Bernie Sanders: o íman dos millennials


Bernie Sanders é o favorito entre os norte-americanos a viver no estrangeiro. Esta foi só a mais recente vitória do senador pelo estado de Vermont, o candidato mais à esquerda da corrida presidencial. Para já o duelo é com Hillary Clinton, a candidata favorita, considerada “do sistema”, nas primárias para o Partido Democrata, mas em breve – apesar de neste momento ser improvável – pode disputar o cargo de Presidente dos Estados Unidos da América com um republicano.

Do seu lado tem os emigrantes norte-americanos, mas também os millennials: sim, são os jovens que estão a apoiar o socialismo democrático do mais velho candidato à Casa Branca: tem 74 anos.

O que pensa Bernie Sanders

Gosta de se chamar “socialista democrata” e não tem medo de usar o termo socialista. Isto num país que tradicionalmente é governado à direita, com o Partido Democrático a inclinar-se mais para o centro-direita, se os compararmos com os partidos da Europa, apesar de estas classificações nunca serem pacíficas. Sanders quer criar uma economia que satisfaça todos e não apenas os mais ricos, uma faceta apelativa para os millennials desempregados que atualmente povoam os EUA. Os motivos que o fazem um íman dessa geração não se ficam por aqui: quer taxar as emissões de carbono, cortar os subsídios aos combustíveis fósseis e investir em tecnologias de energia limpa. Para a geração de 90, que sempre viveu com o alarme das mudanças climáticas, este é um assunto importante para a sustentabilidade. Tal como o drama das dívidas dos estudantes do ensino superior, que se prolongam por décadas. Bernie quer democratizar o acesso às universidades. Como? Abolir as propinas, indo buscar esse dinheiro aos milionários mais ricos e taxando os mercados financeiros de Wall Street.

Paralelamente à campanha presidencial, nos EUA discute-se permanentemente a posse de armas. Morte atrás de morte, o debate incendeia-se e a tensão racial aumenta. Neste ponto, Sanders é menos progressivo: vindo de Vermont, um estado pró-armas, o senador diz que deve haver maior controlo quanto ao passado dos compradores de armas, mas não propõe o controlo apertado que, por exemplo, Obama tem tentado impor. Apesar de Hillary Clinton estar um passo à frente neste assunto e nas minorias raciais, também Sanders ataca o racismo sistémico dos EUA, espelhado no desemprego elevado entre a comunidade afro-americana. O problema das armas e o racismo cruzam-se de tal forma que Sanders defende uma reforma na justiça criminal para acabar com o problema em alguns Estados onde a situação seja mais complicada.

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Afastando-se do sistema, apesar de fazer parte dele há muitos anos, e mostrando-se independente, Bernie Sanders é contra as doações de empresas, principalmente de bilionários, que sustentam a candidatura de Clinton. Sanders preferiu contar com a classe média que acredita nele, afastando-se do lobby que, segundo ele, condiciona o trabalho do Presidente. O senador foi eleito independentemente para o Senado e tem criticado ambos os partidos, apesar de saber que precisa do Partido Democrata para ser eleito Presidentes dos EUA.

Uma das acusações a Sanders é que as suas propostas são irrealistas. Uma das mais criticadas é a sua proposta para o salário mínimo: quer duplicá-lo. Isto significaria um aumento dos 7,25 dólares por hora atuais para 15. A proposta agrada aos trabalhadores, mas não aos empresários e aos economistas que prevêem a desgraça da economia norte-americana caso isso aconteça. Outra medida que poderá desequilibrar as contas do Estado norte-americano, tendencialmente mais liberal, é o sistema universal de saúde, que Sanders quer que vá além do Obama Care. E as contas continuam a complicar-se: quer ainda fazer várias obras públicas para gerar mais emprego.

Com o recente atentado de Bruxelas e com os ataques de Novembro em França, a política externa de Sanders mantém-se inalterada, seguindo as pisadas de Obama e Clinton. Por isso, “no boots on the ground.” Diplomacia, sempre. E é aqui que os democratas se juntam e mais se separam das reações de extrema direita, racistas e conservadorismo da sociedade dos candidatos republicanos.

Sanders pretende manter a relação de apoio com Israel, não ignorando a Palestina, tendo como objetivo a paz no Médio Oriente. A forma de lá chegar, diz Bernie (o senador gosta de ser chamado pelo primeiro nome), é através da negociação para obter uma solução de dois estados. No seu site, Sanders expõe o assunto e relaciona-o com o conflito na Síria e o ISIS. Na opinião do senador, os EUA podiam fazer mais para bloquear o financiamento ao Daesh, até através da Internet. “Eu concordo com o Rei Abdullah da Jordânia que, recentemente, disse claramente que o que se está a passar agora é nada mais do que uma batalha pela alma do islão e que as únicas pessoas que vão destruir eficazmente o ISIS serão as tropas muçulmanas no terreno,” declarou num discurso recente.

Conseguirá Bernie ser o Presidente Sanders?

A resposta, actualmente, aproxima-se mais de um “dificilmente”. A imprensa norte-americana tem escrito que Sanders vai provavelmente ter várias vitórias nas próximas semanas. Isto são boas notícias, certo? Sim, mas estes Estados são pequenos e não lhe dão acesso a muitos delegados, o que não muda o panorama geral contra Clinton que, ainda por cima, tem o controlo e apoio maioritário dos super-delegados (as primárias dos democratas são diferentes das dos republicanos), eleitos pelo partido que Hillary bem conhece.

Em declarações ao Vox, o especialistas Kyle Kondik, da Universidade da Virginia, diz que “mesmo que Bernie Sanders ganhe todos os Estados até ao fim da corrida, ele provavelmente não vai conseguir apanhar Clinton em termos de delegados”. A matemática é “assustadora”, classifica, e dá atualmente cerca de 300 delegados a mais para o lado da ex-Secretária de Estado de Obama. As contas de um jornalista da Vox, apesar de serem difíceis e nem sempre claras, dizem que Sanders teria de ganhar 58% dos delegados que restam para apanhar Clinton. Caso as margens sejam estrondosas – o que parece irrealista – Sanders pode ter uma oportunidade. No Politico, um ex-conselheiro de Bill Clinton, sentencia que os candidatos já estão escolhidos: Clinton vs. Trump. Doug Sosnik vai mais longe: os Democratas vão ganhar, ficando assim com três mandatos na Casa Branca de seguida, algo que não acontecia há mais de meio século.

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Ainda há esperança para Bernie, mas as apostas estão todas do lado de Hillary. Na política o imprevisível e o previsível nem sempre são concretos. Pode ser que a linha que separa um e outro se desvaneça e aquilo que outrora era previsível na política norte-americana mude a favor de Sanders. Mas o caminho é longo, de maratonista: no Verão “quente” dos EUA voltamos a falar.