‘The Hateful Eight’


 
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Tarantino quis ajustar uma manta que vinha cobrindo mais o entretenimento que o argumento e o resultado estabeleceu The Hateful Eight como uma das suas obras mais bem escritas.

Uma primeira metade de filme propositadamente arrastada, uma marca de água própria do seu realizador, com planos longos em homenagem aos spaghetti westerns e com demoradas sequências de diligências e cowboys a aproximarem-se lentamente no ecrã. A isto se alia uma lição de escrita e um banho de intriga sangrenta à lá Tarantino, uma marca já indelével e inconfundível que perdurará na história do Cinema.

Nomeado para 3 Óscares (Melhor Banda Sonora Original, Melhor Actriz Secundária e Melhor Direcção de Fotografia), The Hateful Eight não é um filme para ser visto com expectativas altas, mas também não é propriamente uma desilusão. Destaca-se sobretudo pela mestria com que nos consegue entreter num filme que tem quase como única localização uma estalagem – há algumas cenas fora da mesma logo no início. São poucos os filmes na história que conseguem prender-nos com esta premissa de forma tão bem feita mas recordamos o histórico 12 Angry Men nesse capítulo. Mais recentemente, outras tentativas resultaram em alguns filmes bons, mas destinados a cair no esquecimento (Locke é um exemplo).

Na senda de Django Unchained, que abordava a questão racial e que tanta tinta fez correr na altura, The Hateful Eight pega numa parte da mesma temática, situando-se nuns Estados Unidos a recompor-se de um pós-Guerra Civil enquanto ainda convive com o racismo e misoginia.

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Samuel L. Jackson volta a ser o actor fetiche do realizador americano aqui na pele do Major Marquis Warren, um caçador de recompensas que tem numa carta enviada pelo Presidente Abraham Lincoln um passaporte para conseguir o respeito e consideração da comunidade branca, e em especial de Jon Ruth. Ruth (Kurt Russel) é um experiente bounty hunter que leva a sua mais recente refém, Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh) na sua diligência até Red Rock onde será enforcada.

Para fugir a uma tempestade em pleno Inverno no Wyoming, os viajantes, a quem se juntam Marquis e o novo Sheriff de Red Rock, Chris Mannix (Walton Goggins), terão de pernoitar na Minnie’s Haberdashery. Mas a estalagem já não é o que era e à sua espera estarão novos inquilinos. Odiáveis, cruéis, porcos e maus, são assim os seus hóspedes. Orquestrados por Tarantino temos nomes como Bruce Dern, Tim Roth, Michael Madsen ou Demián Bichir a quem se junta outra surpresa no final. Personagens excêntricas sem medo de premir o gatilho, como Tarantino tão bem nos habituou mas demorou a mostrar neste filme.

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De destaques óbvios são a fabulosa imagem resultante de um filme gravado em fita de 70 mm. A isso se junta, além dos consagrados Samuel e Kurt Russel, a surpresa Walton Goggins que, exceptuando participações em Sons Of Anarchy ou Justified, além de Django, nunca teve um papel de tanto destaque e que tão bem lhe assenta. Jennifer Jason Leigh é obviamente outro dos bons destaques do filme pelos momentos cómicos que é capaz de despertar, mas dificilmente será premiada com um Óscar que tem como destino (se justiça for feita) as mãos de Rooney Mara.

Quanto ao Maestro, é um dos maiores nomes da sua área. Ennio Morriconne dispensa que lhe sejam feitas apresentações e todos os elogios foram já escritos sobre ele. Soberbo e insuperável pelo que já fez e um dos mais fortes candidatos na sua categoria.

Não sendo um Inglorious Basterds, Pulp Fiction ou Reservoir Dogs, The Hateful Eight também não é Death Proof. Como diz o The Guardian “hard to hate, but tough to love.” Uma coisa é certa, Tarantino é Tarantino e não são muitos os realizadores que conseguem entreter-nos durante cerca de três horas passadas em grande parte dentro de uma estalagem em más companhias.

Se não conseguirmos aumentar o número de patronos, a 2ª edição da revista será a última, e o Shifter como o conheces terminará no final de Dezembro. O teu apoio é fundamental!