Deftones – ‘Gore’


Quando és puto e estás a dar os primeiros passos no mundo da música, facilmente ficas surpreendido quando alguém te mostra uma banda. Tudo soa bem, tudo “é do caralho”. Depois exploras, perguntas, conheces e percebes que há mil coisas “iguais” às que acabaste de ouvir. Lado positivo: ficas mais exigente. Chegas à conclusão que um bom álbum é diferente de uma boa banda.

Deftones é uma boa banda, das que mais curtia em puto. Têm conseguido se afirmar e reinventar álbum após álbum, sem perder aquele som tão próprio que já lhes reconhecemos. Sabes quando soa a Deftones, e soa tão bem no novo disco.

Gore é oitavo disco de Chino Moreno e companhia, e não podia ter chegado em melhor altura. Num momento em que o rock com que crescemos está meio morto, vazio e às vezes demasiado perfeito, o novo LP dos Deftones transpira vida. Está cheio de força e vontade. Diamond Eyes e Ko No Yokan são bons álbuns, sem dúvida, mas Gore é certamente o disco mais cativante e viciante desde o White Pony.

Produzido por Matt Hyde, o disco abre e bem com o single “Prayer/Triangles”. As linhas de guitarra deixam-te à deriva desde o primeiro minuto e depois, refrão após refrão, Carpenter agarra-te de uma forma incrível com riffs energéticos. E a partir daqui, a dualidade entre Chino e Carpenter é uma delícia. As malhas surgem naturalmente e quando sentes o lado mais experimental e atmosférico do Chino (influências que já temos ouvido em projetos paralelos: Palms, Crosses e Team Sleep), Carpenter não fica atrás e responde com à bruta, com os riffs que há muito já nos habituou.

E se já vão alguns anos de saudades de Chi Cheng, baixista fundador falecido em 2013 depois do coma, à entrada de “Doomed User” percebes que o seu legado está bem protegido. A força com que o baixo entra, faz-te acordar e perceber que estes meninos não estão para brincadeiras. Ainda mais à frente no disco, vais ter aquele momento de déjà-vu na “Hearts/Wires”, que soa tão bem e perfeita, tal como a “Change (In The House of Flies)” em 2000 no White Pony.

Os Deftones já andam por cá há algum tempo, 20 anos. Atravessaram alguns desafios internos, e não é novidade que Chino e Carpenter têm as suas picardias criativas, mesmo na construção de Gore. Mas se for assim amigos, matem-se em estúdio, porque o resultado não podia soar melhor.

Destaques: “Prayer / Triangles”; “Doomed User”; “Hearts/Wires”