Serão estas as vozes de 2016?


 

No final do ano, surgem sempre as listas de artistas e álbuns que marcaram os últimos 12 meses. A tarefa é fácil, basta fazer uma pesquisa sobre as faixas mais ouvidas e os nomes mais vistos. Mas, no reverso da medalha, o cenário é diferente. Só se têm como base apostas e convicções de que as escolhas vão ser bem sucedidas. Por isso, e arriscando que 2016 trará muita música recomendável, a selecção feita dá-nos uma amostra do que está para vir.

Eis a lista de artistas que têm tudo para funcionar – e bem – no panorama musical neste novo ano:

 

Jack Garratt

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O londrino de 24 anos é um bom começo. Multi-instrumentista, produtor e compositor, é a definição pura de talento. Desde as quase baladas românticas que se fazem apenas da voz e piano, até à vibe indie rock electrónico – que já lhe valeram comparações com Disclosure e Ed Sheeran – o produtor transporta-nos para o centro da sua música. “Breathe Life”, single do álbum por estrear, Phabes, contagia-nos desde o primeiro acorde. Entre guitarras, sintetizadores e o piano, é uma história a ser contada em crescendo. O eclectismo musical já lhe valeu uma base de fãs sólida, bem como a primeira parte nos concertos de vários nomes sonantes como o de Chet Faker.

Mura Masa

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Começa em 2014, com Soundtrack to a Death, no SoundCloud, a carreira de Alex Crossan. O produtor de 19 anos tem vindo a mostrar-se capaz de se tornar um peso pesado da indústria. Presença assídua no canal de música do YouTube Majestic Casual é lá que encontramos a maior parte das suas músicas. Revolvendo em torno de uma sonoridade electrónica com síndrome de Peter Pan, o produtor lançou em Outubro de 2015 o EP Someday Somewhere. As influências de trap com a suavidade vocal do R&B, consequência das colaborações com Shura em “Love for That” e NAO em “Firefly“, encontram perfeita harmonia nas mãos de Alex. Que 2016 nos traga Mura Musa em concerto. No Lux Frágil ou no Clubbing to NOS Alive, a rampa de lançamento parece ter um único sentido: o topo.

Rat Boy

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O retorno da glória do movimento punk, pelas mãos de um puto de 18 anos, remete-nos para a mítica frase do tio Ben: “Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades.Mas engane-se quem pensa que vai encontrar algo ao estilo de Sex Pistols. Pelo contrário. A atitude rebelde e delinquente é apresentada num misto de sons, entre riffs de guitarras à lá indie rock com um travo a british punk. A voz, em rap harmonioso e revoltado de quem é capaz de entrar num pub só para começar uma luta, lembra-nos um misto entre Alex Turner e Jamie T. A sociedade problemática de quem vive nos subúrbios encontra forma no lirismo anárquico de Jordan Cardy. É o próprio que produz, compõe e toca todos os instrumentos que ouvimos. É a única garantia que tem de ter controlo criativo total, afirma. No fundo, Rat Boy é a revolta de todos os putos e a voz de todos os outcasts. Em música. Em bom. A reter: “Fake I.D.” e “Sign On”. No SoundClound é possível ouvir The Mixtape na íntegra.

Blossoms

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Blossoms é a fusão conhecida, mas funcional, entre o psych-pop e o indie rock. Recordando bandas como Arctic Monkeys, ABBA ou The Stone Roses, a sonoridade torna-se uma mistura de géneros extremamente bem construída, acabando por se tornar inovador e familiar ao mesmo tempo. Os cool kids de Manchester, juntaram-se após vários projectos paralelos e dedicaram-se durante largos meses à criação da identidade musical que têm hoje em dia. Desde ensaios, à escrita das letras, passando pelo desenvolvimento musical e pessoal, estes cinco rapazes tornaram-se um dos projectos mais interessantes do Reino Unido. E isso nota-se em “Blow”, que se prende a nós durante todo o dia até nos apercebermos que estamos a cantarolar “Yes she blows, yes she blows…”. Ou em “Blown Rose” que nos mete a bater o pé e, se nos sentirmos mais atrevidos, a dar um passinho de dança. Blossoms é a banda perfeita para o palco secundário num qualquer festival de verão, naquela transição do dia para a noite.

NAO

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Se FKA Twigs nos tomou de assalto com a sua irreverência e genialidade musical, 2016 poderá muito bem trazer-nos a sua sucessora. Originária de Hackney, a allumni da Guildhall School of Music & Drama conta já com alguns EPs em mãos, destacando-se So Good. A vocalista/produtora é uma combinação entre o R&B dos anos 90’s, o soul e o funk americano num revivalismo actual. A sua voz já lhe valeu colaborações com Disclosure em “Superego“, (Caracal), e Mura Masa em “Firefly“. É essa frescura que a torna única. Embora todas as músicas tenham o potencial de se tornarem fortes singles, é em “Inhale Exhale” que NAO encontra o seu expoente máximo. Num ritmo frenético marcado pelo electro funk com influências dos anos 80, encontramos um novo vício.

Kelela

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Quando temos os produtores do momento, como Arca – Kanye West, FKA Twigs ou Björk -, ou Dj Dahi – Kendrick Lamar e Drake – a trabalhar connosco, sabemos que o único resultado possível é o sucesso. Kelela não é nova na cena, tendo já lançado a mixtape Cut 4 Me em 2013. Mas, é com o EP Halluciongen que prova que a ambição pop não é, de todo, o caminho que a própria quer moldar. Num registo onde alia a sua voz R&B a uma produção modernamente electrónica e a letras que cruzam temas entre o amor e o sexo, Kelela prova-nos que sabe bem para onde quer ir. “Rewind” ou “The Message” são exemplos da produção extraordinária, das influências de nomes como Drake e The Weeknd e da incrível voz da própria.

