Sabe bem receber um álbum assim


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Quatro anos depois do lançamento do seu primeiro trabalho de estúdio, os Salto já não são a mesma banda. E por bons motivos. “Deixar Cair”, o cartão de visita do disco homónimo, tornou-se num dos singles ponta de lança da nova música cantada em português e “não vou mais ficar atrás de quem não quer ver” num dos refrães mais dançados.

A Luís Montenegro e Guilherme Tomé Ribeiro juntaram-se Tito Romão e Filipe Louro, na bateria e no baixo respectivamente, e o agora quarteto quis imprimir essa novidade, e toda a dinâmica resultante de uma banda a tocar na mesma sala, no novo disco. Pelo meio, houve ainda tempo para Beat Oven, uma “viagem à lua” em formato de EP, que levou o trabalho de sampling e a vertente electrónica do grupo mais longe.

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Foi no palco do Estúdio Time Out, no Mercado da Ribeira, em Lisboa, que cerca de 700 pessoas se juntaram para assistir à estreia ao vivo de Passeio das Virtudes tocado na íntegra. Na setlist, apenas “Beat Diagonal” e “Can’t You See Me” se juntaram ao novo disco, deixando de fora todas as canções que compunham o primeiro longa-duração da banda — a noite pretendia celebrar as 12 novas canções e o público sabia disso, sem dar sinais de se importar minimamente. 

Em Passeio das Virtudes, o equilíbrio é uma das palavras chave. A voz não se sobrepõe aos riffs e aos bons acordes de guitarra sacados por Guilherme Tomé Ribeiro. Os teclados têm o seu espaço próprio, com liberdade para guiar a música para territórios mais electrónicos, sempre que assim se justificar, e a bateria e o baixo — tão fundamentais a sustentar todos os instrumentos, sem nunca perder a oportunidade de se lançarem em pequenos devaneios jazz — são omnipresentes em todas as composições, afirmando-se como uma componente fundamental de canções que não seriam a mesma coisa se não fossem dançadas.

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E o público soube reconhecer isso. Fosse a cantar os refrães, mesmo aqueles que acabara de conhecer, a dançar, sempre que a música empurra para tal, ou a viajar à lua com a banda, acompanhado dos acordes de guitarra carregados de reverb e dos sintetizadores a piscar o olho à música psicadélica.

Mar Inteiro” e “Lagostas” já eram conhecidas do público e protagonizaram dois dos momentos mais fortes do concerto. “Passeio das Virtudes”, “Em Paz Com Falhas” — a “Drunk In Love” portuguesa, segundo a própria banda — e “Uma de Cada Vez” provaram ser tão capazes de se assumirem como singles como as duas anteriores.

Uma semana antes do concerto, perguntámos aos Salto qual a melhor maneira de se dançar este segundo disco, e “mosh introspectivo” foi uma das conclusões. A verdade é que basta ouvir os momentos instrumentais de músicas como “Uma de Cada Vez”, “Selva” e “Queimo as Mãos pelo Futuro” para percebermos exactamente aquilo a que a banda se referia. 

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No fim do concerto, houve ainda tempo para uma invasão de palco proporcionada por “Can’t You See Me”, comprovando a proximidade da banda com quem a ouve. A poucas músicas do fim, Guilherme dizia “é bom vir a Lisboa e tocar para tanta gente. Sabe bem lançar um álbum assim”. E sabe igualmente bem receber um disco desta forma. 

Ao segundo disco, os Salto provam ter os ingredientes necessários para se afirmarem como uma das principais bandas da nova geração.

Fotos: Tiago Neto/Shifter

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