IndieLisboa 2016: ‘The Family’


The Family é um dos pontos altos deste IndieLisboa. A sua duração (aproximadamente quatro horas e meia) opõe-se à timidez com que porventura sobressai no cartaz  do festival. Naquela que é a estreia de Shumin Liu na realização, o património cultural e social oriental é contado numa história com ligações transversais à de Viagem a Tóquio do japonês Yasujiro Ozu. No filme acompanhamos três gerações de uma família convencional chinesa que vive sob a sombra da sua própria normalidade.

Como refere um dos personagens logo no início, “tempo é o que não me falta”. É sob esta premissa, como se de um aviso se tratasse, que somos convidados a observar a existência de uma família de classe média na China, com lutas diárias tão normais quanto as nossas.

O casal de idosos Liu Lijie e Deng Shoufang são omnipresentes em quase todas as circunstâncias do filme, funcionando como fio condutor de narrativa com prestações repletas de naturalidade. Vivendo das suas boas reformas, Liu e Deng vivem ainda com a sua filha mais nova Liqin (Huang Liqin), uma professora de inglês e mãe de um filho, que ainda luta por conseguir a sua independência e um relacionamento estável.

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Em busca de ajuda financeira para poderem comprar um apartamento maior e decorá-lo, visitam os seus dois outros filhos, Xiaoumin e Xunju, ambos já casados e a viver em Fuzhou e Shangai respectivamente.

É nos momentos de convívio proporcionados por essas duas visitas que, sobretudo à mesa e entre família, a falta de comunicação entre gerações salta à vista. Os pequenos conflitos familiares, a falta de laços existente e conversas banais de dia-a-dia serão momentos normais ressalvados por Shumin Liu que fomenta esses espaços e momentos. Tal como toda a longa-metragem, esses momentos são-nos mostrados através de planos maioritariamente estáticos e contemplativos, dentro e fora do lar, tornando-nos assim, espectadores, quase na pele de um voyeur.

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Só actores não profissionais poderiam fazer parte deste filme e dar-lhe a riqueza de naturalidade nas personagens que estas emanam. Em The Family não há interpretações, há vivências e uma vida a ser falada. Há também, por consequência, uma “família” que é um pouco como a de quem assiste ao filme. O argumento e direcção de actores de Shumin Liu muito contribuíram para este realismo/esta não-teatralidade que se pode sentir no filme, em que as personsagens absorvem algumas das particularidades dos respectivos actores.

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Uma ode à normalidade em que a duração convencional de uma longa-metragem é negada de forma propositada. É também na excessividade desse tempo que o filme acaba inevitavelmente por desgastar quem o vê com planos desnecessariamente longos não poucas das vezes (não sem através disso deixar de passar a sua mensagem). O sumo, esse, está lá todo e na qualidade faz deste um dos conteúdos mais interessantes que o IndieLisboa deste ano tem para oferecer.