‘The Revenant’


A frase “on est tous sauvages” ou “nós somos todos selvagens” marca o início do terceiro acto do filme mas poderia bem aparecer no início do mesmo, servindo de aviso para o que se seguiria em tela.

Principal candidato a ganhar o Óscar para Melhor Filme a par de Spotlight, The Revenant tem na sua melhor prestação o seu brilhante director de fotografia Emmanuel Lubezki, num filme que vale sobretudo pela forma e não tanto pelo conteúdo. Injustamente ou não, será lembrado pelos Óscares de maior relevo que poderá ganhar. No entanto, é pela fabulosa fotografia e trabalho da câmara que The Revenant perdurará na História.

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Filmado usando quase unicamente luz natural (à excepção de uma cena à fogueira), o filme leva-nos até duas grandes presenças: as naturezas. De um lado a natureza que serve de cenário a todo o filme, o meio ambiente. Acompanhadas da magistral banda sonora a cargo de Ryuichi Sakamoto, paisagens fabulosas cobertas de neve ou rios de água gélida seguem-nos durante toda a história e são pano de fundo para a outra natureza fundamental na obra: a natureza humana.

Crú, visceral e realista são as melhores definições para o comportamento humano das personagens do filme, que tantas vezes nos leva a querer meter a mão à frente dos olhos.

É essa mesma natureza que serve de motor de toda a narrativa: o desejo de vingança. É o sentimento que nos acompanha ao longo do filme e que leva Hugh Glass (Leonardo DiCaprio) numa verdadeira jornada de luta pela sobrevivência por incríveis cenários naturais, depois de ser atacado por um urso pardo e ser deixado ao abandono por John Fitzgerald (Tom Hardy) e Bridger (Will Poulter). Um desempenho fisicamente doloroso para Leo DiCaprio, que ultrapassa a barreira física da tela pelas diversas cenas realistas e sangrentas e nos inquieta a nós espectadores, que estamos no conforto das nossas cadeiras. Ultrapassando ambientes inóspitos, Glass busca uma resolução que na realidade já não existe, numa odisseia humana envolta num realismo selvagem que é por vezes cruel demais.

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Mas DiCaprio está longe de ser o único foco do filme. A seu lado existe Tom Hardy que rouba todas as atenções quando está em cena e que vem comprovar que o Óscar de Actor Secundário será um dos mais difíceis e injustos de entregar apenas a um dos nomeados. Em “segundo plano” – apesar de ser injusto dizê-lo desta forma – aparece ainda o supreendente Will Poulter com uma portentosa prestação e Domhnall Gleeson que encerra assim de forma brilhante um ano verdadeiramente fantástico onde figurou em Ex-Machina, Star Wars, Brooklyn e The Revenant, alguns dos melhores filmes do ano.

Alejandro Iñarritu não quer nem precisa de ser algum outro que não ele, apesar de recorrer a alguns planos-sequência que estamos habituados a ver, por exemplo, nos filmes de Terrence Malick. O mexicano já tem o seu lugar próprio entre os grandes nomes do cinema. Uma das únicas críticas a apontar-lhe será porventura o excessivo prolongar da história, mas num filme que quer transmitir uma experiência verídica torna-se injusto fazê-lo, servindo isto também para defender o pouco conteúdo que possa ser criticável no filme. Numa obra que se compromete a relatar factos reais não há nem tem de haver espaço para texto alheio aos acontecimentos. De resto, sobram ainda elogios para a câmara que quase nos coloca como voyeurs, sobretudo durante as intensas trocas de tiros ou sequências de fugas e perseguições que nos metem no centro da acção.

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Quanto a Leonardo DiCaprio, numa interpretação puramente física, foi mártir para conseguir (será desta?) ganhar o tão ansiado Óscar. Irónico será o simples facto de ser um dos anos em que menos o merece, mas ninguém se importa. O Óscar já lhe é devido há muito tempo, mais exactamente desde The Aviator.