Jornalismo-activismo: ‘Raqqa is Being Slaughtered Silently’


 
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Chegou o fim de 2015, sem um fim à vista da guerra na Síria, país que é palco de um conflito sangrento há cinco anos. Desde o início da Guerra Civil em Março de 2011 morreram mais de 260 mil pessoas e, de acordo com o Observatório Sírio dos Direitos Humanos, só em 2015 morreram mais de 55 mil pessoas.

Mais de 13 mil vítimas são civis, mas a maioria são combatentes, dos quais mais de 16 mil pertencem à Frente al-Nursa, o braço sírio da Al-Qaeda, a milícias organizadas contra o presidente Bashar al-Assad e ao grupo jihadista e auto proclamado Estado Islâmico.

Foi em Junho de 2014 que o Daesh se auto-proclamou um califado, conquistando várias regiões no norte e centro do Iraque e da Síria. Dois meses depois, em Agosto, o grupo terrorista tomou conta de Raqqa, uma cidade no norte do país que é palco de tensão regular nos conflitos sírios. Foi Raqqa que o Daesh escolheu para sua sede e para o início da edificação do suposto Estado Islâmico.

Certo é que a cidade continua a ser habitada e frequentada por quem em nada se identifica com os ideais fundamentalistas islâmicos. Raqqa is Being Slaughtered Silently é, mais do que a realidade na sua tradução literal, o nome de uma organização de jovens sírios que querem mostrar a verdade por detrás de uma cidade que vive dividida entre o medo e o terror.

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Numa revista, num site e através das redes sociais, os repórteres da RBSS publicam informações que não chegariam ao mundo de outra forma, arriscando diariamente a vida. O aumento dos preços da comida, água e combustível na cidade, a procura incessante dos militantes do Daesh por Viagra, as festas que o ISIS organiza para fazer lavagens cerebrais à população ou a forma como o grupo terrorista treina as crianças locais para as transformar em soldados são apenas alguns dos exemplos de notícias que a RBSS partilha. Num país que se tornou num buraco negro de informação e onde ser repórter representa um risco de vida, o trabalho da Raqqa is Being Slaughtered Silently representa, mais do que activismo, jornalismo pelo cidadão. A sua acção valeu-lhes o prémio Internacional de Liberdade de Imprensa pelo Comitê para a Proteção dos Jornalistas, entregue em Novembro do ano passado em Nova Iorque pelo editor do The New Yorker.

O membro-fundador da organizção que recebeu o prémio foi o mesmo que, também em Novembro, deu uma entrevista à BBC onde se deixou filmar sem nunca revelar o seu nome. É nela que conta que a equipa é composta por 18 jovens que trabalham em Raqqa e outros 10 que actuam noutras cidades. A equipa de Raqqa envia o material para a que está fora da Síria, apagando-o de seguida dos seus telemóveis e computadores por segurança. Os artigos, fotografias e vídeos são publicados pelo grupo que está fora do território sírio, que também faz as entrevistas.

O jovem de 24 anos conta também que pelo menos dois repórteres já foram mortos pelo Daesh, e que um dos fundadores viu o seu pai ser sequestrado pelos terroristas, que prometeram libertá-lo se lhes fossem entregues três jornalistas. Perante a recusa, o jovem recebeu dois vídeos que mostravam o pai a ser amarrado a uma árvore e executado. No vídeo, revela ainda que o grupo radical islâmico persegue os repórteres da RBSS para onde quer que vão. Na procura por segurança, vários fugiram para a Turquia mas até lá já foram atacadas pessoas relacionadas com a organização.

Além de quererem fazer chegar ao mundo a realidade de Raqqa, querem também informar os cidadãos sírios que vivem o terrorismo na pele. É por isso que em formato físico editam a Dabea, uma revista cuja capa é sempre igual à da Dabiq – a publicação mensal do Daesh que te apresentámos aqui – para que não seja reconhecidas pelos militantes do grupo terrorista e assim a informação sobre a real situação da cidade chegue à população.

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Para os jovens da Raqqa is Being Slaughtered Silently, resistir ao Daesh não passa por criar mais guerra, até porque resistir ao Estado Islâmico não resolve o problema: Lutamos contra a ideologia do extremismo. Se conseguíssemos derrotar o ISIS amanhã ou depois, o problema voltaria a surgir com uma nova geração. Talvez passados 10 anos surgisse um novo Estado Islâmico. Por isso é que estamos a lutar contra a ideologia. E como não temos armas, combatemos online.” 

A distinção e reconhecimento internacional da RBSS chega naquele que foi o quarto ano mais mortal de sempre para os jornalistas. A Síria foi classificada por três anos consecutivos como o país mais perigoso do mundo para repórteres, o Comitê para a Proteção dos Jornalistas ajudou mais profissioanais a fugir da Síria nos últimos cinco anos do que de qualquer outro país, e a organização Repórteres sem Fronteiras colocou a Síria em 177.º lugar, de 180, na lista dos países com maior/menor liberdade de expressão em 2015, seguida apenas do Turquemenistão, da Coreia do Norte e da Eritreia.

Se não conseguirmos aumentar o número de patronos, a 2ª edição da revista será a última, e o Shifter como o conheces terminará no final de Dezembro. O teu apoio é fundamental!