‘Plano de Fuga’ é uma série que está pronta para a TV, basta a TV querer


 
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É difícil pensar que há espaço na televisão portuguesa para novos e ambiciosos projectos, mas se pensarmos nisso a sério, conseguimos concluir que teríamos muito mais facilidade em assistir a séries de qualidade se elas existissem. Terapia – recentemente trazida para Portugal pela mão da RTP – tem-nos dado muito mais gozo do que qualquer telenovela que nos lembremos, por exemplo.

E foi mesmo sobre televisão e séries de qualidade que falámos com o Ruben Valle e a Catarina Rodrigues. Eles acreditam num cenário em que séries de grande qualidade – como as que se fazem na América e todos nós vemos – também fazem parte do nosso futuro como fãs de televisão aqui em Portugal. Conversámos com eles porque acreditam tanto nisso que criaram um piloto incrível para a série Plano de Fuga, que escreveram, produziram e realizaram. Já te trouxemos o trailer e garantimos que o piloto ultrapassou e muito as nossas expectativas.

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“Quando começámos a criar a história, achámos que tudo era possível. Tínhamos um plano ambicioso para fazer e andámos uma semana a tentar consegui-lo. Era numa casa em Sintra onde até o Johnny Depp já gravou e queríamos um drone a descer do céu, fazendo uma espiral à volta da casa.” Quando o Ruben nos disse isto, ficámos logo a perceber que estavam a levar a série a sério. O plano nunca chegou a acontecer porque nem a empregada, nem os donos da casa lhes deram autorização, mas é um bom exemplo da perseverança e capacidade de produção que tiveram de ter para este piloto se tornar real.

Afinal, este é um projecto que se fez com amor à camisola. Sem nada para oferecerem em troca de uma participação neste episódio piloto, Ruben e Catarina contam-nos como foi complicado encontrar um grupo de actores confiável e reputado para este primeiro episódio.

Um exemplo engraçado é o caso do Miguel Borges. Tentaram contactar o icónico actor uma série de vezes, até decidirem mandar-lhe uma mensagem. Explicaram o projecto e apesar de lhes ter pedido uma semana para pensar nisso, acabou por dizer que não ia conseguir. E não é que acabou por voltar? Acreditou no projecto e é um dos actores que podemos ver no trailer e no episódio piloto.

Mas quem é esta dupla que levou mesmo uma série que inventou para a frente?

O Ruben Valle é actor e começou a fazer filmes com Discípulo – que saiu directamente para o YouTube. Diz-nos que “consegui um buzz fixe e foi aí que uma marca de telecomunicações nos deu a oportunidade de fazer um filme a sério, com actores, equipa profissional, com tudo. Há dois anos fizemos o Ruas Rivais, que teve um orçamento super pequeno, uma fracção de um filme normal, mas que foi o quarto mais visto do ano em Portugal”. Tem uma postura pouco pretensiosa em relação ao audiovisual e garante que também gosta de “projectos que não se levam tão a sério, mas que são bons e que são recebidos com entusiasmo pelo público”.

Mas a série foi uma ideia da Catarina. Conheceu o Ruben na faculdade, onde era estudante de cinema na Lusófona e começaram a namorar. Com tantos gostos em comum surgiu a ideia de fazerem um projecto juntos e foi assim que se começou a desenhar o Plano de Fuga. Passaram um mês em casa a criar a história e passou-se mais um mês até que o storyboard estivesse pronto. “Ele estava sempre a dizer-me para me despachar com o storyboard, mas queria ter a certeza que ficava uma representação certeira de como imaginava tudo.”

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Quando começamos com as perguntas acerca deste menino deles, é quando se tecem maiores considerações. Quer seja acerca do personagem bipolar, “ele pode passar-se e partir a loiça toda – e parte mesmo”, quer seja através do elenco escolhido a dedo. “Esquecemos um bocadinho os actores de televisão e optámos por actores de teatro, o Mauro, o Isac, a Diana Nicolau, o Paulo Pinto… São actores com uma naturalidade que nos agrada e que permitem criar personagens únicas.” Explicam que o seu objectivo é que cada uma destas personagens seja um plot twist ambulante e garantem que gostam muito do quando estão recheadas de camadas, prontas a serem descobertas e redescobertas ao longo de uma série.

Quando falamos sobre geração, sobretudo acerca do tom com que as personagens falam entre elas, o Ruben diz-nos que o seu objectivo é que “as pessoas se sintam bué ligadas a série”. Bué. Não podia ter feito um comentário melhor. “Os personagens falam como nós falamos, porque os criadores da história são jovens, os actores são de uma geração que está a emergir e o público que procuramos pretende reflectir tudo isto.” É inegável dizer que a ficção portuguesa podia ser mais mais orientada para uma certa noção de youth e isso é algo que nos interessa no Shifter.

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Para terminar falámos sobre expectativas para este episódio piloto. Dizem que o melhor que lhes podia acontecer era que a série fosse comprada. O Ruben não nos escondeu que criaram Plano de Fuga a idealizar que um canal generalista a comprasse, mas ainda não têm certezas acerca do melhor desfecho possível. Para a Catarina o objectivo é menos logístico, mas algo mais sonhador. “Gostava que as pessoas vibrassem com o que criámos, que ficassem entusiasmadas como nós ficamos com as séries de que gostamos, com os episódios que não perdemos.” 

É legítimo. Nós já estamos a fazer figas para vermos o resto da temporada a ser realizada, mas ninguém deve querer isso mais do que eles. Resta-nos esperar que este Plano de Fuga só pare na televisão.

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