The Panama Papers: leak de informação põe a descoberto milhares de operações offshore


11 milhões e meio é o número que corresponde à quantidade de ficheiros leakados dos registos da Mossack Fonseca, uma empresa com sede no Panamá que durante anos tem oferecido serviços que agilizam o estabelecimento de offshores. Os documentos revelam uma lista de clientes conhecidos e influentes nas mais diversas áreas mas é em torno das ligações a figuras do mundo político que se tem gerado o maior debate.

Das análises levadas a cabo pelo Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação e centenas de outros meios de comunicação social com quem foram partilhados os documentos, um dos quais o Expresso, revelam-se esquemas associados a figuras como Vladimir Putin, presidente da Rússia; Petro Poroshenko, presidente da Ucrânia; Nawaz Sharif, primeiro ministro do Paquistão; Sigmundur Davíð Gunnlaugsson, primeiro ministro da Islândia. Na lista de clientes da Mossack Fonseca contam-se também artistas de cinema como Jackie Chan, desportistas como Leonel Messi e 29 magnatas da famosa lista das 500 pessoas mais ricas do mundo elaborada pela Forbes. Idalécio de Castro Rodrigues de Oliveira é o único português referido nos documentos.

A Mossack Fonseca é a quarta maior empresa no negócio das offshore e apesar de se sediar no Panamá, gere uma operação a nível mundial com escritórios em 42 países. A firma já veio a público esclarecer que está indisponível para discutir qualquer caso particular e defende-se alegando ausência de irregularidades na sua actividade.

Apesar de surgir como escândalo de corrupção, a generalização será uma tirada certamente errada. A alocação de capital para paraísos fiscais é estritamente legal e pode ser feitas sob infinitas razões plausíveis mas, ao mesmo tempo, constitui uma das estratégias mais utilizadas para lavar dinheiro em esquemas de corrupção e operações criminosas de outra natureza que podem, ou não, vir a ser identificadas nas investigações que irão decorrer depois deste leak. A empresa aqui envolvida está também sobre investigação por alegado envolvimento no caso Lava Jato como solução para branqueamento de capitais.

Ainda que os #panamapapers representem uma das maiores fugas de informação da história, há muito mais a revelar no universo das offshores, provavelmente explícito nos documentos revelados que irão ser mantidos confidenciais. Craig Murray, blogger e autor britânico, evidenciava ontem dois pesos e duas medidas nesta operação jornalística que, para ele, se foca na “minoria do dinheiro escondido lá fora com a ajuda da Mossack Fonseca”. Murray critica a ausência de nomes ligados às grandes corporações e fortunas feitas no Ocidente e justifica tudo isso com uma lista de financiadores das operações do Consórcio Internacional dos Jornalistas de Investigação que, segundo as considerações de Murray, fazem parte daquela parcela do universo que não convém deixar a descoberto:

Ford Foundation
Carnegie Endowment
Rockefeller Family Fund
W K Kellogg Foundation
Open Society Foundation (Soros)

Apesar da extensa lista de nomes revelada que evidência associações mais ou menos legítimas aos esquemas de offshore montados pela Mossack Fonseca, os escândalos de corrupção e outros crimes daí derivados que têm sido referenciados por outros meios de comunicação social ainda não se tornaram claros. Há muitos pontos por ligar e as investigações policiais já iniciadas em alguns países trarão novas respostas às questões que as notícias já avançadas nos deixam.