Demos uns dedos de conversa com as Golden Slumbers acerca do seu primeiro álbum


Foi num dos dias de sol que o Inverno nos tem oferecido que conversámos com as Golden Slumbers. Margarida e Catarina Falcão não são apenas irmãs de sangue. São também irmãs na músicafolk que constroem com base na harmonia articulada das suas vozes que, muitas das vezes, parecem ter sido concebidas a pensar uma na outra. Em 2014 apresentaram-se ao público com o seu primeiro trabalho. O EP I Found The Key, onde cantam sobre os amores e os desamores que nos sujeitamos a viver e a sofrer pela vida fora, fez sucesso no Tradiio e valeu-lhes a conquista de um público que parece manter-se fiel. A Casa Independente, no passado dia 26 de Fevereiro, ajudou-nos a manter a ideia de que as Golden Slumbers vieram para ficar. A apresentação do seu novo e primeiro álbum, The New Messiah, foi pretexto para lotar o espaço no Intendente com curiosos e fãs do duo nacional que não deixaram de acompanhar as artistas com sing-alongs bem conhecedores do que ali se cantava.

Do EP ao álbum vão dois anos de distância e, na tentativa de aferir as diferenças que o tempo lhes provocou, a conversa iniciou-se.

Durante a composição e a gravação do álbum, notaram que estavam diferentes de há dois anos atrás? Foram mais selectivas, acharam-se mais maduras artística e pessoalmente ou até com gostos diferentes da altura em que construíram o I FoundTheKey?

CATARINA: Sim, o nosso EP foi uma primeira tentativa. Foi uma primeira experiência, não sabíamos bem para onde queríamos levar a nossa música. Sabíamos apenas que gostávamos de compor e achávamos que cantávamos razoavelmente bem.

MARGARIDA: Foi um bocado experimental.

CATARINA: Sim, experimental sem ser música experimental [risos]. No fundo o EP é cru, um bocado básico. Há ali muitas coisas que faríamos de forma diferente. A passo que o álbum, apesar de ter sido feito um pouco sob pressão, até porque houve uma altura em que eu e a minha irmã estivemos um pouco desconectadas uma da outra – eu estive a viver fora, a Margarida começou o projecto de Vaarwell, portanto ficámos as duas sem saber por onde começar o álbum. Mas isso levou-nos a compor de forma mais metódica. Obviamente que em dois anos crescemos e os nossos gostos também se abrangeram na medida em que começámos a ouvir outras coisas. É um álbum mais maduro. E começámos a dar-nos com mais pessoas da área da música que nos deram imensas dicas relativamente a coisas que poderíamos fazer. Estamos mais crescidas, não diria diferentes. Até porque o nosso EP gira muito em torno de histórias de amor e desamor enquanto neste álbum tentámos não ir muito por aí e escrever sobre coisas diferentes.

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Como é que articularam, entre as duas, o processo de criação do álbum?

CATARINA: Não houve tarefas específicas, fizemos praticamente tudo juntas.

MARGARIDA: Basicamente juntávamo-nos e começávamos a tocar para ver o que saía. Foi uma coisa completamente natural. Ás vezes, ou eu ou a Catarina, chegávamos com ideias perto uma da outra e fazíamos as músicas a partir daí.

Impuseram uma rotina de trabalho ou estas faixas surgiram espontaneamente durante algum tempo e depois acabou por ser uma questão de juntar e complementar trabalho?

CATARINA: Tivemos de arranjar um horário. Mais ou menos em Agosto começámos a compor e passados dois meses gravámos o álbum. Mas até estou contente porque em dois meses conseguimos ter o álbum pronto.

Acham que essa imposição horária prejudicou qualitativamente o álbum por vos ter obrigado a fazer as coisas quase em “contra-relógio“?

MARGARIDA: Acho que é demasiado cedo para dizer.
CATARINA: É, eu também acho. Ainda não há nada que eu gostasse de mudar, pelo menos.
MARGARIDA: Qualquer coisa que tivéssemos feito é uma evolução do nosso EP. Acho que só vamos saber se prejudicou quando fizermos o próximo álbum.

Deixaram material fora do álbum?

CATARINA: Deixámos algumas coisas e até começámos algumas músicas que não chegámos a acabar.

A história que querem contar nestas 10 faixas articula-se entre todas as músicas ou cada uma destas cantigas tem uma história isolada?

MARGARIDA: Cada uma tem a sua história.
CATARINA: Sim, não acho que haja grande ligação. Mas pode haver! É sempre uma questão de interpretação. Mas da nossa parte não há propriamente uma intenção em ligar as músicas.
MARGARIDA: As músicas são sobretudo sobre o “encontrares-te a ti próprio”.
CATARINA: Sim! Por mais cliché que isso seja. Mas é um bocado uma descoberta, não só da nossa sonoridade mas também da nossa parte espiritual.
MARGARIDA: E também escrevemos sobre as nossas discussões [“Stubborn”] e temas mais melancólicos.

Para além das influências que vos são conhecidas (Kings ofConvenience, Laura Marling, Simon andGarfunkel) inspiram-se em artistas de outras artes ou cruzaram-se recentemente com um novo artista que vos tenha influenciado?

