Snarky Puppy – ‘Family Dinner Volume 2’


 
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Este é um projecto que temos acompanhado fervorosamente desde Janeiro e, finalmente, já o podemos ouvir na íntegra através do Spotify e da Apple Music. O álbum base tem 8 músicas, porém a versão Deluxe traz 5 músicas bónus.

Tudo começou com um misterioso trailer, a anunciar o lançamento do Family Dinner e dos artistas participantes. Seguiu-se um segundo trailer, onde fomos agradavelmente surpreendidos com a exibição em formato cinematográfico e para o mundo inteiro. Dia 21 passaram por Lisboa, para emocionar um público fanático que dançou sentado e trauteou, num tom quase inaudível.

Antes de começar a crítica, é necessário compreender que, a visualização do álbum no formato em que foi apresentado no cinema Ideal, é sem dúvida um factor preponderante, no que toca à sua apreciação. Para quem não teve oportunidade de observar a relação e humanidade entre os músicos no estúdio que é mostrada no filme, a audição do disco implica uma escuta mais atenta e minuciosa.

O Family Dinner é, acima de tudo, uma festa. Não sabemos se inclui jantar, mas tem uma temática muito dinâmica: cada música envolve, para além dos Snarky Puppy, a junção de um vocalista com um ou vários instrumentistas. As músicas são todas originais dos artistas que as interpretam, e são arranjadas pelos “puppies”.

A colaboração da primeira música junta Becca Stevens, uma dócil cantora Folk com um enorme sentido de humor, com o trio sueco Väsen. “I asked” foi a primeira música exibida ao público internauta e tem início com um dos membros de Väsen, Olov Johansson, a tocar nyckelharpa – um instrumento peculiar, com uma sonoridade similar a um violino. Segue-se um arranque brusco, para uma continuação não tão fervorosa. O ponto alto da música dá-se com André Ferrari, que a finaliza com um solo de percussão acompanhado de um coro trauteante que marca o ritmo, uma boa inversão de papéis.

Posto um início ameno, surge na segunda música, Susana Baca. A experiente peruana, com uma voz 50 anos mais jovem, entoa “Molino Molero”, juntado-se à festa Charlie Hunter. O músico é uma das melhores aquisições desta festa, e demonstra-o quando toca um dos mais avassaladores solos de guitarra já presenciados numa música de Snarky Puppy. A troca de olhares entre Charlie e Marcelo Wolowski (percursionista) no filme é tão demoníaca quanto a dupla que formam durante 2 minutos da música.

Como terceira faixa surge uma música com potencial para vencer um Grammy na categoria de R&B. “Liquid Love” é um original do homem que a interpreta neste álbum. Chris Turner asume a forma de um Semi-Deus nesta música, que foi arranjada para criar um equilíbrio entre Gospel, Soul e R&B. A capacidade de Chris alcançar notas agudas e viciantes torna esta música num Hit instantâneo com uma sonoridade que não sai da cabeça. Perfeita para ser cantada no duche.

Segue-se uma viagem para o Mali. Não é uma viagem só na imaginação, Michael League tomou o desafio de levar o instrumental previamente gravado, viajar para uma ilha privada neste país e gravar com o grande Salif Keita. Este, que se fez acompanhar de um coro de jovens do Mali, cantava tão alto, conta Michael League, que dava para ouvir do outro lado do estúdio, com vidros à prova de som. No outro lado do Atlântico, à parte instrumental, para além da banda base, juntou-se Bernardo Aguiar e Carlos Malta. Um toca pandeireta, o outro toca clarinete. Resultado, uma fusão de ritmo brasileiro com cânticos vindos do centro de África, e lá pelo meio da música dá-se um solo do jovem Bernardo, dotado de uma noção rítmica única, que parte para um suavizar com o clarinete de Carlos Malta, e que proporciona uma espécie de recomeçar da música. “Soro (Afriki)” é o nome de uma das melhores faixas.

Após a tempestade vem “Sing To The Moon”. Talvez seja assim que a lua canta, pelo menos é a forma como o transmite Laura Mvula, que se faz acompanhar de Michelle Lewis, como a voz por detrás da voz. É o acalmar, vindo de uma das músicas que mais passou despercebida, que se divide em três instâncias: a primeira, a parte que permite, a quem escuta, relaxar e respirar. De seguida, temos, num curto espaço de tempo, 4 solos vindos dos pianistas/teclistas Bill Laurance, Cory Henry, Shaun Martin e Justin Stanton. Finaliza com uma clássica explosão, ao estilo Snarky Puppy.

