Óscares 2016: ‘Spotlight’ é o melhor filme em noite de consagração de DiCaprio


A cerimónia da 88ª edição dos Óscares realizou-se no habitual Dolby Theater, em Los Angeles, e contou com a apresentação do actor norte-americano Chris Rock, numa noite em que os filmes Spotlight, The Revenant e Mad Max: Fury Road foram os grandes vencedores e em que Leonardo DiCaprio o rei da noite.

Sim, foi esta madrugada! Ao fim de seis nomeações, DiCaprio levou uma estatueta para casa. Vencedor nos Globos, nos BAFTA e nos prémios do sindicato de actores, toda a Internet estava ansiosamente à espera do desfecho final desta novela que muitos memes já envolveu e havia quem já dissesse que se esta noite o actor protagonista de The Revenent saísse derrotado, estaria na hora de pensar em categorias especialmente inventadas para ele. Aplaudido de pé, durante o discurso agradeceu de forma efusiva mas elegante a Tom Hardy e Alejandro G. Iñarritú, abordando no final, e como de costume, as preocupações envolvendo as mudanças climáticas.

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Mais do que a entrega de prémios, este foi um ano em que uma hashtag engoliu os Óscares: #OscarsSoWhite. Esta cerimónia esteve sob os holofotes da imprensa internacional sobretudo devido à ameaça de boicotes face à não-nomeação de actores negros para as categorias de representação pelo segundo ano consecutivo, e os produtores não se pouparam a esforços para tornar a gala na mais diversificada de sempre, contando com um leque de apresentadores de diferentes culturas. Este manto de suspeição sobre a Academia não deixou de ser irónico sobretudo devido ao regresso de Chris Rock que liderou as hostes de uma cerimónia que estava sob a ameaça da polémica.

E o comediante norte-americano não desapontou. Num brilhante monólogo, Chris Rock não perdeu tempo e tocou imediatamente na ferida, começando dizendo: “Welcome to the Academy Awards, otherwise known as the white people’s choice awards!” Sempre bem humorado, confortável num papel que já exerceu, com um discurso crítico, sagaz e irreverente.

Soube ser sóbrio, inteligente e imparcial, conseguindo fazer vibrar a audiência. Criticou Hollywood como um todo, mas também questionou as decisões de figuras como Spike Lee, Will Smith ou a sua mulher. ”Jada [Pinkett Smith] boycotting the #Oscars is like me boycotting Rihanna’s panties. I wasn’t invited”, afirmou o apresentador.

Foi um monólogo um pouco mais longo que o habitual mas foi necessário. Num tom mais sério, focou-se na necessidade de haver mais oportunidades na indústria para os actores negros: “This year, the In Memoriam will just be black people who were shot by the cops. Yeah, I said it.”

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A primeira premiação foi para o filme Spotlight que, sem surpresas, venceu o Óscar de melhor argumento original, e que mais tarde iria acabar por receber a segunda e mais importante distinção da noite. A apresentação dos nomeados foi feita de forma elegante e original e, logo de seguida, a estatueta de melhor argumento adaptado foi atribuída à obra The Big Short.

Desde cedo pudemos verificar algumas mudanças no formato de apresentação, como a inclusão no ecrã de uma breve apresentação associada a cada apresentador, aparecendo uma pequena descrição com curiosidades, a informação sobre os trabalho mais emblemáticos ou com quantas nomeações ou Óscares foram premiados.

Numa cerimónia acelerada, ritmada, sem quebras, seguiu-se um autêntico festival de estatuetas para Mad Max: Fury Road. A obra frenética de George Miller limpou merecidamente praticamente todas as categorias técnicas, levando para casa um total de 6 prémios: melhor guarda-roupa, direcção artística, caracterização, edição de som, mistura de som e montagem.

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As apresentações das categorias de edição e mistura de som contaram com montagens de cenas das obras nomeadas, numa explosão de sons que convencem desde logo uma ida ao cinema. E este era um momento chave na cerimónia, já que habitualmente há uma forte correlação entre o prémio de Melhor Filme e Melhor Montagem, facto que acabou por não ter qualquer relevância na decisão da entrega das estatuetas mais importantes desta edição.

Nas restantes categorias técnicas, a entrega da estatueta de melhor fotografia proporcionou um momento histórico em 88 edições dos Óscares, ao ser ganha por Emmanuel Lubezki e o belíssimo The Revenant, ganhando o prémio pelo terceiro ano consecutivo, após Gravity em 2014 e Birdman em 2015. Já na categoria de efeitos visuais, quem melhor que Gollum, King Kong e Caesar para anunciar o vencedor. Andy Serkis, actor responsável por notáveis interpretações de personagens de computação gráfica, revelou a primeira surpresa total da noite. No meio de pesos pesados como Mad Max: Fury Road e Star Wars: The Force Awakens, Ex-Machina surpreendeu tudo e todos, sobretudo depois da limpeza de distinções por parte de Mad Max.

