No Westway LAB 2016 discutiu-se, pensou-se e ouviu-se música (da boa!)


Estivemos no último dia do Westway LAB, um festival de base criativa com residência em Guimarães, onde a música foi durante três dias inteiros o centro de todas as atenções, não só para ser ouvida, mas também para ser pensada. Um evento onde músicos, managers e editoras tiveram a oportunidade de trocar ideias e impressões com outros profissionais da área, tanto a nível nacional como internacional, nomeadamente sobre os desafios que a indústria enfrenta actualmente e perspectivas futuras para quem faz ou quer fazer desta área sua profissão.

Esta foi a 3ª edição de um festival repleto de showcases, talks e conferências, sendo o único evento em Portugal ligado à rede ETEP – European Talent Exchange Programme, e contou com uma programação mais cultural, mais aberta ao público em geral, e outra mais profissional, com debates muito pertinentes e que acrescentaram muito valor a quem esteve presente. É com esta última vertente que começamos o nosso roteiro ao entrarmos no Palácio Vila Flor.

Pelo final da manhã, Pedro Azevedo, promotor do Musicbox, apresentou o projecto LiveEurope, que gerou um discussão interessantíssima sobre esta plataforma. O objectivo é simples: dar a conhecer bandas emergentes europeias. O projecto apoia a programação de vários locais de concertos pela Europa com o objectivo de promover novos artistas europeus, ajudando-os a chegar a mais pessoas. É uma espécie de banco de bandas que funciona à base da referenciação e endorsement, tendo promovido já mais de 300 artistas/bandas por 13 espaços distintos, espalhados por vários países europeus. Espaços como o Village Underground, em Londres, ou o “nosso” Musicbox, em Lisboa.

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Pedro Azevedo, explicou o caso português e o do Musicbox, esclarecendo que é necessário ter actuações portuguesas nos eventos que trazem estas bandas dos outros cantos da Europa, mesmo sendo de entrada gratuita, para conseguir preencher uma sala que tem uma capacidade de 280 pessoas. Esses eventos são as noites Sortido, o olhar periódico do Musicbox sobre as bandas emergentes europeias com o apoio do projecto Liveurope. Quanto mais projectos, mais apoio financeiro, o que contribui para que se possa arriscar mais em termos de programação (e mesmo promoção), não estando dependentes unicamente da bilheteira, podendo apresentar grupos que dificilmente alguma vez tocariam em Lisboa.

Após o almoço, tivemos a oportunidade de ouvir Helen Smith, Presidente Executiva e Secretária Geral da IMPALA, a Associação Europeia de Companhias Independentes de Música, com sede em Bruxelas, que celebrou 15 anos de actividade. Em formato de entrevista, Helen falou sobre o significado destes 15 anos, sobre o seu percurso, explorando o passado mas também o seu futuro, antevendo novos projectos para a IMPALA, que actualmente já conta com mais de 4 mil membros/associados, incluindo a AMAEI (Associação de Músicos Artistas e Editoras Independentes), associação que procura organizar, apoiar, reforçar e promover todo o sector da música independente nacional, e que constituía grande parte da plateia desta sessão no âmbito das Conferências PRO.

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A principal missão da IMPALA é fazer crescer o sector da música independente (sendo responsável por 80% dos lançamentos), promover a diversidade cultural e empreendedorismo cultural, e melhorar as políticas comerciais e promocionais. O trabalho de Helen Smith tem sido incansável e, mais recentemente, desenvolveu um Plano de Acção Digital, com a missão de promover o Mercado Digital Único Europeu através da cultura.

Em jeito de comemoração, uma das iniciativas que a IMPALA está a realizar este ano tem o nome “FiveUnderFifteen”, que tem como propósito apresentar a cada mês cinco empresas do ramo musical, com idades similares ou inferiores relativamente à IMPALA.

Uma novidade para a edição deste ano do Westway LAB foi o GIGMIT Stage. O Centro Cultural Vila Flor foi invadido durante a tarde por 3 bandas seleccionadas na sequência de uma iniciativa à qual responderam mais de 200 bandas à volta do mundo. A open call deu-lhes oportunidade de actuar ao vivo e assim mostrar a sua música ao público e profissionais da área.