Abram alas, porque os 10 minutos seguintes ficam a cabo do prodigioso Jacob Collier e do homem da tuba, Big Ed Lee, a interpretar “Don’t You Know”. De piano e vocoder na mão, Jacob encara esta música como nos costuma agradar, mas desta vez apresentou uma estrutura mais consistente e firme do que o normal. Não tão experimental, com mais pés e cabeça, excepto a meio da performance, onde se deixa levar por um frenético solo de piano para, ao fim de algum tempo, ser acompanhado pela percussão, terminando a expelir todo o seu fôlego num berro extremamente afinado.

“I Remember” é a penúltima, sendo interpretada pela dupla, Knower. Louies Cole na bateria e Genevieve Artadi a cantar. Tocam uma música onde o órgão tem uma sonoridade muito similar à interpretação que Jacob Collier deu no cover de “PYT”. Ambos vestidos da mesma forma, aparentam ser um duo vindo do espaço e a verdade é que cantaram/tocaram como se de lá viessem. Genevieve dá tudo numa das músicas que mais surpreende pela positiva e que culmina com um estridente saxofone tocado por Jeff Coffin.

Esta música é uma espécie de um pedido de desculpas de todos os homens para todas as mulheres”, diz David Crosby, o intérprete da última música. Seguem-se palmas e risos e uma das vocalistas diz “Nós aceitamos o vosso pedido de desculpas”. É o começo de uma das mais belas baladas, cantada por um senhor de 74 anos com uma das vozes americanas mais ternas, capaz de fazer largar uma lágrima até aos mais fortes. “Somebody Home” é o melhor pedido de desculpas alguma vez já cantado.

 

CLASSIFICAÇÃO:

Instrumental – Instrumentistas altamente competentes. No entanto, em “Liquid Love” sente-se a falta de um solo que poderia arrebatar a música. Os Knower surpreenderam muito neste campo, sendo que Louies Cole foi um verdadeiro animal na bateria. Destaque ainda para o uso de dois bateristas (Larnell Lewis e Robert “Sput” Searight) e para as actuações dos 4 pianistas na “Sing To The Moon”.

Vocal – Todos os vocalistas escolhidos são altamente dotados, carregando de forma irrepreensível o enorme fardo que é cantar com os arranjos que os Snarky Puppy preparam.

Duração/Composição do álbum – Este é provavelmente o único ponto negativo. Há falta de coesão entre as músicas. A dificuldade de encarar um desafio destes é precisamente estruturar a sequência das faixas, que são todas heterogéneas, e agrupá-las de forma a proporcionar um álbum com um princípio, meio e fim. Algo que ficou um bocado aquém do expectável.

Produção – Ficou a cabo de Eric Hartman/Michael League e sempre foi um dos pontos mais fortes no grupo. O som é limpo e claro, muito bem arranjado e trabalhado.

Componente Visual – 50% do álbum perde-se quando não é acompanhado pelos vídeos. A interacção entre os artistas é contagiante e é o que, provavelmente, converte mais público a adorar o projecto. Todo o tipo de emoções, trocas de olhares, risos só podem ser vistos através dos videoclipes. A compra do cd/dvd é essencial para quem quer captar essa componente e ver as entrevistas com os artistas participantes.

Colaborações – Todo e cada artista convidado, como já foi expresso por Michael League inúmeras vezes, é escolhido por ser integrante de uma lista que os Snarky Puppy têm, e que pretendem que participem nos vários Family Dinner. De alguma forma os convidados conseguem sempre atingir o seu máximo e, o destaque vai para a impecável performance de Chris Turner.

Melhores músicas“Liquid Love” (feat. Chris Turner), “Soro (Afriki)” (feat. Salif Keita, Carlos Malta & Bernardo Aguiar) e “I Remember” (feat. Knower & Jeff Coffin).

 

Se não conseguirmos aumentar o número de patronos, a 2ª edição da revista será a última, e o Shifter como o conheces terminará no final de Dezembro. O teu apoio é fundamental!