Honne

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O duo oriundo do sul do Reino Unido é a melhor banda sonora para qualquer noite que queiramos acompanhar com a nossa cara-metade e um copo de vinho. Tem uma vibe à anos 80, com um twist moderno e um som minimalista. A voz, capaz de se emergir connosco, é de uma paz contagiante. Encontramos uma colecção de batidas digitais que se fundem sem falhas, fazendo lembrar Daft Punk, mas num registo mais intimista e romântico. As letras que encontram inspiração em temas como amor, luxúria e todo o romantismo possível, aquecem-nos a alma e o coração. Com dois EP’s lançados, é entre as canções “Love the Jobs You Hate” e “No Place Like Home” que nos encontramos seguros, em casa, assim como só a boa música nos consegue deixar.

Loyle Carner

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Talvez a melhor aposta no rap que 2016 tem reservado para nós. É o regresso da cena old school, ao estilo próprio de Brooklyn, na voz de um britânico. A vertente lírica é mais emocional, mais pessoal, mais íntima. Temas como a família ou a morte são retratados nas suas canções. O EP A Little Late foi lançado logo após a morte do padrasto, que teve um peso importante na construção das letras. Em “Cantona” encontramos o luto em versos como: “We’d sit for hours/ Sun thunderstorms or showers/ In the same living room watching the flowers bloom”. Talvez seja devido a toda esta honestidade musical que se vê Loyle Carner como um dos projectos mais interessantes destes últimos anos. Tendo já pisado o palco do Glastonbury, faz-se livre de receios de tocar em pontos mais sensíveis. É o mais real e verdadeiro que há agora. E, no fundo, não é isso que é preciso?

Mabel

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A filha prodígio da cantora Neneh Cherry e do produtor Cameron McVey traz-nos uma melodia viciante que revolve num R&B puro. Ao estilo de Ciara ou Lauryn Hill – que a própria cita como sendo das suas artistas favoritas – Mabel faz um refresh à música de hoje em dia. “Know Me Better” é o cartão de visita daquela que será a carreira estrondosa da jovem produtora. Num ritmo energético, é nas primeiras palavras que nos rendemos. A letra retrata aquele momento em que, no início de uma relação, começamos a mostrar o nosso verdadeiro eu. Cliché, mas resulta. Porque, para além da parte técnica, a própria faz música honesta e verdadeira. Assim como as suas letras. Em “My Boy My Town”, num registo mais calmo e íntimo, encontramos a mesma fórmula. Honestidade acima de tudo.

Tory Lanez

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Numa primeira vez pode parecer algo que já ouvimos na rádio, mas Tory Lanez é bom o suficiente para se destacar. Com influências claras em Lil Wayne ou The Weeknd, o produtor originário de Toronto traz-nos provas suficientes de que 2016 é o seu ano. Na cena musical desde 2010, Lanez conta com quatro EP’s e um álbum a caminho, previsto para o primeiro trimestre. Numa base de samples e batidas trap, as canções ganham forma com a voz perfeitamente desenhada para a sonoridade do hip-hop moderno. Apresenta-se como tendo um estilo próprio, não querendo entrar em rótulos já existentes é com a categoria Swavey que se classifica. Criada pelo próprio, significa a junção de todos os géneros de música necessários criando algo único e próprio. “Say It” é o expoente máximo de Tory Lanez, que já conta com uma cover de Ed Sheeran. “Diego” e “Priceless” são, também elas, músicas a ter em consideração.

Alessia Cara

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Lembram-se daquela sensação que tinham quando ouviam músicas dos The Calling? A voz que não tinha nada que ver com a cara do vocalista? Bem, Alessia Cara é essa surpresa, em bom. Com uma voz sonante, a jovem auto-didacta tem tudo para dar certo. O single “Here”, aclamado pela crítica, é o espelho daquela que será a carreira da própria: um mar de sucesso. As letras, tão reais como sinceras, fazem jus à sua sonoridade. Com um álbum em mão, Know-It-All, numa altura em que já quase tudo foi feito e o medo de arriscar é cada vez maior, Alessia prova que ainda é possível singrar e inovar na indústria. Na sua base de fãs encontram-se Drake, Taylor Swift – que já a convidou a subir a palco na sua tour – e Lorde. Se aos 19 anos de idade a compositora já tem este currículo, o que é que pode correr mal daqui para a frente?

Anderson .Paak

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Em Agosto chegou-nos Compton, de Dr. Dre, a salvação do hip-hop da costa oeste e rampa de lançamento para um dos mais talentosos rappers de nova geração de Los Angeles. Já foi Breezy Lovejoy e .Paak, adoptando agora o perfil completo de Anderson .Paak. Numa voz quase camaleónica, capaz de se adaptar a qualquer género musical, este rapper/cantor apresenta-se num misto entre r&b e soul, a dar uns toques no pop-rock vibrante. E isso ouve-se em “Luh You”. Em “Suede“, ainda sobre o antigo heterónimo e em conjunto com Kwxnledge, damos de caras com a parte mais rapper do também produtor, mas sempre com um travo a soul, consequência da voz imaculada do próprio. Com quatro álbuns e quatro EP’s, mais que uma promessa de sucesso, é uma promessa na música.

No fundo, existe a possibilidade de que são estes os artistas de amanhã. Dos diferentes géneros possíveis, esta é uma lista mais do que eclética, para todos os gostos.

Texto de João Pedro Padinha

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