O que podemos esperar de ‘Vinyl’?


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Distribuída em Portugal pelo TVSeries, Vinyl é uma das principais surpresas do home entertainment americano no ano de 2016. Uma série criada por Jagger e Scorsese já diz muito por si própria — assumimos que haverá sempre droga, mulheres e muito Rock n’ Roll (e, do que vimos, existem todos, com grande frequência e sem contenção). Mas o que se pode esperar da ficção sobre os anos 70 para além do que é óbvio? Foi o que tentámos descobrir.

Sem spoilers, podemos garantir que a série se destaca do que já foi feito pelo seu ângulo. Tal como em Almost Famous, o exemplo clássico para todas as histórias de Rock que se contam no ecrã, os grandes ícones da música são deixados para segundo plano, focando-se Vinyl no lado da edição de discos e promoção de artistas. Os mitos de bacanais com cocaína e negócios feitos no limite da decência são aprofundados ao mais ínfimo pormenor; ouvem-se relatos de bandas medianas assinadas por estagiárias que se deslumbram com troncos nus e más maneiras em palco, destroem-se os clichés da banda que chega ao estrelato sem recorrer a um ou dois golpes baixos e contam-se as inúmeras lamúrias de lares quebrados à conta de multinacionais que exploram artistas com percentagens indignas.

No centro da ação, Richie Finestra (representado por Bobby Cannavale ao estilo de Tony Montana em Scarface) agarra-nos como o anti-herói perfeito; não há nele traço de personalidade que para uns não seja defeito e para outros feitio. É sobre ele que recaem todas as ligações entre personagens, ou não fosse Richie a principal cara da American Century, a label de onde parte a história. De um modo geral — ainda que seja cedo para o avaliar —, Cannavale é uma escolha mais do que acertada. O seu ar de rufia (que Woody Allen tinha já aproveitado tão bem em Blue Jasmine) transmite tudo o que uma indústria minada por dentro tem para contar, mas não nos deixa de enternecer quando o apanhamos como um peão no enorme jogo que era e é a gestão de carreiras de artistas.

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O ponto alto deste piloto é, sem grandes dúvidas, a cena de violência (com pouco discurso e muita ação corporal, como aliás parece ser a regra) em que o líder da American Century está envolvido, mas quanto à sinopse ficamo-nos por aqui, até porque não queremos estragar a história.

É certo que 120 minutos de episódio — com direito a uma recriação tanto entusiástica como catastrófica da atuação de uma das mais emocionantes bandas da época  — são um exagero, mas só assim conseguimos aterrar por completo no universo que o líder dos Rolling Stones e Scorsese pretendiam trazer a público desde os anos 90. O efeito de imersão é absoluto, ainda que este primeiro capítulo nos tire o tapete em momentos menos óbvios, mas é daí que a série se vislumbra como contagiante. O excesso torna-se também a nossa regra, e vamos querendo conhecer os limites de todas as personagens, que, sendo mais ou menos sobre-humanas, vão falhando rotundamente ao longo da narrativa.

O primeiro impacto é sempre importante para fidelizar públicos, e aí Scorsese voltou a não ter qualquer preconceito em trabalhar ao estilo da televisão; o piloto, per se, garante, com algumas certezas, que Vinyl poderá vir a ser um dos programas de culto da HBO, ainda que para um público alvo distinto do que acompanha Girls ou Game of Thrones. Perder esta estreia é, para melómanos e cinéfilos, um erro crasso. Para os restantes não será tão grave, mas, mesmo assim, aconselhamos que se colem ao ecrã. Vinyl é uma série que vale por si e não só pelo contexto (as cenas punk e disco são importantes, mas subtextos como o racismo e a diferença de classes também ajudam a aceder o rastilho narrado por Terence Winter). Para além do mais, surpresas como a prestação de James Jagger são recorrentes, e convém mesmo não perder o fio à meada. Podendo, é ver.


Nota: os restantes nove capítulos da história terão a duração de uma hora e estreiam em simultâneo com os Estados Unidos da América (2h da manhã, na hora portuguesa, aos domingos). Os episódios repetem à segunda, em horário mais acessível, por volta das 22h45, também no TVSeries.

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