Inspectores de filmes britânicos obrigados a assistir a… 10 horas de tinta a secar


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Quando Charlie Lyne, um jovem realizador britânico, entregou 607 minutos de tinta a secar ao British Board of Film Classification, estava a tentar provar um ponto. O British Board of Film Classification foi estabelecido em 1912 para garantir que os filmes britânicos  se mantinham livres de “danças inapropriadas”, “referências a políticas controversas” e “homens e mulheres juntos na cama”, entre outras coisas.

Hoje, o British Board of Film Classification (BBFC) continua activo e nenhum filme pode passar numa sala de cinema britânica sem ser visto por esta entidade. Os peritos são obrigados a visionar os filmes de uma ponta à outra, sendo que, para isso, os autores desses conteúdos têm de pagar uma taxa à BBFC: 101,50 libras para a submissão do filme, mais 7,09 libras por cada minuto. A BBFC analisa o conteúdo da obra cinematográfica e classifica-a de acordo com a idade da audiência.

Assim, um cineasta que queira colocar um filme de 2 horas no cinema vai ter de pagar 952,30 libras à BBFC para que esta possa fazer a verificação do conteúdo. “Para muitos realizadores independentes, tal quantia de dinheiro é proibitivamente cara”, escreveu Charlie Lyne na página de crowdfunding onde o seu protesto começou. “Enquanto que os realizadores são obrigados a pagar à BBFC para certificar o seu trabalho, a BBFC tem de se sentar a ver o que quer que nós lhes paguemos para ver.”

Ora, Charlie decidiu produzir um filme intitulado Paint Drying, que mostra, única e exclusivamente, uma parede de tinta a secar. A duração do filme dependia do dinheiro angariado na campanha. Charlie conseguiu 5 936 libras, o que resultou numa produção de 607 minutos, isto é, de cerca de 10 horas. “Tenho horas contínuas de filmagens, em vídeo digital 4K. Isso deve ser material suficiente para o filme, contando que esta campanha não deve angariar mais de 6 057 libras”, dizia o jovem antes de saber o valor final.

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Charlie Lyne tem 25 anos e, para além de ser autor de trabalhos como Beyond Clueless (2014), Copycat (2015), Stand By for Tape Back Up (2015) e Fear Itself (2015), tem uma rubrica no The Guardian intitulada “Charlie Lyne’s home entertainment”.

Charlie não é a primeira pessoa a tentar aborrecer os examinadores do BBFC. Em 1963, Andy Warhol – sim, ele mesmo, o rosto da pop art – fê-los assistir a horas de uma pessoa a dormir. Já Derek Jarman, cineasta britânico, mostrou-lhes um interminável plano de cor azul.

“As pessoas não iriam suportar se a BBFC censurasse literatura, música ou qualquer outra forma de arte, então porque é que com o cinema isso é justo?”, comentou Charlie com o jornal The Independent. “‘Paint Drying’ é a minha tentativa de chamar à atenção para essa contradição e eu quis provocar uma discussão em torno da censura de filmes no Reino Unido, o que com o meu projecto consegui certamente.”

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Paint Drying chegou às mãos da BBFC no final de Janeiro e foi ainda antes do mês terminar que dois examinadores viram o filme em dois dias diferentes (cada sessão na BBFC não pode exceder as 9 horas) e o classificaram com “U”, ou seja, aprovado para ir para as salas de cinema.

Ao Mashable, um porta-voz da BBFC disse que, apesar de conhecer “os motivos por detrás do filme”, classificou-o “como classificaria qualquer outra submissão”. “Os examinadores têm de assistir a uma ampla variedade de conteúdo todos os dias”, acrescentou, explicando o motivo da existência da instituição.

Em Portugal, a Comissão de Classificação dos filmes está integrada na Inspeção Geral das Atividades Culturais (IGAC). Assim, um distribuidor de uma obra cinematográfica que pretenda a sua exploração comercial terá de contactar a IGAC, que, depois de analisar a obra, atribuirá a Licença de Distribuição no valor de 159,90 euros, independentemente da duração. Esta licença não é necessária para filmes que sejam apoiados financeiramente pelo Estado ou que sejam exibidos em festivais nacionais.

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