Mirror People comemora um ano de ‘Voyager’ com novo EP e concerto no CCB


Eram 10 da manhã quando encontrámos Rui Maia no Miradouro do largo das necessidades em Alcantra, pleno centro de Lisboa. Durante quase uma hora de conversa, falamos sobre o seu projecto Mirror People que celebra o 1º aniversário da edição do muito elogiado disco de estreia, Voyager, com um espectáculo no CCB que irá acontecer esta noite.

Em tom de conclusão de um primeiro ciclo deste projecto, foi também lançado digitalmente esta quinta-feira o EP Telephone Call, que conta com uma reedição do tema título, extraído do álbum de estreia, e a participação de Rowetta da aclamada banda inglesa Happy Mondays, que Rui Maia elogiou pelo “profissionalismo e controlo de voz impressionante”. Além do tema título com remisturas de artistas nacionais como Cut Slack, Ka§par e Daily Misconceptions, este novo EP inclui canções inéditas que veem agora a luz do dia.

Foi uma conversa animada e muito interessante, onde pudemos fazer uma retrospectiva do ano que passou, momentos que ficaram marcados, e o que esperar do concerto desta noite. 2015 foi um ano recheado de espectáculos que incluíram vários grandes festivais de verão, o qual destacou a oportunidade de ter tocado para um Coliseu do Porto cheio, a propósito da recente edição do NOS D’bandada, concerto esse que nós tivemos a oportunidade de presenciar.

2016 será um ano de descanso para Mirror People, para depois voltar com “uma coisa nova, diferente, que faça sentido, se calhar com outro formato”. Entretanto, irá lançar muito em breve um novo álbum em nome próprio e está neste momento a trabalhar em coisas novas com os X-Wife. Também não irá perder a oportunidade de ver Robert Plant e Brian Wilson durante este verão, “velhadas” míticas do mundo da música.

Antes de começarmos a entrevista, Rui Maia disse ser uma pessoa madrugadora, que gosta de acordar e deitar-se cedo, mas que por vezes a fonte de inspiração surge entre devaneios de noites de pouco sono.

Sentamo-nos num banco e iniciámos a entrevista.

 

Um ano desde o lançamento do teu álbum de estreia, Voyager. Como é que defines estes 365 dias?

Olha, o álbum correu muito bem. Foi o primeiro álbum de Mirror People e o projecto como tem assim uns traços meio disco-sound, estava um bocado na expectativa como iria ser a aceitação geral. Normalmente não costumamos ouvir muito disco-sound na rádio ou música de dança com estes traços e então estava um bocado na expectativa. Será que irá ter air-play? Será que as pessoas vão gostar disto? Mas o primeiro single “I Need Your Love” correu logo muito bem. Teve imensa exposição, o vídeo no youtube teve imensos plays e, o facto de o álbum ter tido bastante air play, gerou vários concertos e tivemos a oportunidade de tocar em vários festivais. Tocámos bastante. Portanto, no balanço de um ano, estou mesmo satisfeito com o disco e com o resultado. Óbvio que nós queremos sempre mais mas isso é normal. Agora é continuar a tocar e começar a pensar em se calhar gravar um segundo álbum, começar a compor que ainda não fiz nada disso. E fazer algo diferente também.

Sentiste então que foi um desafio lançar um álbum com esta sonoridade? Achas que o público português evoluiu musicalmente em termos de eletrónica?

Sim, mas de facto há uma maior abertura para este tipo de sonoridade. Nós vemos outros projectos. Se calhar Mirror People é o que tem mais este toque de disco-sound mas vemos outras coisas. Malta que anda fazer este tipo de sonoridade como o pessoal da Discotexas, Moulinex, Xinobi, etc. Se calhar Moulinex está a fazer uma coisa mais psicadélica e o Xinobi é uma onda ainda mais dança, mas estamos ali todos no mesmo saco e estamos a falar de projectos que têm bastante exposição. Ou seja, esta nova música de dança que apareceu em Portugal é, de facto, melhor aceite agora do que há cinco anos atrás, e ainda bem que assim é.

