‘Carol’


A voluptuosidade e subversão com que os fifties na América silenciavam a pureza do apetite pelo proibido. Cate Blanchett e Rooney Mara interpretam da melhor forma um amor não convencional para a época, nuns Estados Unidos de mentalidade abrutalhada, antiquada e machista.

De um lado Cate, Carol Aird, mãe, dona de casa e esposa num casamento de classe média/alta que ruiu e se desmorona a passos largos até ao seu fim sendo que Rindy, a filha do casal é o único laço que ainda dá alguma humanidade à relação entre Carol e Harge (Kyle Chandler). Do outro está a jovem aspirante a fotógrafa que trabalha numa loja de brinquedos Therese Belivet (Rooney Mara), delicada, inexperiente, introspectiva e que se perde nos momentos que eterniza mas nunca expõe.

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As duas desenvolvem entre si uma paixão como qualquer outra, normal de existência mas especial para cada uma delas. Um sentimento censurado em plenos anos 50. O amor é vivido de formas diferentes, de um lado com a experiência, capacidade de decisão e subtileza de Carol, que tem a seu lado a sua confidente Abby Gerhard (a fantástica Sarah Paulson com uma interpretação de realce), do outro Therese que, desamparada, busca forças onde nunca as soube ter para seguir os seus sonhos.

No terceiro acto, há um afastamento precoce entre as duas causado pela turbulência do divórcio de Carol que se vê na iminência de perder a pequena Rindy. A visão que é dada dos acontecimentos é granulada e antiquada, idêntica à forma com que o filme no geral se apresenta a nós, espectadores. Filme que Todd Haynes (Safe ou Far From Heaven) gravou em 16 mm, que apenas peca pelos minutos a mais que tem para o desenrolar necessário da história.

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Depois do afastamento, nada sai da boca de cada uma por razões diferentes. Um “I miss you!… I miss you!” desesperado e afogado em lágrimas e sentimentos que apenas se solta quando o telefone é desligado sem que haja a coragem para sair antes. A força de uma decisão que, sem ter a certeza de que foi a mais correta, teve de ser tomada.

No final, a beleza de um toque sobre o ombro que redesperta um sentimento obrigado a esmorecer mas que nunca pereceu. Duas interpretações sublimes de Cate (que em 2014 ganhou o Óscar para Melhor Actriz com Blue Jasmine de Woody Allen) e Rooney Mara que rouba todas as cenas em que entra com o seu sorriso envergonhado e que nos faz questionar: “há realmente uma actriz principal nesta história a dois (ou duas)?” Porventura não haverá maior injustiça nesta edição dos Óscares que Rooney não ganhar o prémio de Melhor Actriz Secundária. O toque feminino volta a ter espaço de destaque no que de bom se faz no cinema.