Peça de Shakespeare ganhou palco no campo de refugiados de Calais


Na semana passada, cerca de 300 refugiados assistiram à peça Hamlet, uma das mais célebres de Shakespeare, na conhecida “selva” de Calais. O grupo de teatro Shakespeare’s Globe levou a sua digressão mundial até ao campo de refugiados francês, presenteando os presentes com “uma peça que fala ao espírito humano nos seus momentos mais sombrios”.

Foi debaixo de um céu cinzento e num dia frio que os actores do Shakespeare’s Globe interpretaram Hamlet perante uma plateia atenta de refugiados daquele campo francês. Uma sinopse traduzida em várias línguas, incluindo árabe e persa, foi distribuída pelas várias pessoas antes do início da peça, juntamente com baldes de pipocas.

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Joe Murphy, dramaturgo e co-fundador do projecto Good Chance, disse ao The Guardian que o Hamlet foi a peça mais adequada. “O Hamlet é a história de um jovem rapaz que está deprimido e frustado, entre a vida e a morte, que não sabe o que fazer, que está a lutar para tomar decisões”, disse. “Essa história vai ser traduzida para as milhares de pessoas aqui que estão exactamente na mesma posição. Há uma grande quantidade de jovens e adolescentes sozinhos aqui. Estamos a ver crianças a atravessar a maior luta das suas vidas, desmoronando-se mental e fisicamente, perdendo-se… é uma tragédia para assistir.”

A produção da peça foi feita pela Shakespeare’s Globe em parceria com a Good Chance, uma associação criada em Calais pelos dramaturgos Joe Murphy e Joe Robertson (mais conhecidos por “os dois Joes”) para literalmente dar um palco aos milhares de refugiados presentes naquele campo. A ideia é que estas pessoas possam ali juntar-se, contar as suas histórias, expressar-se ou simplesmente espairecer das suas vidas desoladas. Aproximadamente 6 mil refugiados de 22 países vivem neste campo francês.

“Eu li a peça em livro, mas nunca a tinha visto. É bom vê-la no teatro, é bom ver a tradição inglesa… É bom ter algo para aproveitar”, disse um jovem ao The Guardian – um enfermeiro que foi forçado a ser soldado na Eritréia e que, sorrindo, disse chamar-se Hector. “A vida aqui é muito má. Estou cá há 6 meses. Somos seres humanos – viveria aqui?”

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O grupo Shakespeare’s Globe já levou o Hamlet a outras partes do globo; a digressão arrancou em Abril 2014 com a intenção ambiciosa de visitar todos os países do mundo. Apesar de não ser fisicamente possível entrar em todos os países, o Shakespeare’s Globe já interpretou a icónica peça do autor britânico em outros campos de refugiados: para refugiados da Síria no campo de Zaatari, na Jordânia; para refugiados de Yemeni no campo de Markazi, em Djibouti; e para refugiados do Central African Republic no campo de Mandjou, em Cameroon.

“É um grande privilégio actuar para os deslocados em Calais. Enquanto companhia de teatro, o único gesto que podemos oferecer é este: uma peça que fala ao espírito humano nos seus momentos mais sombrios”, comentou ao The Guardian Dominic Dromgoole, o director artístico do Shakespeare’s Globe.