À conversa com os Salto: “Após o primeiro álbum, sentimos que já temos algo sobre o qual construir as próximas músicas”


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Visitámos o quartel-general dos Salto, em Lisboa. Localizado numa das ruas mais apertadas das Mercês, freguesia ao pé da Estrela, foi o quinto andar onde vive Guilherme, vocalista, — que serve para acolher toda a banda quando os restantes membros se deslocam do Porto para Lisboa — o cenário escolhido para a nossa conversa com a banda. Foi com vista privilegiada para o Tejo e para São Bento que, ao som de Unknown Mortal Orchestra a tocar no Pitchfork Music Festival, se falou de assuntos como Passeio das Virtudes, o novo trabalho de estúdio do grupo, das responsabilidades que um segundo disco acarreta ou do facto de nenhum dos quatro músicos ter provado lagostas na vida. No fim, houve ainda tempo para perceber qual a melhor forma de dançar as 12 músicas que serão apresentadas ao vivo no próximo dia 30, no Time Out Mercado da Ribeira.

 

Um segundo disco traz responsabilidades acrescidas? Acredito que seja um desafio enorme, até porque muitas das bandas desta nova vaga da música portuguesa ainda não se aventurou num segundo disco. Como é que imaginam a carreira dos Salto daqui para a frente?

LUÍS: É engraçado reparares que as bandas que surgiram ao mesmo tempo que nós ainda não lançaram um segundo disco! Mas não sei se há uma maior responsabilidade, acho que se prende mais ao facto de que uma coisa que começou como uma brincadeira de repente ficou séria, e isso precisa sempre de um tempo de adaptação. Sempre fizemos música sem pensarmos em concertos e na expectativa das pessoas que as iam ouvir, e agora já temos uma história e estamos enquadrados. Não é uma questão de nos sentirmos pressionados, mas temos de pensar em coisas em que não pensámos no primeiro disco. Olhando para trás, percebemos que já dissemos coisas que agora não podemos contradizer totalmente nas próximas coisas que fizermos.

GUILHERME: Daí a tal pressão e responsabilidade! Mas não é, de todo, uma pressão que nos leve a pensar que temos a obrigação de fazer um disco de uma determinada forma, com medo da reacção das pessoas, ou que nos faça sentir que temos algo a provar.

É mais uma pressão boa do que propriamente uma obrigação, então!

LUÍS: Sem dúvida! É um incentivo. É sentirmos que já não estamos a fazer música só por fazer, mas que temos algo sobre o qual construir as próximas.

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Entre estes dois álbuns lançaram Beat Oven. Viram este EP como uma oportunidade para fazer coisas diferentes, de forma mais relaxada e menos formal, ou ele funciona como um lançamento de transição, para nos preparar para o que vêm aí?

GUILHERME: Não, não é um EP de transição!

LUÍS: Aquilo somos nós a curtir!

GUILHERME: Foi mesmo para curtir, e o press que fizemos na altura dizia isso mesmo, que era uma das viagens à lua que fazemos.

FILIPE: São músicas que não cabem no álbum..

LUÍS: E vão haver mais, obviamente!

O primeiro disco foi composto e tocado só pelo Luís e pelo Guilherme. No entanto, o Passeio das Virtudes foi gravado e composto quando os Salto já eram quatro músicos. Esta formação e o facto de serem uma banda completa influenciou o resultado final das músicas?

LUÍS: Claro que sim! E a nossa ideia era mesmo essa.

GUILHERME: Estas novas músicas, tirando uma ou duas que já vinham de trás, vivem do facto de já sermos quatro pessoas a tocar na banda. Foram músicas que nasceram dos quatro, mesmo que muitas das vezes existam ideias ou partes de músicas que vêm só de uma pessoa, o bolo geral acaba por ser fruto do trabalho de todos!

LUÍS: Assim é tudo mutável e muito mais dinâmico. É muito mais fixe!

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“Mar Inteiro” e “Lagostas”, os dois singles que precederam o álbum, são músicas bastante diferentes entre si. O que é que podemos esperar das restantes das músicas? Esta diversidade vai manter-se ao longo do resto do álbum?

LUÍS: Sem dúvida. Acho que essa diversidade irá existir, mas sempre dentro da mesma linguagem. E o álbum acaba por se tornar coeso também por causa disso… Não é?

FILIPE: Acho que sim!

GUILHERME: Sim, tu és capaz de ouvi-lo como um álbum, apesar de que se calhar haver coisas que fogem mais para o lado da “Mar Inteiro” e outras que fogem mais para o lado da “Lagostas”.

FILIPE: E ainda há músicas que se calhar até estão mais próximas do Beat Oven

GUILHERME: Sim, mas não é um álbum de extremos, onde as músicas mais electrónicas e instrumentais se assemelham à “Lagostas” e as mais rock e com um formato mais típico de canção se aproximam da “Mar Inteiro”.

LUÍS: A maior parte das malhas deambulam entre todos esse universos, é tudo muito natural.

FILIPE: Até temos uma música no álbum que é a “Drunk In Love” portuguesa!

TODOS: (risos)

E chama-se “Drunk In Love” em português?

LUÍS: “Amor Embriagado”? (risos) Não, não… A música chama-se “Em Paz com Falhas”, tem uma textura diferente de tudo o resto e abre um novo universo dentro das 12 músicas do disco!

Porquê “Lagostas”? Há alguma razão por detrás do nome?

LUÍS: Porque as lagostas estão sempre a comer. Segundo a letra, as lagostas somos nós!

