Kendrick Lamar – ‘untitled unmastered.’


34 minutos, impressos numa capa verde, marcam o tempo limite desta que é a primeira compilação de músicas gravadas, entre 2013 e 2016, por Kendrick Lamar. A primeira sensação quando K-Dot libertou, inesperadamente, untitled unmastered. foi de êxtase, a segunda, já quando as faixas começaram a rolar, foi mais sombria e obscura. Um instrumental que remete os nossos ouvidos para aquelas batidas dos anos 90, como tínhamos nos Wu-Tang Clan, marca um início de uma música, que está longe de ditar o resto do disco.

A segunda faixa marca o fim desta primeira fase fria e negra e também o início da participação de Thundercat, que também ofereceu arrojadas linhas de baixo ao To Pimp a Butterfly. Fica prensada nesta música a constante mudança de fluidez a rimar do autor.

Em “untitled 03” cresce uma segunda fase, marcada por uma sonoridade de alguma forma similar à de “These Walls”. A par de “untitled 06”, que encarna um estilo Bossa Nova, são as faixas que mais se demarcam do ritmo mais ou menos homogéneo do EP.

Uma coisa é certa, participações não faltaram, como já havia sido referido, o baixo de Thundercat está bem vincado em 6 das 8 músicas presentes, mas há também que destacar em “untitled 05” a voz de Anna Wise, que também canta na primeira e na terceira canção. Um outro integrante, surge na “untitled 06”, e é nada mais nada menos, que Cee-Lo Green. Um dos mais potentes vocalistas da actualidade, que tanto se destacou em Gnarls Barkley e que tanto pecou a solo, integra esta música meio soul – a dita Bossa Nova – que dá uns ares de abstracção de tudo o que passa nesta compilação. Em “untitled 05” temos uma data de gente a quem Kendrick deve muito, Robert Glasper, Terrace Martin, Punch, Jay Rock, Ab-Soul e mais uma vez Thundercat e Anna Wise.

A última a destacar, é “untitled 07”, uma das mais frenéticas e que mais deixa a desejar um videoclipe. Passa por 4 fases diferentes, tem um total de 8 minutos e termina com algo que soa a um improviso à volta da fogueira.

Ninguém pode esperar que untitled unmastered. seja um sucessor de To Pimp a Butterfly, até porque as músicas têm datas anteriores ao mesmo, mas pode-se esperar algo de nível médio, vindo de quem vem, e de um nível superior comparando com o restante panorama. Posto isto, não é definitivamente o próximo passo de Kendrick, mas sim um reforçar da ideia de que ele é o melhor rapper da actualidade. Esta é uma verdade que tem custado a entrar na cabeça de alguns ouvintes, principalmente os ditos conhecedores de Hip-Hop, mas para percepcionar a dimensão deste artista, não se pode avaliá-lo somente como rapper, mas sim como músico. O tempo de venerar Tupac e B.I.G já lá vai, porque um novo profeta desta arte caminha entre nós e está na altura de lhe dar o devido crédito.

CLASSIFICAÇÃO:

Instrumental – Reforça que é um dos factores que mais o destaca do resto do Hip-Hop que mais se ouve, um instrumental que não cansa, com excelentes variações, muitas vezes proporcionadas por Thundercat.

Vocal – Kendrick não é de todo um excelente cantor, mas para compensar tem sempre vozes por detrás que desempenham esse trabalho.

Letras – Não descurando do hábito, K-Dot presenteia-nos mais uma vez com diferentes líricas. Em “untitled 01”, há a constante batalha contra a violência, desta vez com muitas referências religiosas. Na segunda faixa, esta batalha continua, mas desta vez com uma estrutura diferente e um segundo verso com uma mudança de ritmo arrepiante.

Duração/Composição do álbum – A compilação destas músicas perdidas, de alguma forma permitiu formar um EP, com 34 minutos, com pés e cabeça. O único problema de ser um EP é deixar a desejar que no dia seguinte seja lançado uma nova compilação, tão boa ou melhor que untitled unmastered.

Produção – Cada “untitled” tem um produtor diferente. Continua a contar com a participação de Terrace Martin na nº 5, que tem sido o maior Must da produção por detrás de Kendrick e das suas obras. Acima de tudo, continua a haver uma produção muito sólida, detalhada e sóbria. Na n°7 uma das partes é uma melodia criada e produzida por Egypt, filho da Alicia Keys e do swizz beats, que tem apenas 5 anos!

Colaborações – Anna Wise, Bilal, Cee-Lo Green, Thundercat, Robert Glasper e Terrace Martin são as participações mais sonantes, e que mais se fizeram soar. Destaque para a Anna Wise, que em 3 músicas (1,3,5), deu mais uma vez  Soul ao álbum.

Melhores músicas – “untitled 02”, “untitled 05”, “untitled 07”.