Este ano a Academia também esmerou-se nas apresentações animadas. O Óscar de Melhor Filme de Animação foi entregue ao favorito, Inside Out, por Woody e Buzz Lightyear, em modo de celebração dos 20 anos de Toy Story. Até tivemos C-3P0, RD-D2 e BB-8 em palco para celebrar o mestre e cinco vezes oscarizado John Williams.

Chris Rock, continuando em tom de brincadeira a sua abordagem pelo mundo da polémica #OscarsSoWhite, mostrou um vídeo onde aparece a entrevistar pessoas de Compton. Todas elas admitem nunca ter visto ou sequer conhecer qualquer nomeado da categoria principal mas todas já tinham visto o filme Straight Outta Compton, protagonizado maioritariamente por actores afro-americanos. Para animar as hostes foi também feita uma montagem com vários dos filmes nomeados em que vários actores negros foram inseridos na acção da cena, num grande sketch, onde aparece por diversas vezes Whoopi Goldberg a trabalhar.

As categorias de representação começaram com a premiação de Alicia Vikander como melhor actriz secundária, pela sua performance em The Danish Girl, uma escolha que não provocou qualquer surpresa na audiência. Kate Winslet era uma das grandes favoritas por ter ganho o BAFTA e Globo de Ouro mas, mesmo assim, não chegou aos Óscares como a principal candidata na corrida. Mark Rylance (Bridge of Spies) levou a estatueta de melhor actor secundário entregue por Patricia Arquette. É porventura a maior surpresa da noite. Todos esperavam que Sylvester Stallone visse a sua carreira e o eterno Rocky consagrados pelo seu papel em Creed. Sem Surpresas, Brie Larson venceu o Óscar de Melhor Actriz. Uma grande actuação num dos melhores filmes do ano, Room. Foi o seu primeiro Óscar, logo à primeira nomeação, e era a favorita na categoria, confirmando o caminho que tinha vindo a fazer vencendo todos os prémios da temporada. Leonardo DiCaprio completou o quarteto de vencedores.

Na categoria de realização, mais uma premiação histórica. Alejandro G. Iñarritú ganhou o Óscar com o filme The Revenent, tendo ganho o galardão pela segunda vez consecutiva, depois de o ter conquistado o ano passado com Birdman. É a terceira vez consecutiva que o prémio é arrecado por um mexicano, depois de em 2014 ter sido entregue a Alfonso Cuarón por Gravity. Iñarritú, John Ford e Joseph L. Mankiewicz são os únicos realizadores que venceram por dois anos consecutivos a estatueta.

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Spotlight venceu o prémio mais desejado da noite de melhor filme, batendo The Revenant, Mad Max: Fury Road ou The Big Short, com uma temática delicada sobre o escândalo de pedofilia na Igreja Católica, numa obra verdadeiramente relevante sobre o jornalismo de investigação, que recentemente tinha conquistado os SAG Awards e os Independent Spirit Awards.

Nas actuações musicais, contámos com as performances de The Weeknd, Lady Gaga e Sam Smith, este último que recebeu o Óscar de Melhor Canção pelo tema “Writings On The Wall”. À sexta nomeação, o lendário Ennio Morricone recebeu um Óscar pela sua banda sonora no filme de Quentin Tarantino, The Hateful Eight, e teve direito à maior ovação da noite com um discurso muito emocionado.

Sem surpresas, Amy levou a estatueta de melhor documentário. A obra de de Asif Kapadia e James Gay-Rees mostra como os vícios de Winehouse com o álcool e drogas se intensificaram com a fama que conquistou, culminando na sua morte em 2011. E o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro foi para Son of Saul, uma das obras mais aclamadas do ano que ganhou todos os prémios durante esta temporada de festivais.

Por fim, os Óscares Honorários desta edição foram entregues às actrizes Debbie Reynolds e Gena Rowlands e ao realizador Spike Lee. A presidente da Academia, Cheryl Boone Isaacs, abordou pessoal e sobriamente a questão da diversidade, mas não entrou em detalhes. E o In Memorian contou com a presença de Dave Grohl dos Foo Fighters, que cantou “Blackbird” dos Beatles, num momento onde foram lembradas algumas das figuras do mundo do cinema que infelizmente faleceram durante o último ano. Nomes como Alan Rickman, Christopher Lee, Wes Craven, David Bowie ou Leonard Nimoy

A cerimónia termina assim com uma contabilidade muito repartida, com o destaque de Mad Max: Fury Road nas categorias técnicas. Podem ver todos os vencedores em baixo:

