Bulgária investiga “caçadores” de refugiados


Graças à reacção mediática da opinião pública e dos media, um vídeo de refugiados a serem maltratados e em condições animalescas na Europa não foi apenas mais um vídeo. O governo da Bulgária foi obrigado a agir em conformidade e condenou os actos de perseguição e de violência que muitos refugiados têm sido alvo no país, anunciando a abertura de um processo judicial.

No vídeo podemos ver um conjunto de refugiados amarrados, deitados no chão ouvindo expressões como “Bulgária, não, voltem para a Turquia!”. Estes actos têm ocorrido frequentemente ao longo dos últimos meses, elaborados por grupos xenófobos e extremistas. O modus operandi destas pessoas parece ser muito simples: começam por esperar os refugiados que alcancem o Sul da Bulgária através da Turquia, saqueando-os, impedindo-os de continuar a sua viagem. Depois entregam-nos às autoridades legais da Bulgária ou decidem obrigá-los a voltar à Turquia sem os seus bens. De entre estes sujeitos europeus vistos como “heróis”, está uma antiga estrela do wrestling, Dinko Valev que tem exposto com orgulho os seus actos, apelidando os refugiados de serem “repugnantes e más pessoas”, numa recente entrevista à BBC.

O executivo búlgaro, na pessoa do Primeiro-Ministro Borissov, expressou o seu agradecimento a estes cidadãos, num claro sentimento de dever patriótico. Mais do que anuência, existiu um incentivo explícito das chefias em relação a estas actividades. As tomadas de posições coniventes com a situação não foram exclusivas do poder eleito pelo povo búlgaro, também o chefe da polícia fronteiriça, Antonio Angelov, a propósito da detenção de 23 refugiados, apoiou o trabalho destes “vigilantes”. Diz ele em declarações à televisão búlgara Nova TV, que nem sempre os refugiados são calmos como aqueles que acabara de deter.

As organizações de defesa dos direitos humanos não demoraram a reagir e contestaram a postura do chefe de Estado. Após a divulgação do vídeo, os protestos subiram de tom, e o chefe do executivo rapidamente veio a público lamentar a interpretação errada que a opinião pública fizera das suas palavras. Margarita Ilieva, vice-presidente da associação de defesa dos direitos humanos, Bulgarian Helsinki Committee, disse ao Guardian que Borissov devia ser preso devido às suas afirmações que incentivaram “à violência e à discriminação baseadas na raça, etnia ou nacionalidade”.

Voltando às consequências do vídeo, foi aberta uma investigação a estes sujeitos, tendo já levado à detenção do responsável pelas divulgação das imagens. Outros membros destes grupos estarão também a ser investigados segundo dados da procuradoria búlgara à Agencia France-Press. O procurador-geral búlgaro vincou a sua posição à AFP criticando duramente estes actos e os autores dos mesmos, sobretudo numa lógica de substituição indevida e legitimada das funções das forças de autoridade.

Devido ao acordo UE- Turquia e ao fecho de fronteiras nos Balcãs, o número de migrantes a chegar à Bulgária tem diminuído. Além da tomada de posição política, a Bulgária tem investido num reforço militar, ocupando com mais homens, as fronteiras com a Macedónia e com a Grécia, prologando também a barreira que separa o país da Turquia por via terrestre.

Em 2015, chegaram à Bulgária mais de 30 mil pessoas detectadas. Este número poderá ser aumentado face às que não foram rastreadas pelas autoridades. Os refugiados rumam à Europa em busca de uma vida. Uma vida sem guerra, sem violência, sem abuso de autoridade. A nós Europeus nunca é demais repetir, sejamos búlgaros ou portugueses.

Texto de: Rui Sousa
Editado por: Mário Rui André