IndieLisboa 2016: ‘The Witch’


A estreia em Portugal de The Witch era porventura um dos momentos mais esperados de todo IndieLisboa. A antecipação que rodeava a sua exibição não era para menos já que seu realizador, entusiasta de contos de terror, ganhou o prémio de Melhor Realização no último Sundance. Num género tantas vezes injustiçado como o de “terror”, o entusiasmo em torno da primeira longa-metragem de Robert Eggers teve, ainda assim, o condão de superar as expectativas.

Em The Witch acompanhamos uma família recém chegada a Nova Inglaterra, após ter sido expulsa da sua comunidade puritana em Inglaterra. O filme situa-se no ano de 1630, anos antes do julgamento das Bruxas de Salem. Uma época de fanatismo e fervor religioso, em que as histórias do supersticioso e a crença por forças sobrenaturais fazem parte da existência humana, pesarosa em fugir ao pecado.

Com uma realização metódica, de luz (ou falta dela) natural, o realismo sobressai e embrenha-nos numa história “simples” mas repleta de simbolismos (a maior parte animais). É numa atmosfera criada pelos tons escuros, carregados e nevoentos que o filme ganha dimensão e nos absorve até à tela.

Simultaneamente, nas paisagens estranhas – que não dão o sentimento de lar criando um desconforto na família (e em nós, espectadores) – sobressaem as interpretações sóbrias dos actores mais velhos (os pais interpretados por Kate Dickie e Ralph Ineson) e das convincentes performances por parte dos actores mais jovens que acabam por conduzir toda a narrativa. Em destaque acaba obviamente por estar a interpretação da jovem Anya Taylor-Joy como Thomasin, a filha mais velha.

Os jump-scares fáceis tantas vezes repetidos no género dão aqui lugar a uma meticulosa realização atenta ao detalhe. Na linha de Babadook, filme de 2014, The Witch é dos melhores filmes vindo dentro do género nos últimos anos (It Follows é outro, mas num registo diferente). Um filme que se recusa a dar espaço ao susto barato e sem substância, optando por que essa mesma substância traga o impalpável de desconforto e inquietação, mais duradouro e frustrante pelo carácter incontrolável que tem.

Mais do que isso, The Witch consegue com estilo e qualidade trazer de volta as histórias de bruxas. O estilo quase meditativo e atmosférico de filmagem por parte de Robert Eggers é uma saudosa chegada ao género de terror.