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E que bem-vinda foi esta novidade. Três estilos distintos que promoveram uma tarde de boa música e descontracção no Café-Concerto do CCVF, num espaço de convívio e fruição cultural. Começando com o indie folk dos Sleepwalker’s Station, apresentado em versão one man show, dominada por loops, a sonoridade fez lembrar um Damien Rice menos intenso mas que soube agarrar a plateia com a sua simpatia e interacção que, apesar de tímida, foi conquistando pouco a pouco todos os que lá estavam presentes, conseguindo mesmo arrancar pequenos coros entre os mesmos.

De seguida surgiu Suzie Stapleton apenas acompanhada de uma guitarra e coisas mágicas aconteceram. Com solos electrizantes e uma voz grave, rouca, cheia de intensidade e personalidade, transpirou rock da cabeça aos pés. Recheada de músicas dramáticas e melancólicas, Stapleton chama a atenção pela sua irreverência, quase que como um sentimento de indiferença ou abstracção em relação ao público que está à sua frente. Sente cada nota estando constantemente de costas viradas como se estivesse numa relação intimista com cada solo de guitarra que produz em palco. Sem dúvida um nome para se estar atento e que se enquadrava tão bem num fim de tarde de calor, de copo na mão, em pleno Paredes de Coura.

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Com os Fortnight in Florida, os únicos em formato banda, entrámos numa onda mais dance music, onde o funk foi dono e senhor de um final de tarde em que se já notava uma audiência mais dispersa. Mas quem resistiu até ao fim certamente não saiu desiludido e muito menos conseguiu permanecer imóvel na sua cadeira, onde a vontade de abanar a cabeça ou sentir cada batida era perceptível e irresistível. A cada final de música sentia-se o entusiasmo das boas sensações que o trio trouxe de Londres.

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Chegada a noite, o festival terminou com um leque de concertos electrizantes em clima de pura festa onde a competência foi palavra de ordem. Rui Carvalho foi um verdadeiro Filho da Mãe. De registos melodiosos a incursões mais intempestivas e desenfreadas, a sua actuação foi verdadeiramente memorável. Em apenas 40 minutos transcendeu dimensões e desbravou a guitarra acústica de uma forma quase sobre-humana. Num pequeno auditório que nem metade do espaço estava ocupado, as pouco mais de 30 pessoas entraram num universo singular, num exercício de cubismo sónico, onde Rui Carvalho fazia o que queria com cada corda da sua guitarra. Terminado a actuação, o público aplaudiu, pediu mais, esperou com entusiasmo, mas nada feito. O programa tinha de ser cumprido e os concertos seguiam-se no grande auditório do magnífico CCVF (Centro Cultural de Vila Flor), uma obra arquitectónica que deve ser motivo de orgulho para a cidade de Guimarães.

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Pouco passava das 22h30 quando entrava em palco uma das grandes atracções do festival. Perante uma plateia bem composta (embora longe de lotar o espaço), os MY BABY, banda proveniente da Holanda, foram verdadeiros anfitriões de uma festa onde viajámos por uma mistura de géneros musicais, com um som potente e electrizante, que tem a capacidade de fazer mexer qualquer um. Este trio hipnótico com um estilo voodoo, quase extravagante, é verdadeiramente energético, não dando tempo para respirar ou parar de dançar. Vale a pena destacar o impressionante alcance vocal da vocalista Cato van Dijck.

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Coube aos PAUS darem por concluída a noite no grande auditório do CCVF. O quarteto constituído por Fábio Jevelim, Hélio Morais, Joaquim Albergaria e Makoto Yagyu nunca decepciona e incendiaram o palco com a sua força rítmica liderada pela inconfundível bateria siamesa (ainda que agora se note um equilíbrio maior com a guitarra e teclas) numa descarga sonora esmagadora, imprópria para cardíacos. Os restantes agradecem e nós queremos mais destas explosões sonoras.

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O Westway LAB encerrou a sua 3ª edição com um live act de Rui Maia (o primeiro de um conjunto de datas já anunciadas), que conhecemos como um dos elementos da banda X‐Wife e do projecto Mirror People. Infelizmente não pudemos estar presentes naquela que seria a apresentação do álbum Fractured Music.

Foi de facto um dia onde se discutiu, se pensou e se ouviu música. Este não é um festival para massas e ainda bem que assim é. O Westway LAB assenta fundamentalmente no estímulo à exploração, à criatividade, na vontade de quebrar padrões, e na troca de experiências. Certamente voltaremos a Guimarães para mais deste epicentro de criação musical.

Fotos de: Maria Campilho/Shifter