CATARINA: Gosto muito de Sufjan Stevens. Gosto muito do Carrie & Lowell e toda a parte da produção está incrível. E fica sempre qualquer coisa. Não é uma influência directa mas fica sempre qualquer coisinha.
MARGARIDA: Eu não ouvi muita música nova em 2015. É triste dizer isso [risos]. E a que ouvi não tinha muito a ver com o nosso registo como Kendrick Lamar, por exemplo.
CATARINA: [Relativamente à influência de outras artes] Eu estive num curso de composição em Londres e tinha de escrever 3 músicas por semana e uma das coisas que eu fazia era abrir um livro, ao calhas, e, por vezes, a leitura de algumas passagens dava-me ideias para escrever, por esta ou aquela palavra que acabava por me chamar à atenção. Isso ajudava-me a surgir com ideias para inspirar as minhas músicas. Mas ás vezes quando estamos encravadas podemos recorrer a outras cenas para tirar uma ideia. Neste álbum, há uma música que nos deixou encalhadas e acabámos por fazer isso. Abrimos um livro, tirámos uma palavra e…
MARGARIDA: Eu lembro-me de fazermos isso mas não resultou [risos]. Eu também faço isso às vezes, não com Golden Slumbers mas com Vaarwell.

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Existe alguma referência que tenham no universo musical português? 

MARGARIDA: Como referência, honestamente, não tenho ninguém.

CATARINA: A nossa maior influência é música folk e folk não é uma tradição portuguesa.
Margarida: E até é curioso que a maior parte dos artistas folk em Portugal que conheço tenha feito de parte de bandas hardcore ou metal.

No videoclip do vosso single optaram por cantar a “OldMessiah” e a “New Messiah” como se tratasse de uma só música e pelos nomes que deram às faixas notamos logo que há uma ligação entre as duas canções. Qual é a história que estas músicas pretendem contar e qual é a ponte que se estabelece entre a Old e a New Messiah?

MARGARIDA: Eu vejo a “Old Messiah” como uma transição, uma espécie de interlude.

CATARINA: É um estado de calma antes de vir a euforia. A “New Messiah” é sobre uma pessoa alcoólica que está desequilibrada e que passa pelos estados de negação, euforia, desânimo, etc. E esse início [“Old Messiah”] é a calmbeforethestorm. As músicas que escrevemos são inevitavelmente sobre a vida, seja a nossa ou a de alguém e, portanto, embora não tenha sido escrita intencionalmente para ninguém, acaba por se poder aplicar em algumas circunstâncias.

Este foi o primeiro videoclip das Golden Slumbers. Como é que foi a experiência?

MARGARIDA: Foi engraçado. Foi em nossa casa.
CATARINA: A nossa mãe saiu de casa. Muito querida [risos]. Nós mudámos a sala toda. Convidámos os nossos amigos e foram para lá às 10h da manhã e começaram a beber às 10h da manhã, apesar de ninguém os ter obrigado a isso [risos]. Nós tínhamos algumas garrafas de vinho, tipo o mais rasca possível, caso precisássemos de adereços e eles levaram aquilo muito a sério.
MARGARIDA: Entraram mesmo na personagem [risos].
CATARINA: Supostamente no dia seguinte nós tínhamos de limpar tudo mas acordei e a minha outra irmã e as nossas duas primas arrumaram tudo. Foi tipo…[suspiro]”obrigada!”
MARGARIDA: Foi mesmo muito engraçado. Nós acordámos às 8h e tal e o pessoal esteve lá até ás 20h da noite. Foram incríveis! Temos bons amigos.
CATARINA: E o Martim Braz Teixeira foi quem tratou da realização.

O “enredo” foi ideia vossa ou deixaram ao critério do realizador?

MARGARIDA: Foi uma ideia conjunta.
CATARINA: Falámos com a Joana, a actriz principal e depois houve ali uma troca de ideias entre nós e o Martim.

Ficaram contentes com o resultado final?

CATARINA: Ficámos contentes, sim. Com o budget que tínhamos, com o material e o espaço que tínhamos, correu bem. Não é uma alta produção claro, nem houve  intenção de o fazermos, não temos dinheiro para isso mas se alguém nos quiser pagar um videoclip…[risos]. Mas foi uma experiência muito gira.

Neste momento acredito que estejam já bastante ocupadas com aquilo que lançar este álbum naturalmente vos exigiria mas já sabem onde querem ir depois deste álbum?

CATARINA: Já começámos a compor algumas coisas, sim.
MARGARIDA: Sim, mas não temos planos específicos. Temos de ver primeiro a recepção que há ao álbum. Mas estamos a experimentar e a tentar ser mais fiéis ás raízes do folk. Este álbum foi mais folk-pop.

A internacionalização é um desejo vosso ou olham para este projecto exclusivamente como uma aposta nacional?

CATARINA: Sim, sem dúvida. Cantamos em inglês e isso facilita um bocado. Mas não temos nada planeado ainda.
MARGARIDA: Sim mas queremos conquistar Portugal, primeiro. Mas cá não há muito folk. Lá fora há imenso. Em Inglaterra, por exemplo, há open mic em imensos sítios onde aparece montes de malta que vai cantar as músicas que compuseram a semana passada. Portanto, para irmos lá para fora, tinha de ser de forma inteligente. Tínhamos talvez, de ser mais big budget. Não que este álbum não tenha potencial para se internacionalizar mas há espaço para melhorar.

O primeiro álbum das irmãs Falcão está disponível para download, gratuito e legal, aqui.

Fotos por: Rafael Oliveira