IndieLisboa 2016: ‘The Lobster’


O novo filme do grego Yorgos Lanthimos esteve em ante-estreia no último dia do IndieLisboa 2016 e prepara-se agora para estrear oficialmente nas salas portuguesas, a 19 de Maio. O realizador grego tinha já ganho atenção internacional em 2011 quando o seu Dogtooth esteve na corrida para ganhar o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro. Ao contrário do seu último filme, que deixava grande espaço interpretativo à medida que também nos ia revelando o seu mistério, The Lobster prende-nos à tela logo à partida com uma premissa onde o bizarro e o absurdo se unem como o veículo de excelência para uma sátira aos relacionamentos modernos.

O filme volta a ter como pano de fundo um contexto distópico, bem ao estilo do realizador. Nesta tragicomédia melodramática cheia de elegância e subtileza de escrita e performances, os solteiros são vistos como párias para a sociedade. Como tal, são enviados para um hotel onde têm 45 dias para encontrar um parceiro. Caso não consigam, transformar-se-ão num animal à sua escolha após esse período.

Se o caminho trilhado por Lanthimos, co-escrito com Efthymis Filippou com quem Yorgos já tinha colaborado nas duas longas-metragens anteriores, neste surrealismo argumentativo não adivinhasse já algum humor à mistura, rapidamente ele se estabelece e dá o mote para todo o filme quando à chegada ao hotel, David (Colin Farrell), quando lhe perguntam pela sua preferência sexual contrapõe sorumbático com “a opção de bissexual está disponível?”.

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Dentro desse grupo de idiossincráticos infortunados e solteirões que dão entrada no hotel estão, além de David, deixado após doze anos de relacionamento, John C. Reilly e Ben Wishaw num grupo que parece ter nas suas peculiaridades físicas as suas características mais distintivas. Nada mais propositado. Yorgos Lanthimos parece querer de alguma forma dar especial relevo, nesta sua critica social, à “nossa” busca permanente por outro alguém com quem partilhemos os mesmos gostos e características. Os personagens são propositadamente “catalogados” conforme as suas debilidades identificativas. Não somos todos rotulados um pouco pelas nossas subtilezas distintivas? Aqui esse ponto é reforçado pelas vozes narrativas que ao longo do filme nos levam obrigatoriamente a reparar nas mesmas.

A procura de parceiro romântico deixa de ser uma escolha arbitrária (se é que alguma vez o foi) para uma decisão forçada e dependente de atributos semelhantes aos nossos. Para ganharem dias extra na busca por um parceiro podem ir para a floresta caçar “solitários” (pessoas que se recusam por um ou outra razão a arranjar parceiros). Não conseguindo ser compatível com uma parceira, David dá por si a juntar-se ao grupo anárquico de “solitários” liderados pela actriz Léa Seydoux. Mas é aí que encontra uma fabulosa Rachel Weisz e é com ela que, um personagem tão “à parte” de tudo até então, cria laços e mostra finalmente alguma emotividade.

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Tal como nos seus trabalhos anteriores com um condão fortemente satírico, é assinalável a capacidade de Yorgos Lanthimos para reinventar a forma de contar a história, deixando sempre o seu toque inconfundível. Mais uma vez, não há espaço reservado à sanidade e ponderação neste trabalho do realizador que não se coíbe de experimentar novas fórmulas narrativas. Em The Lobster, Lanthimos extravasa o minimalismo das obras anteriores ao desviar-se da atmosfera claustrofóbica criada em ambos para nos inserir com sucesso num tipo de filme distinto, mais ritmado e provocativo (mordaz até) com momentos de humor negro fabulosos. Se antes nunca tivemos a oportunidade de denotar esta veia mais humorística do realizador, ao sermos confrontados com ela conseguimos logo apontar de imediato o seu cunho inconfundível.

Um dos (muitos) pontes fortes do filme é sem dúvida o tímido e pouco atraente personagem de Colin Farrell. De bigode, inseguro e desmazelado na aparência, o actor irlandês desempenha na perfeição o romântico idealista e solitário, desprovido até certo ponto de qualquer prazer pela vida. Uma interpretação assinalável, que não se leva excessivamente a sério e que por isso ganha a nossa simpatia.

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O desdém de Yorgos Lanthimos pelo convencional Hollywoodesco continua a oferecer-nos algumas das obras e conteúdos cinematográficos mais interessantes ao mesmo tempo que nos dá a explorar contextos bizarros que assustadoramente parecem não fugir a uma realidade que é apenas “exagerada”, a fazer lembrar algumas obras de Luís Buñuel. A riqueza de simbolismos escondidos nos gestos sobrepõe-se ao espaço interpretativo deixado em aberto nos filmes anteriores do realizador. Mas essa abertura de interpretações não desaparece por completo, em The Lobster aparece no final. Será o amor realmente cego ou é o que nos rodeia que nos consome na obrigação de arranjar um parceiro “ideal”? Certo é apenas que The Lobster é um outro tipo de “filme romântico” com estilo próprio chamado Yorgos Lanthimos.