New York Times não vai ao Coachella (nem ao Bonnaroo) porque não quer


Nos Estados Unidos, como em Portugal, existem festivais de música grandes e festivais pequenos. Os primeiros acabam por ter mais força mediática, dado, por um lado, o esforço das promotoras junto dos principais jornais, rádios e televisões e, por outro, os cartazes que conseguem construir.

Este ano, dois dos maiores festivais norte-americanos não vão contar com a cobertura/atenção do maior. O New York Times anunciou que não está a fazer planos para ir nem ao Coachella nem ao Bonnaroo.

“Em vez de cobrir os grandes festivais por reflexo, vamos cobrir uma série de festivais mais pequenos com uma finalidade”, escreve Ben Ratliff, que explica que a massificação e consolidação dos festivais tornou-os em mais que eventos de música e que o trabalho dos críticos de música deixou de fazer sentido. O crítico do New York Times diz que cada festival tem a sua essência mas que “essa essência tem a ver cada vez mais com diferenças ao nível de roupas, drogas, localização e clima, e menos a ver com os sons dos múltiplos palcos”.

Ben nota, ainda, que os line-ups dos grandes festivais, que atraem milhares de pessoas e que continuam a ser “rituais de passagem para os adolescentes”, coincidem muitas vezes, com nomes como LCD Soundsystem ou ASAP Rocky. Olhando não só para o Coachella e Bonnaroo, mas também outros como o estreante Panorama, o crítico do maior jornal do mundo comenta que, por isso, “dão a um crítico de música cada vez menos retorno”. “As suas idas costumavam ser emocionantes, se emocionante significa especial e especial significa raro e rara significa significativo; agora não são”, continua.

“Os festivais são demasiado grandes enquanto negócio para não serem homogeneizados, suavizados e massificados”, conclui Jon Caramanica, outro crítico do New York Times, que aponta também a actual latência identitária dos festivais de música. “Lembram-se de quando o Coachella era especial por acontecer no deserto da Califórnia? Parece que, afinal, as pessoas na Califórnia querem as mesmas coisas que as pessoas em Oklahoma e as pessoas em Baltimore e pessoas na Internet.”

Jon Caramanica sugere que se aprende mais sobre “a música que está actualmente a ser feita e tocada” nos Estados Unidos indo a festivais mais pequenos, que são muito focados tematicamente e também praticamente ignorados pela crítica. “Como é que tipicamente se cobre um festival de massas que não tem um foco central e não tem qualquer temática que não a grandeza? Existem os resumos, as galerias de fotos, os destaques promocionais, as notícias sobre moda; mesmo todas essas coisas, juntas, somam menos que um todo ideal”, escreve no New York Times.

“Não quero dizer que não existam notícias a acontecer nessas coisas [grandes festivais], mas primariamente vejo o festival de música moderno como um evento social, não um musical”, conclui Jon Caramanica. Já Jon Pareles, o terceiro crítico que assina esta nota do New York Times, esclarece que o jornal vai naturalmente estar atento ao que se vai passar nos Coachella, Bonnaroo e outros grandes festivais.

O Consequence of Sound apresenta, em resposta ao artigo do New York Times, algumas razões pelas quais vá continuar a ir ao Coachella (e ao Bonnaroo). O blogue de música aponta que talvez sejam os críticos que têm de ajustar a sua cobertura ao novo contexto, em que “a música já não está sempre na frente da experiência festivaleira”. O CoS lembra que há experiências em palco e no recinto que só os grandes festivais conseguem oferecer e que “cobrir um festival não é apenas reportar os artistas e as suas performances – é observar como o público reage às actuações”.

A conceituada publicação, que avançou em primeira mão o regresso dos LCD Soundsystem aos palcos, refere ainda que os grandes festivais permitem ouvir vários géneros musicais distintos e observar a relação do público a cada um deles (“saltara de Ellie Goulding para Savages pode parecer um salto quântico, mas é um salto que muitos fãs de música fazem todos os dias nos seus auscultadores”), assim como descobrir pequenos nomes no circuito mainstream dos line-ups.

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