‘The Life of Pablo’


 
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Ao longo dos últimos dias foram poucos os momentos em que não estive a ouvir The Life of Pablo, o mais recente disco de Kanye West. Foi editado este sábado depois de uma série de publicity stunts que acho embaraçosos – quiçá desesperados – demais para os contemplar nesta crítica, mas que contribuíram de forma generosa para o comboio de hype que descarrilou em milhares de blogposts pela internet fora.

E, depois do tumulto, o que nos traz este disco? É um registo que exige atenção à grande diversidade de elementos aqui presentes, mas também apresenta uma grande conclusão. Este é o disco menos coeso, menos redondinho dentro do seu conceito, que Kanye West alguma vez editou. Não temos um tema central, mas quando pensamos estar a aproximar-nos de um – redenção é o que nos salta à mente – a cadência do álbum faz o favor de nos despistar. Se Yeezusz e MBDTF eram discos de transições (harmoniosas, por mais barulhentas que fossem), este The Life of Pablo parece andar perdido demasiadas vezes. Chega a parecer que a sua ambição é mesmo gozar com todo o cuidado que o autor sempre colocou em cada disco até agora.

Porquê? Porque nem toda a frescura sónica das produções de Kanye West consegue disfarçar que estas são músicas fora de ordem. Antes de escrever esta crítica, mas já depois de diversas audições com a ordem predefenida do disco, tive o cuidado de o ouvir de acordo com os três actos em que estava originalmente planeado no já icónico notebook. É aí que encontramos uma história que começa na fama, vai dar ao tédio e acaba na redenção através de Deus e pela família. Mas, por algum motivo, Kanye West decidiu baralhar a audição do seu disco. Para levar ao máximo a sua teoria de que este álbum é uma amálgama de toda a sua carreira até agora? Para nos mostrar que pode fazer um álbum sem conceito e cujo conceito passa por isso mesmo, pela sua megalomania? Ou pela confusão que é procurar a paz enquanto continua a fazer uma escandaleira?

Até os temas que estão a ser falados estão fora de ordem. A lírica não ajuda à compreensão geral porque ora estamos na igreja e em temáticas quase espirituais, como também vamos a momentos de discoteca e de música pop. Verdade seja dita, há muito tempo que Kanye West não entregava rimas com tanta qualidade como na faixa No More Parties in L.A., mas para compensar levamos com o bragadoccio habitual e frases em que é impossível não nos sentirmos a sobrancelha a levantar face a tanto disparate. O já muito comentado “Now if I fuck this model. And she just bleached her asshole. And I get bleach on my T-shirt. I’mma feel like an asshole,” é um êxito neste campo.

Para os fãs de Kanye old school, os samples aparecem em grande forma, os interlúdios continuam com a piada habitual (I Love Kanye é um dos melhores e mais divertidos exercícios de escrita do álbum) e são várias as faixas que nos trazem o estado de espírito que habitava em College Dropout e Late Registration. Mas porque será que não ficou tão bem enrolado como nos anteriores? Uma masterização apressada? Uma atracção pelo trashy? 

Numa crítica a um disco como este, em que é o resultado do seu todo que o vai levar para o panorama dos discos do ano (certamente vai ter lugar garantido em muitas listas) e que nos vai permitir compreendê-lo no contexto da carreira do artista, é importante não nos esquecermos que continuam a existir músicas incríveis por lá. Há grandes pérolas em The Life of Pablo. No More Parties in L.A. é um banger instantâneo, Ultralight Beam é o mais próximo que Kanye esteve do divino em muitos anos e tanto Famous como Waves são duas músicas hip pop, em que o pendor no pop não deixa de as consagrar como grandes faixas.

E ainda temos momentos de grande qualidade como 30 Hours, Real Friends e FML. As participações especiais elevam quase sempre os temas para novos patamares, tais como o verso do Chance no primeiro tema, o hook do Post Malone em Fade e o belíssimo outro de Frank Ocean em Wolves. Parece que Kanye West estava mais preocupado em criar a aura perfeita para cada música e respectivo convidado, do que em aprimorar a experiência que daqui resultaria, como se bastassem grandes temas dispersos de forma aleatória e com características que são parte do seu estilo pessoal para The Life of Pablo valer enquanto conjunto. Ou como se bastasse a sua personagem, todas as experiências que teve até agora e o know how da sua carreira até aqui. Como se um grande disco o continuasse a ser, por muito desarrumado que estivesse. Ou será que esta confusão é o seu triunfo?

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