GUILHERME: Mas é uma cena fora, é suposto ser abstracto.

LUÍS: Sim, e no videoclip tu vês isso! Eu imaginei este videoclip porque tinha visto um filme dos anos 60, chamado Godzilla vs The Sea Monster, feito no Japão, com o pessoal completamente mascarado, um de Godzilla e outro de lagosta. Foi dos primeiros filmes com efeitos visuais, desenhados por cima da película! No filme eles andam os dois à pêra, e eu pensei que em vez de ser o Godzilla a destruir uma cidade, devia ser a lagosta a fazê-lo!

E no filme quem é que ganha?

LUÍS: Ganha o Godzilla, claro! O Godzilla é o rei. Ah! E durante a batalha, tu vês que ao mesmo tempo há pessoas lá à volta num concurso de dança. É mesmo assim tão fora, aquilo!

Há coisa que não vale a pena perceber…

LUÍS: Ya, claro! É assumir.

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Voltando a temas ditos mais normais, a vista incrível do Passeio das Virtudes [rua do Porto] influenciou a música deste disco? É dessa rua que vem o nome do álbum, suponho!

GUILHERME: A vista é altamente!

LUÍS: Motivou a escolher o nome, porque a vista é linda.

GUILHERME: Motivou o nome apenas, mas foi depois do disco estar feito. Foi um amigo nosso, o Pedro Lucas, que escreveu a letra para a música “Passeio das Virtudes”. A música já existia mas ainda não tínhamos letra e quisemos que fosse ele a escrevê-la. Nós não lhe pedimos para escrever sobre o Porto, mas ele vivia lá na altura e acabou por falar de uma série de coisas com que nos identificamos.

LUÍS: E essa música acaba por englobar e abraçar bem o álbum todo.

FILIPE: É como se todas as músicas se pudessem chamar “Passeio das Virtudes”. Não tanto a nível estético, mas sim a nível conceptual e lírico.

GUILHERME: Até porque esteticamente não há nenhuma que seja transversal ao álbum todo!

Sinto que vocês têm uma relação muito próxima com os fãs, seja a interagir com eles no Facebook ou a convidar quem aparecer nos vossos concertos para beber uns copos convosco! Lembro-me que o Luís (teclista) fazia anos na noite do vosso concerto no Fusing e que puseram toda a gente que ainda estava no recinto a festejar, e até distribuíram rebuçados! Sentem uma resposta positiva dos fãs a esta vossa atitude? Costumam mesmo beber copos com eles?

LUÍS: Até fizemos uma festa, pois foi! Com piñata! (risos) Tu estavas lá?

Estava!

LUÍS: Foi muito bom! E respondendo à tua pergunta, o pessoal é mesmo fixe.

GUILHERME: Sim, e nem pensamos neles como fãs. É apenas pessoal que curte e nos vem dizer que gosta da nossa música. Seria muito estranho se não ligássemos ou se não acabássemos por criar uma relação com essas pessoas.

LUÍS: Nós ainda estamos a usufruir da parte mais positiva do pessoal nos reconhecer, porque quando vêm falar connosco é sempre porque gostam da música e não porque somos uma cara conhecida. Não é uma relação de fã e artista, ou de pessoal que olha para nós num nível superior.

GUILHERME: Sim, e acho que isso nunca vai sequer existir.

TITO: Andamos todos com os pés na terra!

LUÍS: E isso é muito mais fixe. Há bocadinho íamos a passear na rua e uma miúda virou-se para nós a dizer “Hey, vocês são os Salto!” e nós começamos logo a perguntar se estava tudo bem e a conversar com ela enquanto passeava o cão! É como encontrar um amigo no centro comercial!

GUILHERME: E há pessoas que ficam mesmo nossas amigas, e até acabamos a conversar com elas sobre coisas que não a música. E isso é que é bom, no fundo.

LUÍS: Exacto, o pessoal é mesmo fixe!

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Para acabar! No Fusing de 2014, a última vez que falámos com vocês, perguntámo-vos se dançar Salto devia ser um desporto. Vocês responderam que sim, com toda a convicção. Este segundo álbum dança-se da mesma forma que o primeiro?

GUILHERME: Pois foi! Vocês tinham umas perguntas muito fora e assim.

TITO: Exacto! Lá debaixo da garagem das artes ou de uma ponte qualquer. Perguntaram-nos sobre comida e assim! (risos)

Vocês disseram que, ao som do primeiro disco, era suposto fazerem-se pirâmides invertidas, com muita gente! E que não havia mais regras para além disso.

GUILHERME: Exacto, lembras-te disso?

TITO: Sim! Estávamos nós os dois, enquanto eles faziam qualquer coisa para a Antena 3.

Agora queremos saber como é que se dança o segundo disco!

GUILHERME: Abana-se muito a cabeça!

LUÍS: Se calhar, com um bocadinho mais de força e com menos velocidade.

TITO: E pára-se para pensar, muitas vezes.

GUILHERME: E dá para o pessoal se empurrar um bocado, também.

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É um mosh introspectivo, então?

LUÍS: E extrospectivo também. Mais pesado e lento, mas com força.

GUILHERME: Mas continua a dar para dançar, sem dúvida. As pessoas vão-se mexer muito ao nosso ritmo de certeza, e isto é um álbum onde nos mexemos muito ao vivo. A música mexe mais connosco do que no primeiro, agora há mais groove. Não é Tito?

TITO: Claro que sim.

LUÍS: Os ritmos são mais hipnotizantes.

TITO: É mais Michael Jackson! (risos)

Fotos de: Luís Silva/Shifter

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