‘Capitão Fausto Têm os Dias Contados’: um ensaio sobre foleirice


Estão a ver as chamadas dad jokes? Aquelas saídas tão foleiras que nós nem acreditamos que o senhor nosso pai teve coragem de as dizer. A verdade é que resultam. Uma piada que parecia ter todos os ingredientes para ser causticada acabou por trazer gargalhadas à mesa. E resultam porque são ditas com convicção, sem medo de críticas. Os pais não temem momentos constrangedores, os pais não consideram sequer a hipótese de retaliação, até porque ela nunca vai existir. A confiança que eles têm naquilo que são e naquilo que dizem é tão elevada que não deixa espaço a nada que não seja o sucesso.

Enquanto ouço uma e outra vez Capitão Fausto Têm os Dias Contados percebo que os lisboetas já-não-tão-putos-assim nunca estiveram tão próximos de serem pais. Gazela foi o típico primeiro álbum, um aglomerado bastante orgânico de musicas feitas ao longo de muito tempo, condensadas num álbum bastante promissor. Em Pesar o Sol, a banda partiu para um retiro exorcista, com espaço para todos os devaneios instrumentais e conceptuais que sentiam que eram capazes de vomitar. Mas ao ouvir as oito faixas do terceiro álbum de estúdio de Tomás Wallestein, Manuel Palha, Francisco Ferreira, Domingos Coimbra e Salvador Seabra, sinto que os Capitão Fausto deram um passo de gigante na aproximação àquilo que são. Algo que só foi possível porque se embrenham nesta descoberta sem medos e preconceitos.

A banda já era conhecida pelos instrumentais interessantes e agora evoluem no sentido de se estabelecerem como bons fazedores de canções. Nunca as letras cantadas pelo Tomás – sempre orbitando em volta do final da adolescência, seja ela a musical ou a da idade  – foram tão audíveis e soaram tão honestas como neste disco e mesmo o processo da composição instrumental parece ter sido repensado. Este é um álbum marcadamente pop, onde todos os instrumentos têm o seu espaço e caminho traçado, e dele pouco se desviam. Impera sobre a libertinagem melódica, a sobreposição de instrumentos e tonalidades variadas, oferecendo mais ingredientes a melodias barrocas cuidadosamente concebidas. O espaço que era antes ocupado por guitarras cortantes ou sintetizadores rijos está agora disponível para a entrada em cena de uma secção de cordas e sopros, bem como um cardápio de teclados requintados.

Esta abordagem que procura insistentemente embelezar e oferecer um pouco mais de complexidade e elegância à musica pop é uma demanda traiçoeira, que pode facilmente perder-se na foleirice do exagero e do desnecessário. É reminiscente de Beatles, Brian Wilson, Supertramp, que sempre conseguiram cobrir a simplicidade e honestidade de uma boa canção pop com arranjos ambiciosos ou, mais recentemente, algo presenciado no azeite delicioso que é o último álbum de Kevin Parker – pop gourmet, como lhe chamaria um amigo meu.

Como poderiam os Capitão Fausto arriscar aventurar-se nesta jornada de compor um bom álbum de pop sinfónico, algo que muitos tentam alcançar, mas poucos conseguem? Só o poderiam fazer de uma forma: acreditando que seriam capazes de tal proeza. Mostrando confiança no seu gosto para os guiar, permitindo que os seus ouvidos preponderassem sobre a razão – até porque, mesmo que seja muitas vezes esquecido, em matéria de música, quem tem razão são sempre os ouvidos – e sendo totalmente honestos com aquilo que queriam passar para nós. E os Capitão Fausto confiaram neles mesmos, o resultado são trinta e dois minutos polidos de canções incomuns, simples (não básicas) mas acima de tudo, belas. Oito canções repletas de pirosadas e lamechices tocadas e cantadas com uma honestidade e falta de vergonha que é sentida por quem quer que as ouça e que desarma qualquer tipo de censura, tal como se sucede com as dad jokes referidas anteriormente.

Os Capitão Fausto gozam de uma aura que parece proteger qualquer coisa que façam. Dá a sensação que mesmo um álbum mau por parte da banda lisboeta poderá ser salvo de alguma forma. A verdade é que isso ainda não aconteceu. Os Capitão Fausto continuam a melhorar e em Capitão Fausto Têm os Dias Contados fazem uso do crédito que já mereceram para nos relembrar a todos que não há nada mais foleiro do que ter medo de ser foleiro. Eles não têm medo nenhum de ser foleiros. E, por isso, não o são.