IndieLisboa 2016: ‘Love’


As expectativas altas são a principal causa das desilusões. Quando pensamos em Gaspar Noé lembramo-nos de Irreversible e de Enter The Void. Ficamos entusiasmados, mais ainda quando ouvimos dizer que o realizador argentino vai fazer um vídeo chamado Love com muito sexo. Parecia ser a oportunidade de ouro para Noé tentar superar-se e criar uma obra prima, sendo ele alguém que nos habituou a um estilo intenso, violento, visceral. Afinal, não é o Amor tudo isso?

Mais ou menos. Aqui o amor é protagonizado por Murphy (Karl Glusman), um aspirante a realizador frustrado com a vida que leva. Apesar da cena explícita de sexo na abertura do filme, depressa somos levados para o universo desinteressante de Murphy, no dia em que acorda ao lado da mulher (Klara Kristin) e tem no voice mail uma mensagem preocupada da mãe da sua ex-namorada. Electra (Aomi Muyock) está desaparecida há meses e a mãe teme que algo grave lhe tenha acontecido. Murphy não vê Electra há vários anos mas o telefonema desencadeia um sentimento melancólico de saudades. O protagonista passa o dia a relembrar o namoro e daí em diante o filme decorre numa série de flashbacks a uma relação de excessos, promessas, erros e muito sexo.

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Numa espécie de novela mexicana dos dias de hoje, filmada com mais saturação e filtros de Instagram, a história pouco densa perde mais ainda com as interpretações mornas dos três protagonistas. A construção das personagens não ajuda. Noé consegue transparecer o seu génio na cinematografia e nas cenas mais violentas, mas nem Murphy, nem Electra, nem Omi têm carisma ou dimensão suficiente para nos prender a atenção ao ecrã.

Numa certa displicência, como se o sexo fosse substancial o suficiente para dar personalidade às personagens, as cenas explícitas repetem-se. São bonitas e é-lhes dado o tempo e a demora suficiente para as aproximar da realidade (que ultrapassa o 3D), mas são mesmo a única coisa memorável da história.

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Até que nos lembramos que o filme foi realizado por Gaspar Noé e nos chega a ideia das tais expectativas altas. Noé é uma figura-chave no novo movimento transgressor-de-barreiras do cinema extremo-radical-bruto francês. Foi sempre a isso que nos habituou mas em Love nem as cenas de sexo são particularmente transgressoras. Há nudez e não há tentativas de esconder o que na maioria das vezes costuma ser mantido mais secreto, há um encontro com com uma prostituta transsexual mas até aí o sexo parece acanhado. Murphy não consegue parar de parecer desinteressante e se há algo que os seus infindáveis monólogos monótonos o tornam é egoísta, não curioso ou cativante, mas sim egocêntrico. As personagens femininas são lindas mulheres sedutoras que caem constantemente no cliché da namorada instável e da amante traída. Noé parece querer passar-nos a mensagem de que o seu objectivo em Love era abordar a “sexualidade sentimental”, quando, numa cena numa festa, põe Murphy (que é estudante de cinema) a dizer que há poucos filmes desse género. Por mais que queiramos aceitar a proposta, existe La Vie d’Adéle, por exemplo, que entre choro, ranho, homossexualidade e paixão entra nessa categoria sem sequer passar pela casa de partida.

A presença subliminar de Noé no filme é, aliás, outra das constantes. Entre um protagonista que faz todo o seu género, que é estudante de cinema e diz em várias conversas que se interessa pelo estilo mais intenso e extremista da 7ª arte (a certa altura diz que quer fazer filmes sobre “sangue, esperma e lágrimas”), o filho de Murphy e Omi chama-se Gaspar, e o realizador chega a aparecer realmente no filme como um galerista chamado Noé. Terá sido Love uma crise de meia-idade? É certamente um exercício de individualismo e uma tentativa de explorar emoções com sexo, um conceito forte tratado com leviandade nas duas vertentes. A vocação de Noé é fazer amor irracional, descontrolado, não é falar de sentimentalismos tímidos, frouxos.

Love teve ante-estreia em Portugal no IndieLisboa a 24 de Abril. Estreia nos cinemas a 9 de Junho em exclusivo em 3D em Lisboa e no Porto no UCI El Corte Inglés e no UCI Arrábida e em várias salas de todo o país.