Montana na cena do jantar, em Scarface, de Oliver Stone. Quando decide perguntar: “de todos os países e culturas com as quais faz negócios, qual deles é o mais difícil?” Penn descreve que ele balança a cabeça e diz, de forma clara, um inequívoco “nenhum”, mas há que recordar que os desafios são muito diferentes para um corrector de poder global que simplesmente elimina qualquer obstáculo às “dificuldades”.

Penn toca no assunto Donald Trump, ao qual ele responde com um irónico “Ah! Mi amigo!”, pergunta-lhe se conheceu Pablo Escobar, responde-lhe que sim, esteve em casa dele uma vez “casa grande” e sorri. El Chapo fala da sua mãe, das visitas regulares que lhe faz, do quão melhor que ele próprio ela o conhece, dizendo ainda, que gostava que Penn a conhecesse.

A entrevista foi dividida em dois momentos, depois desta conversa de sete horas no meio da selva, os dois protagonistas desta história alucinante combinaram encontrar-se oito dias depois para uma nova conversa. Porém, as coisas não correram como esperavam. Embora Guzmán tenha insistido numa série de precauções de segurança na sua reunião, Penn diz ao longo do artigo que não tem qualquer dúvida que as autoridades mexicanas e americanas estavam atentas aos seus movimentos. A segunda parte da entrevista veio através de um vídeo enviado a Kate Del Castillo depois de Penn lhe ter enviado as perguntas encriptadas através do BBM de um BlackBerry.

O vídeo, que começa com El Chapo a anunciar que quer deixar claro que a entrevista é para um uso exclusivo da senhorita Kate Del Castillo e do senhor Sean Penn, é cheio de respostas curtas e claras sobre a sua história, a sua família e o seu negócio.
O traficante não se considera violento, “olhe, tudo o que eu faço é defender-me, nada mais. Mas se eu começo problemas? Nunca”. Afirma que a violência associada a este tipo de actividade vem, em parte, porque algumas pessoas já cresceram com problemas, existe inveja, têm informações sobre alguém, sendo isso que acaba por criar violência.

Fala sobre as diferenças no comércio da droga nos dias de hoje, quando aos quinze anos iniciou a actividade, por não haver outra forma de levar dinheiro para casa, só conhecia marijuana e ópio. Diz que o tráfico de droga já faz parte da cultura Mexicana, iniciada pelos antepassados, mas não só no México, no mundo inteiro. Não considera a sua organização um cartel porque “as pessoas que dedicam a vida delas a esta atividade não dependem de mim”.

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Estar novamente livre fez com que se sentisse feliz, a liberdade “é mesmo boa” e com a pressão já está habituado a lidar, “sinto-me bem”. Quanto à pergunta se é verdade que as drogas destroem a humanidade e trazem prejuízos, El Chapo, que diz estar limpo há 20 anos apesar de nunca ter sido viciado em droga, diz que é uma realidade que as drogas destroem. Infelizmente, como diz, onde cresceu não tinha outro caminho e ainda não existem grandes alternativas a este destino para que se sobreviva, não há como trabalhar na economia daquele país, para que seja possível viver, afirma.

Sobre a possibilidade de ele ser responsável pelo alto nível de consumo de droga no mundo, ele afirma que é falsa porque “no dia em que eu não exista, não vai existir uma descida no consumo de jeito nenhum”. Se não houvesse consumo, não haveriam vendas,diz. O consumo aumenta de dia para dia, “por isso vende-se e vende-se”.

“No dia em que eu não exista, não vai existir uma descida no consumo de jeito nenhum.”

Enquanto esteve preso, o seu negócio não sofreu alterações de lucros. Chapo diz que com o tempo, cada vez haverá mais pessoas no mundo e o negócio da droga nunca terá fim e ainda garante que não sente qualquer impacto no seu negócio graças à situação crítica do Médio Oriente.

Espera morrer de causas naturais e estava certo que iria ser capturado novamente. Termina a entrevista mostrando preocupação pela segurança da sua família, descrevendo a sua relação com a esposa como “perfeita” e definindo-se como uma pessoa que não procura problemas.

O artigo termina com uma frase de Penn: “El Chapo? Tenho a certeza que não irá demorar muito até que o próximo carregamento para os Estados Unidos do cartel de Sinaloa seja o próprio homem.”

No dia 8 de Janeiro deste ano, Enrique Peña Nieto anunciou no Twitter que a missão estaria cumprida: “Já o temos. Quero informar todos os Mexicanos que Joaquín Guzmán Loera foi detido.”