GRAMMYs 2016: uma mudança no panorama musical?


Dias depois da gala do mais alto galardão do mundo da música, debruçamos-nos sobre os nomeados e os vencedores e sobre a forma como esta edição pode ter significado uma grande viragem da indústria musical.

Em primeiro lugar, há que dar destaque às 11 nomeações de Kendrick Lamar, sendo que conseguiu “apenas” vingar em 5 delas. Este “apenas”, não se refere à falta de qualidade para vencer nas nomeações, mas precisamente porque merecia mais, pelo brilhante ano que teve, tendo em conta o enorme To Pimp A Butterfly. Um álbum onde a maior dificuldade é encontrar um defeito, acabou por perder a categoria de Melhor Álbum do Ano para 1989 da Taylor Swift.

Tendo vencido as 4 categorias de Rap – incluindo Melhor Álbum desta categoria – ficou a ideia de que os jurados não quiseram por isso atribuir-lhe também o prémio geral de melhor do ano, deixando-o para a artista pop, que tem andado numa discussão acesa com Kanye West, fait diver que talvez possa ter impulsionado a decisão neste caso. Ainda assim, podemos dizer que foi um pequeno passo para Kendrick mas um grande passo para a indústria musical.

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Outro grande vencedor da noite foi, nada mais nada menos que D’Angelo. O retornado que esteve 14 anos sem dar soul ao mundo, perdeu a distinção de Gravação do Ano para o surpreendentemente vencedor “Uptown Funk” de Bruno Mars, mas conseguiu dar a volta ao resultado, levando dois gramofones, os de Melhor Álbum e Melhor Música R&B, atribuídos a Black Messiah e “Really Love”, respectivamente.

Uma pequena nota sobre D’Angelo, que havia lançado esta obra prima de R&B e Soul no final de 2014: foi uma das maiores inspirações para Kendrick Lamar na criação do To Pimp a Butterfly, que se deve muito também ao grupo The Vanguard, que acompanhou D’Angelo neste trabalho. Foi o edificar de uma imposição das fortes raízes afro-americanas e a reivindicação dos seus direitos, como Cidadãos e como músicos. Espera-se uma continuação desta luta que tem ganho contornos cada vez mais mediáticos, da Pop com a actuação de Beyoncé no Super Bowl, ao Hip Hop com a performance altamente política de Kendrick na gala dos Grammy, a trabalhos mais recentes de artistas frescos como Anderson .Paak, no seu LP Malibu.

Olhando para os Grammys, papéis como o de Kendrick Lamar ou D’Angelo são acima de tudo uma imposição e um marco. Primeiro, o Hip-Hop está na frente de uma luta racial. Está a ser usado como uma arma de argumentação pacifista. Segundo, ao fim de 15 anos, a música está finalmente a ganhar outra vez identidade. O grande problema da música nos anos 2000 foi a falta de artistas que criassem algo para além do revivalismo. Toda esta década e meia foi uma constante de artistas a revitalizar as épocas áureas da música. Nota-se ainda esta tentativa sofrida por grande parte dos músicos mais valorizados nestes prémios.

No caso de Bruno Mars, por exemplo, que foi distinguido com uma música que é, nada mais nada menos que, uma reencarnação do Funk puro e duro. Nada contra a concepção da música, antes pelo contrário, mas pode dizer-se que peca por falta de originalidade. Por outro lado, D’Angelo é um revivalista do que ele próprio fazia nos anos 90. Continuam claro – e continuarão sempre – a existir os produtos massificados, como é o caso de Taylor Swift que, apesar do banho de nomeações de Kendrick, acabou por levar para casa o prémio considerado mais importante, como numa confirmação da lealdade da organização à Pop de entretenimento.

Está claro que, o que mais marca estes indícios de um futuro promissor são as nomeações para os prémios e não exactamente quem os ganha.

Kendrick Lamar’s performance blew the audience away at the #Grammys.

Posted by Mashable – Entertainment on Monday, February 15, 2016

 

Ainda a destacar há alguns vencedores das categorias ditas “secundárias”, categorias essas onde não há propriamente uma mudança de paradigma mas que são essenciais porque são elas as categorias responsáveis por garantir em todas as edições que há mesmo mais música além da Pop.

Começar pela vitória do segundo Grammy por parte de Snarky Puppy, na categoria de Melhor Álbum Instrumental Contemporâneo, com Sylva. A junção do grupo de Jazz com a Metropole Orkest, naquela que foi a ascensão máxima do conceito de música de fusão: 64 músicos, 6 músicas, tudo composto por Michael League. Recebeu uma distinção disputada contra o veterano Marcus Miller, que tinha o seu filho Afrodeezia, a tentar vencer nesta categoria.

We’re overwhelmed, surprised, and beyond grateful for the Grammy Award last night. I want to extend huuuuge…

Posted by Snarky Puppy on Tuesday, February 16, 2016

 

Uma enorme decepção foi a derrota de Hiatus Kaiyote na categoria de Melhor Performance R&B, perdendo para The Weeknd. Hiatus tinham nesta categoria a música “Breathing Underwater” que era, sem dúvida, a mais justa vencedora. O grupo merecia a distinção por duas razões: primeiro porque em 2015 lançaram Choose Your Weapon, o segundo longa duração que mais uma vez demonstra a virtuosidade de Nai Palm, na sua busca pela beleza eternizada e prensada nas músicas que compõe. A segunda razão, é pelo simples facto de, já em 2013, terem perdido para a “Something” dos Snarky Puppy com a poderosíssima Lalah Hathaway, que este ano recebeu um Grammy com a música “Little Ghetto Boy”, na categoria de Melhor Performance R&B Tradicional. Esta música pertencia ao seu pai, Donny Hathaway, e desta vez foi interpretada em conjunto com Snoop Dogg. No entanto, pode-se dizer que não foi a melhor forma de honrar o legado, sendo que o cover pecou na produção e na criatividade, dando a ideia que foi feito “em cima do joelho.”

Para finalizar, na secção do Jazz recomendamos que oiças aqui o vencedor de Melhor Solo Improvisado, Christian McBride, gravado quando o músico vibrou e fez vibrar com “Cherokee”, num concerto no fantástico The Village Vanguard. Já o prémio de Melhor Álbum Instrumental de Jazz, ficou nas mãos de John Scofield com Past Present, lançado através da Impulse. O mais impressionante, foi ter derrotado dois álbuns nesta categoria, da editora Blue Note Records, tendo em conta que, um deles pertencia ao harmonioso Robert Glasper.

Posto isto, a conclusão da cerimónia dos prémios Grammy chama-se mesmo Kendrick Lamar: pelo que ganhou, pelo que não ganhou e pelo que as vitórias e derrotas significam para o futuro da Música. A esperança continua no seguimento desta projecção do rapper que, não só se tem vindo a afirmar como um colosso do Rap/Hip-Hop, como foi o desbravador de um caminho com vários obstáculos, marcando uma viragem que só pode ser bem vincada se surgirem mais músicos a querer seguir o mesmo rumo.