Prince, o artista que era “músico e música”


O mundo está mais pobre. 2016 tem sido um ano excessivamente triste para a história da música. Em poucos meses, deixaram-nos dois dos artistas mais camaleónicos do mundo. Depois de David Bowie,  Prince. A melhor forma de homenagear um dos maiores ícones musicais de todos os tempos é ouvindo a sua imensa obra. Um performer de inúmeros talentos com uma irreverência e extravagância particular que o definiram ao longo de gerações.

Durante a sua carreira lançou um total de 39 álbuns de estúdio. Para se ter noção, depois de editar em 1978 o seu disco de estreia For You, nos 13 anos seguintes deu vida a exactamente 13 novos álbuns. Tinha a reputação de ser workaholic, seja na suas próprias músicas ou na produção para outros artistas, o que leva a crer que nos próximos anos podemos vir a ser surpreendidos com muito material original do cantor. O compositor Brent Fischer, que trabalhou com Prince nos últimos 30 anos, estima que 70% das suas colaborações ainda não tenham visto luz do dia, estando possivelmente guardadas na cave do cantor em Paisley Park.

Era realmente músico a tempo inteiro, um perfeccionista. Como dizia, “sou músico. E sou música.” Escrevia, compunha, produzia e tocava todos os instrumentos nos seus álbuns. Durante os seus 40 anos de carreira, a sua música misturou diversos géneros musicais desde o Funk, R&B, Soul, New Wave, do Pop ao Jazz, Rock e Hip Hop. Ao vivo fazia da suas actuações um verdadeiro espectáculo, não só musical mas também performativo, onde a dança se destacava por entre tanta versatilidade. Chegou a ser considerado o 33º melhor guitarrista de todos os tempos pela revista norte-americana Rolling Stone.

O seu último trabalho HITnRUN Phase One foi lançado em Setembro de 2015 em exclusivo para o Tidal, dias antes do lançamento tradicional em CD pela NPG Records. Aliás, o cantor e compositor era um ávido crítico das editoras, tendo por exemplo, nos anos 90, escrito a palavra “escravo” na sua bochecha em forma de protesto contra as condições contratuais da editora Warner. “Contratos de gravação são como — vou dizer a palavra — escravatura”, afirmou.

Às editoras, junta-se a desconfiança geral pelas redes sociais e serviços de streaming. Em 2014, fez manchetes quando abandonou a Internet. Apagou as contas no Facebook, Twitter e Youtube, e mandou retirar todos os seus álbuns do Spotify. No final do ano, fez as pazes com a web, reactivou as contas que tinha nas redes sociais e criou uma no Instagram, onde era particularmente activo. Manteve-se longe do YouTube e Spotify, revoltando-se por não pagarem taxas de licenciamento que considerasse justas, ficou-se pelo Tidal, e talvez por isso quando quiseste prestar-lhe homenagem com a partilha de vídeos não tenhas tido grande sucesso. 

Prince vendeu mais de 100 milhões de discos e 60 milhões de singles pelo mundo inteiro, fazendo dele um dos artistas mais vendidos de todos os tempos. Durante a sua carreira, arrecadou 7 Grammys, um Globo de Ouro e um Óscar de Melhor Música em 1985 pelo seu maior êxito “Purple Rain”, que também deu nome ao álbum que a Rolling Stone considerou o 76º de entre os 500 melhores álbuns de sempre. Foi o primeiro artista a conseguir ter o seu trabalho no primeiro lugar dos tops do EUA, quer em álbum, single ou em filme. Na década de 80 tornou-se até um hábito haver sempre trabalhos do artista presentes nas primeiras posições de todas as listas de melhores músicas ou álbuns do mundo.

Fez várias colaborações e covers de outros artistas, um dos mais marcantes de sempre foi o de “Creep” de Radiohead, que tão bem lhe assentou. Além das músicas cantadas por si, Prince assinou várias canções que provavelmente conheces e não sabias que tinham o seu dedo. Algumas delas são “Manic Monday” das Bangles ou “Nothing Compares To You” com a interpretação famosa de Sinead O’Conner. Outras são “I Feel For You” pela voz de Shaka Khan ou “How Come You Don’t Call Me”, que além de interpretada por si em The Hits/The B-Sides, teve direito a várias versões e reedições, talvez a mais reconhecida seja a de Alicia Keys.

Actuou pela primeira vez em Portugal a 15 de Agosto de 1993 no antigo Estádio José Alvalade, voltou ao Pavilhão Atlântico a 15 de Dezembro de 1998. Vários anos depois, regressou para um dos concertos mais memoráveis do verão de 2010, no festival Super Bock Super Rock, no Meco. Recentemente tinha actuado na Austrália e Nova Zelândia, onde se apresentou em palco apenas com um piano, num formato mais acústico afirmando que procurava um novo desafio artístico.

Não só na música mas na vida, Prince foi um dos artistas que mais lutou pela aceitação da diferença. Com um estilo peculiar, com roupas e penteados, cores e alma extravagantes, tantas vezes andrógino, ficou também conhecido por dizer: “Eu não sou uma mulher, eu não sou um homem. Eu sou algo que tu nunca vais entender.” Uma estrela pop na verdadeira ascensão da palavra, pela mudança astral que fez na música popular.

Na senda das citações, Prince disse uma vez que “a vida é só uma festa e as festas não foram feitas para durar.” A sua vai durar para sempre, através da sua obra e legado. 21 de Abril de 2016 é o dia em que o céu se pintou de roxo. Mas porque “há sempre um arco-íris no final de cada chuva”quando chover não serão lágrimas de tristeza. Serão lágrimas de gratidão.