Os investidores são quem comanda o universo das start-ups


 
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A relação da tecnologia com os negócios é cada vez mais estreita. Do mundo das ideias saem propostas que se materializam graças a smartphones ou redes sociais e, com a ideia da prematuridade destes instrumentos bem assente, é-nos fácil concluir que negócios como o da Uber, por exemplo, não teriam forma de subsistir noutros tempos.

A tecnologia é hoje o epicentro de quase tudo, uma fonte inesgotável de recursos e inovação que sustenta a maior parte do mundo palpitante do empreendedorismo na concretização dos seus projectos. No entanto, de toda esta dinâmica excitante que existe em torno da tecnologia e dos negócios que dela vivem, seria de esperar que os monopólios não se instalassem de forma tão cerrada como se constata. Mas, como quase tudo na vida, é apenas uma questão de dinheiro.

Em 2013 nasceu a Kutsuplus, uma start-up finlandesa que prometia revolucionar o mundo dos transportes públicos na capital. A lógica do seu produto era semelhante à da Uber: uma rede de autocarros que recolhia e deixava os seus passageiros em qualquer ponto de Helsínquia através de pedidos feitos através dos smartphones dos utilizadores. Obviamente que o transporte de vários passageiros em simultâneo para destinos diferentes entre si complicava a tarefa, mas a empresa tinha tudo programado com algoritmos que maximizavam a eficiência dos percursos em tempo real. O projecto nasceu numa universidade local e a ausência de investimento obrigava os CEO’s da Kutsuplus a gerir a empresa com um orçamento muito limitado. Nestas condições, e apesar de um aumento constante a rondar os 60% no volume de negócios a cada ano que passava, a autoridade dos transportes finlandesa declarou o projecto como “demasiado caro” afastando desta maneira as possibilidades de financiamento da empresa. A Kutsuplus fez a sua última viagem a 31 de Dezembro de 2015.

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À Uber dificilmente se pode apontar o dedo por oferecer serviços caros. Nas grandes cidades, a empresa tem figurado enquanto uma alternativa consistente aos tradicionais táxis e dessa condição nasceu uma guerra aberta entre as duas partes. No entanto, os preços da Uber só são possíveis graças aos investimentos que a empresa tem recebido de entidades como a Google, Jeff Bezos ou a Goldman Sachs. Da sua condição priveligiada, a Uber pode dar-se ao luxo de adoptar uma estratégia que comercialmente tem dado imensos frutos: baixar os preços para aumentar a procura, angariando clientes dos serviços concorrentes, sejam eles táxis, empresas como a Kutsuplus ou até serviços de transporte público.

Recentemente o The Information, revelou que durante os primeiros nove meses de 2015 a Uber perdeu cerca de 1,7 mil milhões para gerar apenas 1,2 mil milhões em receitas. Esta lógica, que consequentemente se revela naturalmente atraente para os clientes na hora de decidir entre a Uber ou um serviço concorrente, só tem sido possível graças à almofada financeira que os investidores garantem à empresa. Na prática, a estratégia traduz-se em viagens tão baratas que, por vezes, o seu preço não chega a ser suficiente para cobrir o combustível e o desgaste da viatura. Por outro lado, este dinheiro tem servido também para sustentar a empresa nas suas expansões internacionais e para os sectores das entregas, quer de refeições, quer de encomendas.

Mas para além dos investimentos que lhe garantem a segurança financeira, a Uber tem beneficiado também dos paraísos fiscais a que os seus investidores abriram portas, uma prática recorrente no mundo das gigantes tecnológicas – estima-se, por exemplo, que a Apple tenha cerca de 180 mil milhões de dólares em contas offshore. O armazenamento de recursos para além das terras onde opera, livra a empresa de transporte de ver as suas receitas subtraídas pelos impostos a que estão sujeitas, fazendo com que a empresa se apoie numa realidade fiscal muito mais benéfica que a maior parte das suas concorrentes.

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Nesta arena de competição entre empresas, podemos dizer que se formou um Golias contra o qual, e contrariamente à estória bíblica, os “Davides” não têm maneira de subsistir. E essa possibilidade reduz drasticamente quando empresas como a Kutsuplus não contam com as garrafas de oxigénio financeiro que os investidores representam no mundo das start-ups.

Apesar da cena concorrencial parecer facilmente dominada por alguns, a qualidade dos serviços oferecidos por essas empresas podem arredar-nos as preocupações para outros assuntos e fazer surgir questões como esta: “Mas se a Uber nos oferece um serviço de excelência a preços baixos, porque é que temos de nos preocupar com isso?”

A resposta fica dada.

Há que ter em conta o futuro e a sustentabilidade da Uber. A eliminação dos seus concorrentes pode significar, num prazo mais curto do que se pensa, a consagração de um “quase-monopólio” dos transportes. Na impossibilidade de vermos as nossas viagens serem para sempre subsidiadas pelos dinheiros de Sillicon Valley e das gigantes financeiras que têm injectado dinheiro neste projecto, resta-nos esperar um aumento dos preços das viagens, a introdução de publicidade nas suas aplicações e veículos ou a cobrança de percentagens mais altas aos seus motoristas para fazer face às torneiras de investimento que se fecharão com o tempo. Independentemente da estratégia a adoptar, tanto os clientes, com o aumento dos preços das viagens, como os motoristas, com o aumento das taxas que lhes são cobradas, podem sair prejudicados e, consequentemente, fazer degenerar uma excelente ideia.

De qualquer das formas, o mote consagra-se na impossibilidade de florescerem alternativas sem uma estratégia agressiva de mercado. Empresas com ideias promissoras como a Kutsuplus não podem ambicionar a mais do que sobreviver um par de anos em actividade graças à postura pouco honesta que os investidores e, por consequência, as empresas onde investem, têm face às políticas de impostos em vigor nos seus países. Neste ponto, Tim Cook chegou a ser chamado à Casa Branca para responder perante o congresso acerca de suspeitas de evasão ao fisco.

Segundo as regras não escritas, há que conquistar os investidores para que se possa conquistar o mercado.

Se não conseguirmos aumentar o número de patronos, a 2ª edição da revista será a última, e o Shifter como o conheces terminará no final de Dezembro. O teu apoio é fundamental!