Falaste que actuaste em vários sítios pelo país, em palcos maiores como o Super Bock Super Rock, Paredes de Coura, LISB-ON Jardim Sonoro, e NOS D’bandada. Que recordações trazes desses momentos?

É sempre bom tocar para uma grande audiência. A experiência é completamente diferente do que tocar para um club pequeno. Eu gosto das duas coisas. Se me dessem a escolher optaria por locais mais pequenos. Gosto da proximidade do público dos concertos pequenos, é mais pessoal. Mas a oportunidade de tocar num festival e toda a exposição que tens, desde apareceres nos cartazes a tocares para um grande número de pessoas, isso é óptimo porque faz com que a tua música chegue a mais gente e naturalmente isso gera mais concertos. Tens é de dar uma boa prestação ao vivo, naturalmente.

O streaming por exemplo tem sido muito importante na tua carreira não é?

Claro que sim. Hoje em dia é essencial. Mas tocar em festivais tem essa vantagem e nós termos tido oportunidade de o fazer é incrível porque estamos a falar de um disco de um projecto com uma sonoridade assim meio esquisita de um tipo que vem do rock.

Há por exemplo alguma sala de espectáculo em particular onde gostavas de levar o projecto Mirror People?

Não te sei dizer uma sala agora no momento. Mas por exemplo, nós tocamos num concerto que tu até viste, no D’bandada, no Coliseu. Eu nunca tinha tocado no Coliseu, nem com os X-Wife. Só tinha estado lá como espectador a ver concertos de outras bandas. Vi concertos míticos tipo Siouxsie & the Banshees ou os Arctic Monkeys que deram um concerto incrível. Ou seja, há ali uma coisa especial para mim naquela sala e ter lá tocado no Coliseu daquela forma, cheio, aquela hora (1h30 da manhã) foi uma experiência única que nunca mais me vou esquecer. Para mim, pessoalmente, é se calhar a sala mais emblemática portuguesa porque eu sou do Norte, da Maia, e vivendo na Maia passamos muito tempo no Porto, é normal que isso aconteça.

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Já que falámos em festivais, 2016 vai ser um ano recheado de grandes nomes nos festivais. Tens algum nome em particular que queiras ir ver ou que achas que te tenha influenciado no teu percurso como músico?

Por acaso aqui no Alive quero ir ver Robert Plant. Primeiro porque é vocalista do Led Zeppelin, uma super banda quase de super-heróis. Mas pela história do Robert Plant e pela importância que ele tem. Não sou o maior fã do mundo de Led Zeppelin mas gosto da banda e dos álbuns. E falando assim noutras velhadas, o Brian Wilson lá em cima. Eu naturalmente gosto de ir ao Primavera Sound porque aprecio imenso o festival e o espaço, como tudo está organizado. O Paredes de Coura também tem alguns nomes interessantes como os LCD. Os X-Wife tiveram oportunidade de tocar com os eles e já os vi algumas vezes mas agora não estou muito curioso, não gostei muito daquela cena de acabar a banda, fazer um documentário e agora voltam passado 5 anos do tipo “ah afinal..”. Há pessoal que está a viajar da Austrália, de outro lado do mundo, para ver um concerto único. Sou fã da banda, tenho os discos todos mas fiquei um bocado desiludido com a situação. Mas certamente que se tiver a oportunidade de os ir ver, vou ver e vou gostar de certeza. Mas soube-me assim um bocado mal.

Antes de nos focarmos no EP e no concerto de amanhã no CCB, como já tinhas revelado anteriormente, Mirror People foi um nome que surgiu durante uma tour americana dos X-Wife. Quando pensaste no nome para este projecto, esteve mais algum em cima da mesa?

Não me recordo. Naturalmente quase de certeza que havia mais nomes mas a ideia inicial de Mirror People era ter um projecto que pudesse convidar mais pessoas, como eu fiz, e até se calhar integrar mais pessoas no projecto, mas ao longo do percurso isso não aconteceu. Quanto ao facto de se chamar Mirror People, o “Mirror” tem a ver com a bola de espelhos ligado ao disco sound, que é um bocado a sonoridade que queria dar ao projecto, e “People”, pelo facto de eu desempenhar vários papéis dentro do projecto, ou seja, ser uma pessoa singular, ter varias funções.

