O evangelho segundo Samuel Úria em concerto memorável na Casa da Música


Dia 5 de Maio, numa quinta-feira chuvosa, foi o dia escolhido para a invicta receber Samuel Úria num espaço onde se vive e respira música a tempo inteiro: a Casa da Música. O convite foi feito, a sala estava lotada e a noite foi memorável. A apresentação do terceiro disco de Úria, Carga de Ombro, tem recebido críticas louváveis e a sala 2 da Casa da Música encheu para perceber se o hype à volta do álbum tinha razão de ser. Podemos garantir que sim, sem sombras de dúvidas. Nós e todos os que tiveram a felicidade de lá estar presentes.

Carga de Ombro, novo trabalho do senhor Sami (para os amigos) é uma obra que estava acabada há algum tempo, demorou a sair, mas a espera valeu a pena. Um senhor que finalmente regressa aos discos, a quem entregamos com facilidade o coração e a atenção, numa mistura de emoções e sensações que nos fazem absorver facilmente todas as palavras que tem para nos dizer.

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Não é fácil caracterizar Samuel Úria. É cantor, poeta, artesão, cantautor, de influências claramente americanas e cheias de bom gosto. Temos o rock & roller, temos o homem com o pé na pop, temos o homem da palavra, tudo reunido de uma forma mais consistente mas mantendo a essência dos seus discos anteriores.

Úria divide a forma como aborda a música mas sempre pensada de forma integrada. O compromisso dele à “Portugalidade” está na forma como escreve e canta, o que lhe dá a liberdade para ir para onde lhe apetecer. Carga de Ombro é no seu todo umas das coisas mais bem escritas que tivemos a oportunidade de ouvir, com uma voz actual e com a capacidade de ser eterno. Nota-se o seu bom gosto musical e as suas influências claras nas músicas, onde coloca no papel aquilo que vê com uma escrita absolutamente sublime.

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O arranque do concerto (e também do disco) deu-se com o tema “Dou-me Corda”, primeiro single do mais recente álbum, que apresenta um travo que tanto pode ser rock & roll, country rock ou gospel e que entra automaticamente para a galeria dos já grandes clássicos do cantor. Numa mistura de Johnny Cash e Tom Waits, Úria transforma a autocrítica em canções incríveis. Uma análise saudável e constante aos motivos e actos q que a fé dele o “obriga”. Uma experiência verdadeiramente confessional.

Rapidamente percebemos o quanto Úria gosta de interagir com o público, fazendo-o praticamente no intervalo de todas as canções, elogiando a cidade do Porto e a sua Casa da Música.

Acompanhado de um coro de sete jovens cantores e de uma banda composta por Tiago Ramos, Miguel Sousa (ou Guel), Jónatas Pires, Filipe Sousa, David Pires e Silas Ferreira (estes quatro últimos elementos da extinta, ou talvez não, banda d’Os Pontos Negros que já há muito deixa saudade), Samuel Úria rapidamente apresentou um conjunto de músicas mais antigas, e outras mais recentes, como “Espalha-Brasas”, “Aeromoço”, “Nem lhe Tocava” (momento mais intimista apenas com a sua guitarra), “Repressão”, com refrão cantado por Tiago Ramos, com um travo pop mais eufórico, e “Carga de Ombro”, música que dá nome ao último álbum.

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“Se eu tive de tirar o robe do rock & roll é pelo calor que vocês nos dão”, disparou. É evidente a empatia que Úria tem com o público e faz questão de agradecer todo o carinho. Plateia, coro, banda, técnicos, todos são visados e com muitas piadas à mistura.

Continuamos de seguida com “Vem por Mim” que contou com a colaboração de Miguel Ferreira, um dos responsáveis pelo novo álbum, acompanhado de um xilofone, alvo de gozo e brincadeira, num ambiente fantasmagórico, quase a fazer lembrar um concerto de Patrick Watson. Segue-se “Graça Comum”. Um despojamento acústico em que a guitarra tem a função de servir o belo embalo para um cenário muito discreto para a voz que nos diz muito pela forma como as palavras são ditas. Uma música especial que antecedeu um dos melhores momentos da noite.

“Lenço Enxuto”. Uma música estreada ao vivo em plena cidade do Porto, na altura no Hard Club, e que conta com um dos símbolos mais emblemáticos do Porto: Manel Cruz. “Se ele estivesse aqui hoje, convidava-o para vir cantar comigo”, afirmou Úria. “Manel, estás aí? Vem cantar comigo”, reforçou. E veio mesmo, aparecendo entre o público para surpresa de todos. Momento emocionante e recebido com muito carinho e entusiasmo por todo o público que sabia que estava a assistir a um momento grandioso, uma combinação perfeita entre dois grandes cantores, a ouvir uma das mais belas letras e músicas escritas por Úria, presente no segundo álbum O Grande Medo do Pequeno Mundo.