Filme

  • The Big Short
  • Bridge of Spies
  • Brooklyn
  • Mad Max: Fury Road
  • The Martian
  • The Revenant
  • Room
  • Spotlight

Realizador

  • Alejandro G. Iñárritu, The Revenant
  • Adam McKay, The Big Short
  • Tom McCarthy, Spotlight
  • George Miller, Mad Max: Fury Road
  • Lenny Abrahamson, Room

Actor Principal

  • Leonardo DiCaprio, The Revenant
  • Michael Fassbender, Steve Jobs
  • Eddie Redmayne, The Danish Girl
  • Bryan Cranston, Trumbo
  • Matt Damon, The Martian

Actriz Principal

  • Brie Larson, Room
  • Saoirse Ronan, Brooklyn
  • Cate Blanchett, Carol
  • Charlotte Rampling, 45 Years
  • Jennifer Lawrence, Joy

Actor Secundário

  • Christian Bale, The Big Short
  • Tom Hardy, The Revenant
  • Mark Ruffalo, Spotlight
  • Mark Rylance, Bridge of Spies
  • Sylvester Stallone, Creed

Actriz Secundária

  • Jennifer Jason Leigh, The Hateful Eight
  • Rooney Mara, Carol
  • Rachel McAdams, Spotlight
  • Alicia Vikander, The Danish Girl
  • Kate Winslet, Steve Jobs

Argumento Original

  • Spotlight – Tom McCarthy, Josh Singer
  • Inside Out – Josh Cooley, Pete Docter, Meg LeFavue
  • Straight Outta Compton — Jonathan Herman, Andrea Berloff, S. Leigh Savidge, Alan Wenkus
  • Ex Machina – Alex Garland
  • Bridge of Spies – Matt Charman, Ethan Coen, Joel Coen

Argumento Adaptado

  • The Big Short – Adam McKay, Charles Randolph
  • Room — Emma Donaghue
  • Carol – Phyllis Nagy
  • The Martian – Drew Goddard
  • Brooklyn – Nick Hornby

Filme em Língua Estrangeira

  • Mustang (França)
  • Son of Saul (Hungria)
  • Theeb (Jordânia)
  • A War (Dinamarca)
  • Embrace of the Serpent (Colômbia)

Filme de Animação

  • Anomalisa
  • Boy and the World
  • Inside Out
  • Shaun the Sheep Movie
  • When Marie Was There

Curta-Metragem de Animação

  • Bear Story
  • Prologue
  • Sanjay’s Super Team
  • We Can’t Leave Without Cosmos
  • World of Tomorrow

Curta-Metragem em Live Action

  • Ave Maria
  • Day One
  • Everything Will Be Okay (Alles Wird Gut)
  • Shok
  • Stutterer

Documentário

  • Amy
  • Cartel Land
  • The Look of Silence
  • What Happened, Miss Simone?
  • Winter on Fire

Pequeno Documentário

  • Body Team
  • Chau, Beyong the Lines
  • Flaude Lanzmann
  • A Girl in the River
  • Last Day of Freedom

Fotografia

  • The Revenant – Emmanuel Lubezki
  • Sicario – Roger Deakins
  • Carol – Edward Lachman
  • Mad Max: Fury Road – John Seale
  • The Hateful Eight – Robert Richardson

Guarda-Roupa

  • Carol
  • Cinderella
  • The Danish Girl
  • Mad Max: Fury Road
  • The Revenant

Caracterização

  • Mad Max: Fury Road
  • The Hundred-Year-Old Man Who Climbed Out the Window and Disappeared
  • The Revenant

Montagem

  • Mad Max: Fury Road
  • The Revenant
  • Spotlight
  • The Big Short
  • Star Wars: The Force Awakens

Efeitos Visuais

  • Ex Machina
  • Star Wars: The Force Awakens
  • The Martian
  • Mad Max: Fury Road
  • The Revenant

Mistura de Som

  • Bridge of Spies
  • Mad Max: Fury Road
  • The Martian
  • The Revenant
  • Star Wars: The Force Awakens

Edição de Som

  • Sicario
  • Mad Max: Fury Road
  • The Martian
  • The Revenant
  • Star Wars: The Force Awakens

Melhor Banda Sonora

  • Bridge of Spies
  • Carol
  • The Hateful Eight
  • Sicario
  • Star Wars: The Force Awakens

Canção Original

  • “Earned It” de Fifty Shades of Grey
  • “Manta Ray” de Racing Extinction
  • “Til It Happens to You” de The Hunting Ground
  • “Writing’s on the Wall” de Spectre
  • “Simple Song #3” de Youth

Direcção Artística

  • Bridge of Spies
  • The Danish Girl
  • Mad Max: Fury Road
  • The Martian
  • The Revenant

Texto de: André Calado
Editado por: Rita Pinto