Começaste como “one man show” mas depois começaste a ter vários convidados. Achaste que essas colaborações iriam trazer mais diversidade musical às musicas?

Claro que sim, principalmente as vozes. Eu não sei cantar e se quero ter músicas com voz ou samples, convido cantores. Quando Mirror People entrou para a Discotexas começou a tornar-se um projecto mais “pop”. Até então as canções eram muito mais instrumentais, muito mais viradas para a música de discoteca do que no que se tornou depois. E quando entrei para a Discotexas, havia uma abordagem mais de canção. Se ouvires Moulinex, têm canções com refrão, com vozes. E então, para as coisas ficarem um bocado enquadradas, decidi mudar um bocado o projecto Mirror People e torná-lo um bocado mais pop e comecei a convidar cantores. E consoante a sonoridade do cantor e o estilo musical, dentro da mesma linha dá para puxares coisas mais para um lado ou para o outro.

Por exemplo, sabemos que na canção “I Need Your Love”, várias pessoas tentaram cantar o instrumental mas não sentias que fluía como devia, até que por acaso encontraste a Maria do Rosário e a melodia feita por ela resultou na perfeição. Quando escreves algo, escreves com o intuito de alguém a cantar ou esse é um processo de descoberta?

Eu primeiro contacto as pessoas que são meus amigos ou com quem já trabalhei porque há ali uma relação, uma amizade ou são colegas de trabalho. No Voyager, as primeiras canções, os primeiros convidados foram nesse sentido, pessoas que já conhecia. Mas depois procuro trazer sempre algo novo e tento ter nomes mais sonantes para o projecto dentro do que eu consigo porque afinal de contas não é um projecto que tem muita exposição. Tem cá em Portugal mas lá fora não, não tem assim tanta. Mas se tu queres um vocalista com nome de peso é mais complicado de fazer isso acontecer, de convenceres a pessoa a fazer parte. Mas é claro que tento fazer isso e convidei várias pessoas diferentes, nomes grandes e tudo. Porque não? Mas os amigos são naturalmente as primeiras pessoas a ser convidados.

Por exemplo, o teu novo single “Telephone Call”, que dá nome ao EP e foi lançado hoje, conta a participação da Rowetta dos Happy Mondays. Como é que foi trabalhar com ela?

Já foi a terceira vez que trabalhámos juntos. A primeira coisa que fizemos juntos foi o “Feel the Need” que curiosamente foi a canção mais pop que saiu na Discotexas. Depois fizemos outra canção, um cover da “Is It All Over My Face” do Arthur Russell, uma canção emblemática do final dos anos 70 de disco sound e, por fim, fizemos este “Telephone Call”. O trabalho com ela é sempre muito profissional porque ela é uma cantora mesmo profissional, com um controlo de voz impressionante. Eu enviei o instrumental e ela gravou lá em Manchester os takes de voz e aquilo é feito mesmo old school com harmonias de várias tonalidades diferentes, afinadíssima. Mas o trabalhámos à distância e assim tu não consegues conhecer muito bem a pessoa. Mas nível profissional, foi óptimo trabalhar com ela. Foi tudo cinco estrelas, sem falhas.

Hoje é lançado o teu novo EP Telephone Call com inéditos e remixes exclusivos do novo single. Este lançamento e o concerto amanhã no CCB, mais que uma celebração, é um desfecho para o universo de Voyager?

Sim, é. Os b-sides, inéditos, foram coisas que ficaram fora do Voyager, que gravei na altura mas não encaixavam bem no álbum e achei por bem juntá-los todos neste pacote do Telephone Call com os remexes e fechar o ciclo. Não há mais canções que ficaram guardadas além destas. Esta fase do Voyager termina com este EP. Não vou editar mais singles do álbum. Esta reedição do “Telephone Call” em single surgiu pelo facto das canções do meio dos discos ficarem um bocado perdidas e penso que é uma canção forte e merecia ter mais algum destaque.

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E o que podemos esperar este sábado no CCB?

