IndieLisboa 2016: ‘L’Avenir’


Com honras de sessão de encerramento da 13ª edição do IndieLisboa, tivemos o visionamento de L’Avenir, última longa metragem de Mia Hansen-Love, homenageada na secção Herói Independente da edição do ano passado do festival. O filme, que valeu à realizadora francesa o Urso de Prata para Melhor Realizadora no Festival de Berlim deste ano, é um inteligente e estimulante drama sobre uma crise de meia idade diferente daquela a que estamos habituados.

O rosto do drama é o da serena e sóbria Isabelle Huppert, actriz que já nos conquistou em obras como La pianiste ou Amour. Isabelle é Nathalie, uma professora de filosofia, escritora, casada há 25 anos, mãe de dois filhos, com uma mãe depressiva e instável.

Nathalie está “presa” no seu comodismo, no conforto de uma relação que dá como garantida, de ter dois filhos inteligentes. O seu pensamento filosófico já não é senão ensinado ou ditado, pondo em causa o seu intelecto e a própria Filosofia, que parece deixar de ser aquilo que é, uma exploração inesgotável de significado.

Subitamente, a zona de conforto de Nathalie é abalada quando o marido quer terminar o casamento para ficar com outra mulher com quem tem mantido um caso extra-conjugal.

É Fabien (Roman Kalinka), ex-aluno de Nathalie e também ele escritor e professor de Filosofia (tema recorrente na obra com referências a vários pensadores como Rousseau, Jankélévitch ou Schopenhauer) que preserva um certo interesse contestatário e anárquico, que perdido pela professora, a fará despertar.

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L’Avenir, em português “O que está para vir”, explora uma insegurança que pode chegar a qualquer momento da nossa vida (como a realizadora tem mostrado noutras obras como em Éden) quando o que damos por garantido é posto em causa e subitamente o futuro passa a ser um enorme ponto de interrogação e um augúrio para incertezas e desconfianças nas nossas capacidades para o aguentarmos.

L’Avenir é um filme habilmente escrito, com conteúdo, sério, sem deixar com isso de explorar ainda assim momentos de maior descontracção (como os segmentos em que a gata Pandora domina o ecrã) necessários tendo em conta a sua carga intelectual. Um filme sobre reaprender a viver, reaprender a lidar consigo mesmo e a voltar a questionar-se com dúvidas tão normais seja em que idade for. O IndieLisboa 2016 dificilmente poderia ter terminado de melhor forma.