Há uma nova Criatura na música portuguesa à qual deves prestar atenção


“Diz o mapa que está na capa, que nasceu uma Criatura para amar em pedra dura.” É esta a primeira frase que podemos ler no pequeno livro quem vem colado ao álbum de Criatura, Aurora. Criado por Edgar Valente, a Criatura é um colectivo de jovens músicos, que quer marcar pela diferença na música portuguesa.

De gestação alentejana não se furta aos códigos das planícies do Tejo, das montanhas beirãs, do mar do Algarve. A criatura de Edgar Valente ganha forma em palco com 11 músicos, mais alguns convidados. Edgar faz voz e teclados; o resto fica a cargo das outras “criaturas”: João Aguiar (guitarra eléctrica), Paulo Lourenço (baixo eléctrico), Gil Dionísio (voz, violino e experimentalismos), Fábio Cantinho (bateria e percussão electrónica), Acácio Barbosa (guitarra portuguesa, cavaquinho), Eloísa d’ Ascensão (voz e percussões tradicionais), Yaw Tembe (trompete e instrumentos de percussão), Alexandre Bernardo (guitarra acústica, cavaquinho e bandolim), Tiago Vicente (percussões tradicionais portuguesas e do resto do mundo) e Ricardo Coelho (aerofones tradicionais, flauta transversal e percussões tradicionais).

A Criatura é um bando repleto de músicos, fotógrafos, cantadores, técnicos, produtores, videógrafos, artistas. Todos eles são criadores. Também eles são criaturas. Juntam-se para fazer música popular e tradicional portuguesa. São consciência de todo um povo que tem algo a cantar.

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O projecto nasceu há dois anos e apresentou-se entretanto em vários palcos, como o do festival Bons Sons, no último Verão, ou do FOLIO (Festival Literário Internacional de Óbidos), no final do ano passado. Foi em 2013 que Edgar criou uma residência artística em Serpa, para promover a música portuguesa e, mais concretamente, a música alentejana. Explorando o que se faz no interior de Portugal, nasceu a Criatura, com o objectivo de, não só glorificar a música típica das diferentes zonas do país, mas também de lhe dar um novo rumo e incentivar à criação de um novo género, filho das gerações que embalaram o nosso passado.

Aurora é o primeiro trabalho de estúdio de Edgar Valente e das suas “criaturas”; conta com a colaboração do Grupo Coral e Etnográfico da Casa do Povo de Serpa, que deu brilho aos cantos entoados no disco. Fazem-se acompanhar pela Duck.Production, uma excelente dupla de design, fotografia e vídeo que, diga-se de passagem, fez um belíssimo trabalho no que toca à produção do formato físico do disco. O som ficou nas mãos de Tó Pinheiro da Silva, um veterano deste campo.

Isto é o que a Criatura diz sobre o seu Aurora:

Diz o mapa que está na capa, que nasceu uma Criatura para amar em pedra dura. Algures no primórdio de um novo ciclo de uma árvore infinita.

Quisemos conhecê-la até à raiz, mas parámos na eterna questão da essência. Tentámos escalá-la até ao topo, mas para lá do último ramo ficou por alcançar a imensidão que pertence ao incognoscível.

Percebemos então que o saber tem limites; mas o sentir não. É o que nos distingue das máquinas, funcionar mesmo quando não sabemos o caminho. Somos capazes de quase tudo, mesmo sabendo quase nada. E cá estamos nós, 13,8 mil milhões de anos depois d’ A Primeira eventual irrupção do Cosmos. Filhes de todo um mesmo nada… Pastores de cada diferente pedaço de tudo.

Uns com o Cajado entortado, outros Sem cajado tão pouco. É Portugal da Europa e do planeta Terra, quase-planeta-Guerra. Final do ano de 2015 depois de Cristo… ou de Alá… sabe-se lá. Descobre-se que o Universo diverge e se expande infinitamente, a toda a hora. Tudo aponta para a separação das partículas.

Mas depois há as que ainda empunham firmemente o cajado, e contra todas as evidências se resignam à individualização.
As que ainda olham o céu para lá da Luz artificial, e se conectam com a Terra para lá das solas. E umas com as outras, para lá do ego. As que ainda tiram proveito da lei da atracção e quando juntas, partilham ideias, trocam conhecimentos, falam de crenças. Todos com a mesma verdade, mas cada um com a sua pergunta. Depois, a energia em movimento: abrem-se as mentes, unem-se os dons, balançam-se os corpos, libertam-se as vozes!… Evoca-se o despertar da Aurora, para que chegue antes de irmos embora.

E canta o pai, canta a mãe, canta o neto e a avó! Até cante’am os tios alentejanos de Serpa em jeito de Moda Nova.

Ai, Menina da Paz! que o Tempo não volta atrás…
mas o Amor permanece… inefável.

Vamos mas’é fazer uma Algaraviada antes que se acabe a geração!
Porra.

O disco está disponível para compra no Bandcamp e para streaming no Spotify. O alinhamento é composto por oito faixas, das quais se destaca o single homónimo, “Aurora”:

Aurora

  1. “A Primeira”
  2. “Filhe”
  3. “Pastor Sem Cajado”
  4. “Aurora”
  5. “Moda Nova”
  6. “Menina da Paz”
  7. “Tempo”
  8. “Algaraviada”

Em baixo, podes ficar a conhecer um pouco melhor a banda através de um vídeo que fizemos no Bons Sons; tem Criatura como banda sonora e algumas imagens do conjunto em palco.