Amanhã [hoje] vamos ter o Rodrigo Gomes que vai cantar o “Ruby Went Out Dancing” que é uma música do Voyager que não foi single mas podia ter sido. Vou ter um amigo meu, Mauro, que tem um projecto bastante desconhecido que é o Cão de Palha. Ele toca meio bossa nova, guitarra acústica e voz, e participou no tema “We Wonder” que é um tema que faz parte agora do EP. Vamos ter também umas projecções que até então não usámos. Um amiga minha, a Helena, é VJ e tem umas projecções meio psicadélicas e penso que vão colar muito bem com as músicas porque Mirror People ao vivo é um bocado diferente do disco, uma coisa mais hipnótica. Óbvio que é uma sala emblemática. O CCB é sempre o CCB e para nós há um certa responsabilidade em ir lá tocar e vamos festejar o álbum dessa forma. Para a frente há mais concertos e que são também importantes mas estamos a pensar em amanhã e amanhã é um concerto especial.

Disseste há pouco que ainda não pensaste em nada específico para um segundo álbum, mas é um objectivo para 2016?

[Risos]

Não, para 2016 não, mas certamente para 2017. Agora em Abril vou lançar outro disco, com o meu nome, e vai ser um disco completamente diferente de Mirror People.

Pelo que já ouvimos de uma primeira amostra, com a canção Everything Is Changing, pareces entrar num território mais techno. É o que podemos esperar deste projecto?

Sim, o disco é completamente influenciado pelo techno e é um disco bastante pesado. Ficou tudo a meu cargo, gravei tudo, misturei, produzi, tem músicas que sou eu a cantar, outras são samples de voz. São 8 canções, 50 e tal minutos de música mas é um disco muito mais virado para a pista de dança e “DJing”. Não tem músicas de rádio, não tem nada disso. E vai ser apresentado com live acts, um bocado o que fazia no início, eu com os sintetizadores, e vai sair em vinyl, digital e cassete (pela piada das cassetes, pelo objeto que é e porque tiver oportunidade de fazer as cassetes). Mas o vinyl é o principal e o digital é mais para divulgação, para dar a conhecer a toda a gente. É um disco curioso, que gravei muito rápido, todo seguido. Um disco que queria fazer e bastante diferente de tudo o que fiz até agora. Para já, é nisso que vou estar mais concentrado. E tenho os X-Wife, que é uma banda que continua, e nós estamos a trabalhar em coisas novas, tendo até alguns concertos agendados. O objectivo é Mirror People descansar um bocado para depois voltar com uma coisa nova, diferente, que faça sentido, se calhar com outro formato.

Uma mudança de registo na onda eletrónica?

Sim, naturalmente. O segundo álbum de Mirror People não vai ser um álbum de disco sound como foi este, não faz sentido que assim seja. Para mim é quase como aconteceu com X-Wife. Há uma evolução da banda desde o primeiro álbum até ao ultimo, uma evolução da sonoridade da banda, e em todos os meus projectos acontece isso. Gosto de ir fazendo coisas diferentes, de ir fazendo upgrade e mudar um bocado a sonoridade.

Alguma colaboração de sonho no futuro?

Não sei. Uma das coisas que quero fazer no segundo álbum é não ter tantos convidados. Se conseguir fazer um disco só com a Maria do Rosário a cantar, prefiro do que estar a ter muitos convidados. Por uma razão. Isto dos convidados é muito bonito e tu lanças singles, etc, mas depois ao vivo é complicado porque a Maria, além das canções dela, tem de interpretar canções de outras vocalistas. E por exemplo, tenho vocalistas masculinos no álbum em que ao vivo estou a usar samples porque ninguém vai cantar aquilo. Mas se calhar posso focar mais o projecto numa banda e trabalhar com um conjunto de pessoas que depois irá tocar comigo ao vivo do que estar a disparar para todo o lado como o que fiz que pronto, ficou feito e foi uma boa experiência, mas se calhar faço agora as coisas de uma maneira diferente, se tiver oportunidade óbvio. Se tiver um nome que queira mesmo trabalhar, claro que sim, mas agora neste momento idealizo o segundo disco da forma que estou a dizer.

Telephone Call já está disponível através do Spotify.