‘The Prophet’: o filme de animação que tinha dinheiro a mais para a produção


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O filme The Prophet estreou em Portugal, numa sessão única, dois anos depois do seu lançamento, em 2014. A ocasião fez parte do cartaz do Monstra — Festival de Animação de Lisboa e teve lugar na sala principal do cinema São Jorge, que quase encheu de gente para ver cinema de animação. The Prophet é a adaptação de uma obra literária homónima, escrita por Kahlil Gibran em 1923 e que continua a cativar público até aos nossos dias.

Realizado por Roger Allers, um dos responsáveis por The Lion King, e produzido por Selma Hayek, The Prophet reúne uma equipa de nove animadores. São eles: Paul e Gaëtan Brizzi, Joan C. Gratz, Mohammed Saeed Harib, Tomm Moore, Nina Paley, Bill Plympton, Joann Sfar e Michal Socha.

Um desses animadores — Bill Plympton — abriu a sessão contando a história de como foi convidado para participar no filme. Segundo Plympton, os responsáveis pela produção abordaram-no com um argumento irrecusável, que o animador norte-americano nunca tinha ouvido nem nunca voltou a escutar na sua carreira: “Temos dinheiro a mais para fazer este filme.” Assim se compreende a tamanha equipa de animadores de topo concentrada numa única longa-metragem.

No entanto, o principal problema do filme está associado a esse aspecto. A narrativa central de The Prophet, construída num estilo de animação muito familiar das produções Disney, acompanha a libertação do poeta, pintor e ativista Mustafa, cujas palavras encantam e alimentam o espírito daqueles que param para as ouvir. Sempre que Mustafa entra num registo declamativo, a sua poesia é animada com trabalho de um dos nomes anteriormente referidos. De certa maneira, a adaptação da obra de Gibran é uma longa-metragem dentro da qual existem várias curtas-metragens com técnicas de animação completamente diferentes.

Essa opção criativa enriquece o filme, que durante cerca de hora e meia leva o público por diferentes registos de animação, mas custa-lhe a sua unidade. The Prophet acaba por ser um mosaico em que a soma das partes, todas eximiamente animadas, não favorece o resultado final. Apesar da mensagem intemporal da obra de Gibran, que não deixa de estar presente em The Prophet, e da beleza das palavras de Mustafa, facilmente caímos numa rotina. Muito da experiência do filme acaba por se esvair na previsibilidade de a animação central dar lugar, por instantes, a um outro registo completamente diferente.

The Prophet não deixa de ser uma experiência interessante tanto pela oportunidade de levar a obra do escritor libanês a novos públicos quanto pelo leque de talentos tão diversificado que convoca. Mas enquanto filme não consegue ultrapassar a quebra de ritmo que essa opção traz na forma como foi implementada nem dissolver as marcas de que estamos perante uma coleção de elementos completamente distintos e não um todo. Talvez a habitual dificuldade na obtenção de recursos para o cinema de animação, a que Bill Plympton indiretamente se referia no início da sessão de cinema, tivesse motivado soluções diferentes e, consequentemente, um filme melhor.

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