A ‘Aurora’ da Criatura fez tremer o chão na Casa do Alentejo


Na Rua das Portas de Santo Antão, onde também habita o Coliseu dos Recreios, deu-se um concerto tradicionalmente português, criado por gente jovem. O projecto é a Criatura, que veio apresentar o seu primeiro disco, Aurora à Casa do Alentejo.

Espetáculo marcado para as 22h00 mas que só teve início pelas 23 horas, para dar tempo para a sala encher. E foi mesmo isso que aconteceu, sala cheia, com um público heterogéneo e que, no entanto, partilhava do mesmo sentimento: o de pertença. É isso que é a Criatura, para além dos 11 músicos e do Grupo Coral e Etnográfico da Casa do Povo de Serpa, também é Criatura quem a ouve e quem a vê.

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Enquanto a espera se alongava, metade do público sentava-se no chão e assim se manteve no início do concerto, quando se fez soar a voz de Napoleão Mira a introduzir o público à Aurora. Surgem então os músicos e dá-se o início de “A Primeira”. Assobios, sons de ovelha, tudo o que a sonoridade campestre emana, fizeram-se sentir nos cristais do salão da Casa do Alentejo.

Ainda que com alguns problemas sonoros, nada parou o que se seguia, sendo que o set respeitou de certa forma a sequência do álbum. Isto quer dizer que a música que se seguiu foi “Filhe”, um verdadeiro hino aos filhos do Algarve, estes que marcaram presença em peso e que são inteiramente representados pelos versos “e voltar sempre a casa p’ra comer, / e voltar sempre a casa p’ra crescer.”

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Ao soar, mais uma vez, dos sons campestres, desta vez acompanhados da flauta, fez-se adivinhar o início do “Pastor Sem Cajado” que, para além de single, é uma canção de protesto, marcada por uma transição rítmica em jeito de imposição da palavra que “Ninguém ouve.”

Com o terminar da tempestade, vem a calma, ou talvez o centro do ciclope, cujo som produzido vem da guitarra portuguesa de Acácio Barbosa, “o português mais português de Portugal” e que aprendeu a tocar este instrumento especialmente para a Criatura. O seu auge dá-se no início da música “Aurora”, que se prolongou até à entrada do Grupo Coral, dando início à segunda parte da faixa.

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Com isto, todo o público se sentiu envolvido na bolha que é a aura da Criatura, abrindo espaço para duas canções do Grupo Coral. O cantar alentejano tomou o palco a solo, deixando até os membros do grupo deliciados.

O resto do concerto, foi marcado pela continuação do álbum, passando pela “Moda Nova”, “Menina da Paz”, “Tempo” e “Algarviada” – que teve direito a duas piadas do baixista, Paulinho – e ainda a interpretação de duas músicas, que não constam na Aurora, “Bem Bonda” e “Praxe”.

Conclusão? Foi um concerto memorável, com alguns problemas no sistema de som, que não impediram a banda de fazer algo maravilhoso e inesquecível.

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Fotos de: Guilherme Braz/Shifter