‘Son of Saul’


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Em plena Auschwitz, Son of Saul faz-nos voltar a encarar de frente a dura realidade dos campos de concentração do regime nazi que levou ao genocídio de milhões de pessoas. O filme acompanha a jornada de um judeu encarregue da perturbadora tarefa de acompanhar outros prisioneiros com morte anunciada para as câmaras de gás e fornos crematórios.

Depois de os levar para a sua última morada – onde dezenas de pessoas perpetuam os seus gritos de desespero pelas paredes circundantes – o sonderkommando Saul teria de recolher os objectos de valor que os corpos – já sem vida – deixavam para trás. Amontoados, desprovidos de identidade, resta pouco de humano quando as pessoas são tratadas como meros números numa conta tirânica de subtrair, levada a cabo pelos campos de concentração e que acabavam invariavelmente em cinzas espalhadas pelo rio e pelo ar.

É nesta impessoalidade que o filme tem uma das suas características principais. A câmara segue Saul para todo o lado desfocando o que o rodeia dando-nos assim a ideia do caos e desnorte vivido pelo protagonista. Mas não só, o desfocar em seu redor permite também ao espectador para que possa imaginar todo esse contexto que o envolve através de fragmentos de imagens pouco perceptíveis do terror à sua volta.

László Nemes, “aluno” de Bela Tarr, traz-nos uma obra chocante em que a narrativa se prende em Saul Ausländer, magistralmente interpretado pelo sóbrio e impávido Géza Röhrig cujas vivências no campo de concentração forçaram um vazio interior.

Nada na primeira longa-metragem de László enquanto realizador nos é dado de bandeja. Invade-nos o espírito e revolta-nos. Nada é focado, a língua húngara perde-se entre outros idiomas provocando a confusão, a inquietação e a dificuldade que Saul e qualquer outro tem em coexistir num espaço apocalíptico em que a morte está por todo o lado.

Este filme húngaro conseguiu pela crueza e qualidade do conteúdo o seu lugar próprio numa lista de filmes intemporais sobre um tema histórico inesgotável (infelizmente). Ao lado de Life Is Beautiful, Schindler’s List ou The Pianist, Son of Saul é um (outro) retrato desconcertante que entra num terreno que muitos dos outros filmes não ousaram pisar.

Vencedor do Globo de Ouro para Melhor Filme Estrangeiro e do Grande Prémio do Júri em Cannes, Son of Saul será também muito provavelmente o próximo vencedor do Óscar de Melhor Filme Estrangeiro na cerimónia de 28 de Fevereiro. Dificilmente o Óscar poderia estar melhor entregue. Mesmo que não o venha a ganhar, o filme ficará na memória tal como todas as vítimas que nos faz recordar.

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