O que se passa com o crowdfunding do Museu Nacional de Arte Antiga?


No passado mês de outubro, o Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) lançou o crowdfunding Vamos Pôr O Sequeira no Lugar Certo”. O objetivo da campanha é adquirir a obra A Adoração dos Magos, em exposição temporária no museu. Porém, passados três meses desde o arranque, os fundos recolhidos não vão além de um quarto da meta traçada. O que se passa?

Pintada por Domingos António de Sequeira em 1837, A Adoração dos Magos pode ser visitada até ao final de abril deste ano no MNAA. Depois dessa data, o museu português espera conseguir integrar a obra na sua colecção, da qual já fazem parte estudos preparatórios e outras peças do mesmo autor. Para que tal aconteça, o MNAA tem de adquirir a obra. Nesse sentido, em Outubro de 2015, o museu lançou uma campanha de crowdfunding com o objetivo de angariar os 600 mil euros que o quadro custa.

A oportunidade de enriquecer o espólio do primeiro museu nacional com esta peça de Domingos Sequeira é única. Por esse motivo, a iniciativa do MNAA é meritória e não destoa da restante prestação da sua atual direcção, que vem promovendo um dos períodos de maior vitalidade que o museu das janelas verdes já viveu. No entanto, o patamar alcançado, de apenas um quarto do valor, a meio do prazo da campanha não augura um desfecho positivo para a campanha.

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A ainda fraca tradição de crowdfunding em Portugal pode ser um obstáculo, mas que seria facilmente contornado por uma campanha bem construída, sobretudo tratando-se do principal museu português e tendo uma das maiores publicações nacionais (o jornal Público) como parceira. “Vamos Pôr Este Sequeira no Lugar Certo” comete um conjunto de erros que poderão custar o sucesso da mesma. O sucesso de uma recolha de fundos deste género está diretamente dependente do envolvimento que consegue fomentar nos seus interessados e da facilidade com que tal acontece.

Para que essa relação se estabeleça, é fundamental colocar à disposição meios de contribuição acessíveis e fáceis de utilizar. Tal não acontece com o sistema apresentado pelo MNAA, no qual a compra de um ou mais píxeis é complicada e pouco intuitiva.  Sentimo-nos perdidos e apenas uns passos à frente tomamos conhecimento do valor a que corresponde os píxeis que selecionamos. Se o valor for demasiado alto para a nossa carteira, temos de recomeçar o processo. É verdade que existe a opção de estipular um valor, mas para quê confundir os visitantes com diversas opções e ferramentas de desenho para a seleção dos píxeis?crowdfundingmnaa2

Outro sinal da ausência de intuição é o facto de não sermos informados do estado da campanha mal acedemos à página. Vemos os píxeis comprados até ao momento, mas é necessário fazermos uma regra de três simples para compreendermos o que esse número representa no todo. Por exemplo, quem visitar uma campanha no Kickstarter ou no Indiegogo, os dois principais portais internacionais de crowdfunding, toma rapidamente conhecimento do valor recolhido e da fatia que ele representa, através de um simples número percentual. Por outro lado, é incompreensível nos nossos dias que uma iniciativa desta dimensão descure os dispositivos móveis, nos quais cada vez mais gente concentra o seu tráfego online. Se visitares a página no teu telefone ou tablet, vais deparar-te com uma mensagem a pedir que acedas através de um computador…

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Por muito generoso que seja cada um dos participantes, a oferta de algo em troca de uma contribuição atrai interessados e aumenta a disponibilidade destes para ajudar com valores superiores. No caso do MNAA, isso poderia ter sido feito com reproduções da obra, visitas temáticas ou outras soluções mais criativas. Numa área do site dedicada aos benefícios, que também peca por não ser imediatamente apresentada ao visitante, o museu oferece bilhetes e publicações próprias conforme o patamar de contribuição. Embora o gesto seja positivo, só seria verdadeiramente incentivador se estivéssemos a falar de recompensas exclusivas desta campanha, impossíveis de adquirir sem o contributo para a mesma.

Contudo, quem decide participar numa campanha crowdfunding não procura somente uma recompensa material ou atirar o seu dinheiro e regressar no final para saber o que daí resultou. Quem apoia uma iniciativa deste género está interessado também nos seus bastidores, na história que se vai desenrolar até o objetivo ser alcançado. Toda a logística que uma peça como A Adoração dos Magos comporta podia representar material suficiente para alimentar a curiosidade de milhares de apoiantes e fazê-los trazer outros com quem partilhar essa experiência.

Não é a primeira vez que uma instituição portuguesa recorre à ajuda do público para enriquecer o seu espólio. Em 2014, a associação Amigos do Museu de Aveiro ofereceu ao museu da cidade uma pintura da princesa Santa Joana que comprou em leilão com dinheiro angariado. Pelo mundo fora o historial é mais extenso e com valores muito superiores. Por exemplo, 1 dos 4 milhões de euros que o Museu do Louvre pagou pelo restauro da escultura Vitória de Samotrácia teve origem em donativos do público.

O sistema de recolha de fundos proposto pelo MNAA parece querer reinventar a roda, mas acaba por ter muito pouco de inovador ao dificultar a participação dos interessados em ajudar. Quando as plataformas de crowdfunding, internacionais e nacionais, seguem um modelo testado e aprimorado até à exaustão, por que motivo arriscar em algo que pode resultar numa oportunidade perdida de aumentar o património público?

No fundo, esperamos que a generosidade e persistência do público sejam suficientes para ultrapassar os erros da campanha “Vamos Pôr o Sequeira no Lugar Certo”. A tarefa não se advinha fácil, mas às vezes o caminho menos óbvio também leva ao destino pretendido. Dessa forma, poderemos observar A Adoração dos Magos, de Domingos Sequeira, sempre que visitarmos o MNAA. Mas pelo sim, pelo não, passa pelo museu antes do final de abril.

Texto de: Telmo Mendes Leal
Editado por: Rita Pinto