‘Batman v Superman: Dawn of Justice’


Um dos filmes mais antecipados e esperados de 2016 chegou finalmente ao grande ecrã e infelizmente não irá ficar por muito tempo na nossa memória. Não é que a experiência tenha sido má. É uma obra tecnicamente muito competente cheia de explosões, planos aéreos alucinantes, coreografias incríveis e electrizantes mas que se perde no fundamental: o argumento.

É verdade que os filmes de super-heróis, a nova galinha dos ovos de ouro de Hollywood, têm como objectivo central gerar espectáculo. Mas é possível entreter com qualidade (lembramo-nos de repente do muito recente Deadpool) e Batman v Superman: Dawn of Justice falha redondamente ao entregar um argumento frágil, pouco desenvolvido, com buracos narrativos, onde força um conflito e inimizade entre dois dos super-heróis mais emblemáticos de sempre, simplesmente para justificar o titulo e uma grande batalha entre os mesmos.

Chris Terrio e David S. Goyer foram os responsáveis pela história desta obra, sendo este último um dos argumentistas da já mítica trilogia do homem-morcego de Christopher Nolan, facto que não se faz transparecer no material que pudemos visualizar aqui, e que nos clarifica do quanto Nolan foi importante na construção e desconstrução de um símbolo heróico que aprofunda a nossa compreensão do que é ser um super-herói.

O filme até tem uma ideia bastante interessante e ambiciosa ao querer aprofundar as consequências sociais da presença de um Deus, de um salvador na Terra, mas que rapidamente vai por água abaixo num caos narrativo que exigia um argumento de maior complexidade.

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A acção decorre 18 meses após os acontecimentos do primeiro filme Man of Steel, onde a cidade de Metrópolis foi quase reduzida a cinzas, e onde percebemos que tais eventos tiveram consequências impactantes na vida do bilionário Bruce Wayne, atribuindo a culpa à chegada do Super-Homem, passando a considerá-lo uma ameaça, em vez do salvador que muitos anunciam.

Na sequência de outros acontecimentos iniciais, essa ideia vai-se propagando ao longo do filme, colocando o Super-Homem em conflito consigo mesmo, e onde vemos um jovem magnata Lex Luthor a tomar atitudes extremas para o desaparecimento deste salvador, sem percebermos a razão para tal. O argumento não consegue explorar de maneira satisfatória os conflitos pessoais dos personagens e principalmente o conflito entre os mesmos.

Lex Luthor, com toda a expectativa que advinha do material promocional do filme, acabou por ser uma das maiores desilusões do mesmo. Actuação exagerada e caricaturada de Jesse Eisenberg, sem qualquer impacto, que não conseguiu provocar qualquer tipo de emoção no espectador senão apenas indiferença. Causa desconforto e retrata um antagonista sem sentido, onde não se consegue perceber de forma plausível as motivações para as acções e decisões da personagem. A certa altura parece que Eisenberg se tentar inspirar na criação de Heath Ledger e do seu assombroso Joker, mas mais parece um Mark Zuckerberg versão 2.0.

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O ponto forte do filme é, sem dúvida alguma, as cenas de acção que vemos durante a segunda metade da obra, acompanhada de uma banda-sonora portentosa – uma parceria extraordinária entre Hans Zimmer e Junkie XL (Mad Max: Fury Road) – de traços épicos, que elevam o filme para o que de melhor se faz dentro do género. E é aqui realmente que se faz sentir o aproveitamento da sala 4DX. De repente parece que entramos numa montanha russa de explosões sonoras, onde a cadeira onde estamos sentados não para um segundo e toda acção fica mais intensa. Sentimos cada movimento do combate com sequências rapidíssimas, rajadas de vento sobre a nossa cabeça, e que só por essa meia-hora de filme, vale a experiência de estar naquela sala.

Um dos assuntos mais falados e polémicos foi a escolha de Ben Affleck para dar vida ao Batman. Alvo de muitas críticas, era de facto uma tarefa ingrata depois do primoroso trabalho de Christian Bale. Os críticos de um modo geral reconhecem mais o talento de Affleck do lado de trás da câmera do que propriamente como actor (Gone Girl veio mudar um pouco esse pensamento). O que é certo é que foi dos elementos que mais resultou no filme, onde se nota o esforço e seriedade de Affleck em nos tentar trazer um Bruce Wayne/Batman intenso e sombrio, mais violento do que estamos habituados, em conflito com o seu duro passado.

O Batman é diferente da grande maioria dos super-heróis, sendo possivelmente o que tem uma evolução histórica mais rica e diversa. A sua densidade emocional é talvez a razão pela qual vemos a sua história ser revisitada e reinventada ao longo dos anos, e que nos faz acreditar que nas mãos certas (outra vez Nolan?), poderíamos ter uma nova saga bastante interessante do homem-morcego protagonizada por Affleck.

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É também importante fazer uma crítica ao trabalho do realizador Zach Snyder (que já nos deu obras bastante interessantes como 300 ou Watchmen) mas que falha redondamente na orquestração de um equilíbrio narrativo e visual.

E um dos erros mais crassos de Snyder foi retirar ao espectador todo o elemento surpresa. Pareceu ironia quando o realizador pediu aos jornalistas para não revelar detalhes do filme para não estragar o prazer do espectador, quando o próprio material promocional (diga-se trailers) é um resumo de praticamente todo o filme.

Por exemplo, a excelente aparição da Mulher-Maravilha (a belíssima e carismática Gal Gadot numa acertada escolha de casting), numa entrada triunfal, podia ter sido seguramente um dos grandes trunfos do filme mas que acabou por ser utilizada como um dos grandes destaques dos trailers.

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Durante as duas horas e meia de filme temos direito a alguns easter eggs que servem de preparação para a nova fase da DC no cinema com um universo expandido, com a inclusão de novos super-heróis para o futuro Justice League e para uma série de filmes em título individual.

Henry Cavill dá novamente vida ao Super-Homem mas falta-lhe por vezes o carisma necessário para agarrar um personagem tão preponderante. De resto, temos uma Amy Adams (Lois) sempre competente, e vários actores de renome que pouco ou nada fazem, mas que abrilhantam os créditos da obra, como Jeremy Irons (Alfred), Diane Lane (Martha Kent), Laurence Fishbone (Perry White) ou Holly Hunter (Senator Finch).

Em suma, Batman v Superman: Dawn of Justice irá satisfazer certamente muitos espectadores, nem que seja pelo seu inegável visual e acção realmente electrizante. Para o restante público serve apenas como entretenimento passageiro (para muitos nem isso), sem qualquer reflexão ou significado.

Nós por cá já estamos à espera daquele que realmente parece ser o confronto de super-heróis do ano. Falamos da Marvel e do seu Captain America: Civil War.