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Estávamos ainda a meio do concerto e por aí vinham mais surpresas. Ouvimos “Palavra Impasse”, com um dos melhores refrões do novo álbum e que tão bem sabe trabalhar a língua portuguesa, jogando na perfeição com o sentido das palavras. As canções estão no geral musicalmente melhor compostas, com um equilíbrio mais requintado entre o espaço que as letras e a voz têm de ter. Com menos faz mais, numa eficácia tremenda e constante que vamos acompanhando ao longo do espetáculo de duas horas.

“É Preciso que eu Diminua” é uma das melhores músicas do álbum que cresce no final de uma forma inesperada, algo que é característico nas obras de Úria. O solo de guitarra de Jónatas Pires a lembrar aquela boa guitarra cheia de riffs que ouvíamos n’ Os Pontos Negros e um bridge em coro a lembrar a sonoridade dos Diabo na Cruz. Seguiu-se o saudoso e já mítico som western do “Não Arrastes o meu Caixão” e “Barbarella e Barba Rala”, temas mais antigos e tão bem recebidos.

As surpresas de facto não tinha acabado e voltámos a ser surpreendidos durante o tema “Ei-lo”, uma pequena pérola do novo álbum, recheada de gospel mesmo à séria, e que foi invadida de forma inesperada por Ana Bacalhau, vocalista dos Deolinda. Com um voz poderosa num registo ao qual não estamos habituados, mais roqueira, mas que tão bem resulta. “Não estavam à espera pois não?”, perguntou Úria. “Deviam estar a passar um cesto de coleta para pagar este espectáculo incrível e inesperado que estão a receber”, brincou. E o que é certo é que as surpresas não terminaram e tivemos direito a uma versão do tema “Não Ouviste Nada”, dos Deolinda, em versão Sami, que soou na perfeição. Ana Bacalhau despediu-se e, já perto do fim (pensávamos nós), ouvimos “O Diabo”. Puro pop, onde recebemos aquele abanar de anca já característico de Úria, seguido da despedida do cantor e de todos os músicos.

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Sabíamos que ainda vinha encore e poderíamos esmiuçar mais daquela bela noite por mais uma ou duas músicas. O que não esperávamos é que ainda levaríamos (e com muito gosto) com dois encores e mais seis músicas pela frente.

Em “Essa Voz”, presenciamos o cantor num registo mais solto, mais experimental entre os vários estilos que envereda. Noutro momento que ficará bem na memória chegou com um curto cover de Prince, num falsete inesperado mas contagiante de “Kiss”, e ainda mais com uma passagem maravilhosamente executada para uma das suas maiores e melhores obras, “Teimoso”, que provocou um súbito abanão dançante em todos os que lá estavam presentes.

O muito aplaudido e esperado “Império”, numa letra épica acompanhada de coros exaltantes que evocam o melhor que há de Úria num final apoteótico que terminou com um “Forasteiro”, que de forasteiro nada teve. Música tão bem-vinda que encerrou um concerto do outro mundo (pensávamos nós novamente).

De coração cheio, o cantor ainda nos ofereceu “Lamentação” do álbum Nem lhe tocava. Introspectivo, apenas de guitarra acústica, acompanhado por todos os músicos no coro, chamou no final os restantes convidados, merecendo a grande ovação que teve.

Sairam do palco e em fila percorreram a sala no meio do público que os rodeou e entoaram em uníssono “Carga de Ombro” por uma segunda vez em congregação. Uma carga de ombro que sabe saltar de ombro em ombro de grandes gigantes da música e não fica demasiado impressionada com eles. Foi uma última prenda e surpresa numa noite especial, memorável, que tão cedo não vamos esquecer. Este Sami já é eterno e eleva a música portuguesa para um nível transcendente.

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Alinhamento

  1. “Dou-me Corda”
  2. “Espalha-Brasas”
  3. “Aeromoço”
  4. “Nem lhe Tocava”
  5. “Repressão”
  6. “Carga de Ombro”
  7. “Vem por Mim”
  8. “Graça Comum”
  9. “Lenço Enxuto” (com Manel Cruz)
  10. “Palavra-Impasse”
  11. “É Preciso que eu Diminua”
  12. “Não Arrastes o meu Caixão”
  13. “Barbarella e Barba Rala”
  14. “Ei-lo” (com Ana Bacalhau)
  15. “Não Ouviste Nada” (versão dos Deolinda com Ana Bacalhau)
  16. “O Diabo”

Encore

  1. “Essa Voz”
  2. “Kiss + Teimoso”
  3. “Império”
  4. “Forasteiro”

Encore 2

  1. “Lamentação”
  2. “Carga de Ombro”

Fotos de: Maria Campilho/Shifter